Manchester City: afirmação em impedimento

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Após empate em 2×2 entre Manchester City e Tottenham Hotspur em Manchester (Inglaterra) pela vigésima segunda rodada da Premier League no último sábado, um milhão de aspectos da partida foram ressaltados. O confronto proporcionou grande espetáculo.

Entretanto a forma como o mesmo se desenrolou, manteve a pressão que circunda o treinador Pep Guardiola em Manchester. Para os brasileiros importaram os quase 10 minutos finais da partida, em que o atacante Gabriel Jesus esteve em campo realizando sua estreia em terra britânica.

O pênalti não anotado no atacante citzen Sterling no minuto 76, poderia ter sido o lance capital que impediria o resultado final, ali com a partida já empatada em 2×2, após estar vencendo por 2×0. Na coletiva pós-jogo Guardiola ao menos publicamente, afirmou que o árbitro não tomou a decisão errada. No momento do lance, as câmeras mostraram o treinador desesperado junto ao quarto árbitro.

A verdade insuportável é a de que a defesa citzen segue apresentando falhas primitivas, decorrentes do ofensivismo exagerado proposto por Guardiola. O Tottenham de Maurício Pochettino anulou a pressão citzen pelos 45 minutos iniciais. O City não via meios de ultrapassar da defesa dos spurs, apenas na base do talento.

Quando Pochettino anteviu a possibilidade do contra-ataque e abdicou do terceiro zagueiro de origem em campo (Wimmer), para dar lugar ao sul-coreano Son, o City obteve a esperança da bola longa. Isso uma vez que a linha defensiva dos spurs precisou se adiantar.

Sem o terceiro zagueiro “na sobra” Sané e De Bruyne surgiram na área adversária no lance dos dois primeiros gols, nos quais o erro por excesso de confiança e a falha do goleiro Lloris; deram origem à vantagem obtida pelo City em 54 minutos de jogo. Vantagem mantida por apenas quatro minutos.

A defesa de Guardiola

Guardiola promoveu a carta debaixo da manga na escalação inicial, ao dar titularidade para o alemão Leroy Sané. Meia ofensivo externo de origem, Sané foi colocado por Guardiola em alternância a De Bruyne, que tem atuado mais recuado. Sané/De Bruyne alternavam como segundo homem de meio-campo ao lado de Yaya Touré, no módulo 4-2-3-1.

Touré é o primeiro volante e as permutas que demandavam o desenho em 4-1-4-1 (ou mesmo 4-3-3 dependendo das circunstâncias), permitiam que a dupla Sané/De Bruyne ocupasse espaços na área adversária, algo que ocorreu nos lances dos dois gols citzens. Desta forma Zabaleta, o segundo homem de meio campo na derrota para o Everton na rodada anterior, voltou a lateral-direita.

Guardiola em Manchester no último sábado (Alex Livesey/Getty)

Guardiola em Manchester no último sábado (Alex Livesey/Getty)

Por ora as baixas de Fernandinho (ainda suspenso) e Gündogan (lesionado), não criaram maiores problemas. Em contraparte segue incompreensível a opção do treinador por utilizar Kolarov na quarta zaga, ao passo que o frágil Clichy, continua na lateral-esquerda. Os dois gols dos spurs iniciaram-se no setor do lateral francês.

Por ter atuado no futebol italiano (Lazio), Kolarov dispõe de bom senso defensivo. O lateral sérvio escalado na zaga ainda falhou ao cortar o cruzamento de Walker, que culminou no gol de Dele Alli, o primeiro tento do Tottenham. O que Guardiola ganha abdicando de um zagueiro nato, é um mistério.

Naquela que talvez tenha sido a melhor apresentação do City sob comando de Guardiola, a vitória por 3×1 sobre o Barcelona pela fase de grupos da Champions League em novembro, a escalação não trouxe “invencionices”. Ali Guardiola dispôs de zagueiros na zaga central (Otamendi/Stones) e sim, a dupla Fernandinho/Gündogan, à frente da linha defensiva.

No livro “Guardiola Confidencial” (ed. Grande Área) o jornalista Martín Perarnau ressalta “o sonho” de Pep em fazer que seus times atuem de forma “dominante”, tal qual o seu Barcelona. Noutras palavras, Guardiola quer proporcionar o que o seu Barcelona fez entre 2008 e 2012, sem os jogadores que tinha a disposição no Camp Nou.

No entanto o que se viu nas últimas duas rodadas da Premier League foi uma “dominância” estéril. Foram 71% de posse de bola sem anotar gols, mas sofrendo quatro contra o Everton. E 54% de posse de bola mais 17 ocasiões de gol, em que dois gols só surgiram em falhas do goleiro adversário, contra o Tottenham.

Precipitações

O script para o surgimento do “messias” Gabriel Jesus era perfeito, com o brasileiro entrando em campo para além dos 80 min jogados e partida empatada. Em pouco mais de cinco minutos Jesus protagonizou um cruzamento preciso não aproveitado, uma cabeçada no ângulo do goleiro adversário que não se efetivou em tento, e um gol anulado por impedimento.

Um grito de gol frustrado, precipitado, antes da hora, tipicamente juvenil. O atacante parece plenamente adequado às permutas entre os atletas de ataque do City, predominando na ponta esquerda, mas deslocando-se para a área adversária quando o homem referência, se move. Deverá suplantar Raheem Sterling em breve.

O lance definiu de forma plástica tudo o que tem se vislumbrado de Guardiola, desde o início da atual temporada. Tal qual a cautela para com um atleta de apenas 19 anos, é preciso ter calma com Pep Guardiola em sua primeira Premier League.

Imagem de Gabriel Jesus (a direita) no lance do gol impedido: Andrew Yates/Reuters