Sobre “Os Oito Odiados”

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Lançado mundialmente há pouco mais de um ano, “Os Oito Odiados” (2015) foi a mais recente produção de Quentin Tarantino. O cineasta seguiu com uma proposta estética voltada ao western, tal qual se viu em “Django Livre” (2012). “Os Oito Odiados” é um filme acima da média, mas parece ter passado despercebido.

Esperavam-se menções à produção na premiação do Oscar referente a 2015, e as mesmas foram escassas (apenas três). Ainda assim, a indicação ao compositor italiano Ennio Morricone, responsável pela trilha sonora e ícone musical do western, foi merecidamente vencida.

A esquecida atriz Jennifer Jason Leigh recebeu indicação de “atriz coadjuvante”, sem obter êxito. A personagem de Leigh, Daisy Domergue é praticamente a única mulher da trama. Nos primeiros 20, 30 min de filme a debochada Daisy, acusada de assassinato, sofre uma coronhada de revolver na cabeça, uma cotovelada no nariz e um soco no queixo.

As sequências poderiam ser descritas enquanto comédia pastelão de humor negro, incabíveis em padrões comportamentais atuais. A maneira como Daisy é (mal) tratada no filme, provavelmente justifica o por quê do filme ter passado batido na última premiação do Oscar.

Preocupou-se com questões de gênero (o drama transexual “A Garota Dinamarquesa” esteve entre os indicados), além do alarde pressupondo uma cota racial para afro-descendentes, que ganhou a mídia semanas antes da cerimônia. Se condecorado, “Os Oito Odiados” sofreria com protestos feministas infundados.

Ainda assim, Jennifer Leigh reluz de forma incomparável com o rosto carregado de sangue fictício oriundo do vômito hemorrágico de seu carrasco (Kurt Russell), somado a olho roxo mais prótese cenográfica ocultando seus dentes da frente, perdidos após um soco na face. Daisy sorri banguela com escárnio dionisíaco, quando a desgraça atinge quem está ao seu redor.

Tarantino político (há spoilers)

De forma similar a “Django Livre” a ação de “Os Oito Odiados” acaba transposta para a América pós-Guerra Civil (século 1861-1865), posterior a abolição da escravatura. O negro Samuel L. Jackson é o Major Warren, um inusitado ex-raider republicano que obteve sua alforria. Entre os confederados sulistas (e escravistas), a cabeça de Warren valia 30 mil de recompensa.

Espreitado pela nevasca enquanto carrega os corpos de três procurados, Warren obtém carona na carruagem de John Ruth (Russel), outro caçador de recompensas que busca 10 mil por entregar a assassina Daisy viva ao xerife do vilarejo de Red Rock, para onde se dirigem.

A violência de Tarantino é exagerada, mas geralmente surge como reação a algo imperdoável. Os diálogos de Tarantino carregam silogismos que sugerem contraposição de absurdos morais ou absurdos éticos. Ruth conduz Daisy algemada a si, enquanto porta uma espingarda com a outra mão. Sulista, Daisy leva a coronhada após dizer que “um crioulo” não se sentaria ao seu lado, tão logo Ruth aceita dar carona a Warren.

A cena não é diferente do judeu torturador de nazistas em “Bastardos Inglórios”, nem de Beatrix Kido (Uma Thurman/”Kill Bill”) arrebentando a cabeça do enfermeiro valendo-se de uma porta. O enfermeiro a violentava enquanto estava em coma. Trivialmente Tarantino dissolve ordens morais/éticas/jurídicas em suas tramas. Seus personagens são amorais e vingadores.

Daisy acabará enforcada por um republicano e um confederado, condenados a morrerem abraçados. Daisy é uma assassina debochada, representando a liberdade plena do estado de natureza sem leis. A América posterior à Guerra Civil é a América que assinou o contrato social de Hobbes, Locke e Rousseau. A liberdade yankee não é mais do que uma metáfora, um fantasma da liberdade.

Confinamento

A nevasca interromperá a trajetória dos personagens até Red Rock, que serão obrigados a se confinarem no salão de um armazém próximo até que a tempestade cesse. É onde os outros cinco dos oito odiados do título surgirão.

O confinamento no casarão é algo novo explorado por Tarantino, evocando clima claustrofóbico visto em “O Iluminado” (Stanley Kubrick/1980), e no estranho filme de suspense/sci-fi “O Cubo” (1997). Isso somado a um envenenamento ao bule de café, que sugere mistério análogo a algum conto do escritor Edgar Allan Poe.

O dilema racial não se distância daquele abordado em “Django Livre”, cujo romance do roteiro trazia personagens mais carismáticos, dando margem a canções pop impactantes na trilha sonora, algo típico de Tarantino. Por outro lado, “Os Oito Odiados” é superior enquanto filme, sóbrio e excluindo inclusive, o uso de canções populares.

Imagem de Jackson, Leigh e Russell: divulgação