A Filosofia na Era Trágica dos Gregos (Friedrich Nietzsche – 1873/1874)

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Fácil de ser encontrado em de edições de bolso, “A Filosofia na Era Trágica dos Gregos” (LP&M)é um texto do filosofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), paralelo às sua duas duas primeiras obras “O Nascimento da Tragédia” (1872) e “Humano, Demasiado Humano” (1878).

O período de criação de “A Filosofia na Era…”, é impreciso podendo estar situado entre 1843 e 1844. Num todo Nietzsche ensaia alguns aspectos de pensadores gregos anteriores ao surgimento de Platão, no século IV a.C. Em textos e aulas introdutórias de filosofia, costuma-se descrever estes pensadores do século V a.C. enquanto “pré-socráticos”.

Nietzsche porém inclui Sócrates entre estes nomes da chamada “época trágica”, uma vez que pensadores como Tales de Mileto, Anaximandro, Zenão e os importantíssimos Heráclito e Parmênides, viveram no período em que as tragédias gregas dos poetas trágicos Ésquilo e Sófocles, ainda eram encenadas em Atenas.

Intérpretes e textos originais

Devido ao ensino de filosofia de má qualidade atrelado ao projeto educacional brasileiro, os alunos (as) por vezes se encontram perdidos entre textos de interpretes (ou comentadores), e os textos dos autores originais. Mais além, costuma-se transformar em engodo hermético apresentações sobre pensadores gregos e medievais, estabelecidos em épocas remotas a nós.

capa da obra (reprodução)

capa da obra (reprodução)

Não se pode temer o escrito de um autor temporalmente remoto. Ele provém de uma cultura muito mais primitiva do que a contemporânea a nós. Deve-se atentar para traduções atualizadas e escritos que involuntariamente carregam rebuscamento, uma vez que são traduzidos do grego arcaico, latim arcaico ou alemão.

No que diz respeito a filósofos gregos muito antigos, textos de pensadores clássicos da filosofia alemã, como os do próprio Nietzsche e Martin Heidegger acabam sendo os mais confiáveis, uma vez que ambos tiveram contato com os textos originais escritos no grego helênico.

Os escritos dos pré-socráticos restaram para a posteridade enquanto registros fragmentados. O estilo de escrita era também bastante primitivo, expressos em sentenças curtas ou mesmo dotados de um estilo de expressão próximo ao da poesia. As narrativas discursivas extensas mais antigas da filosofia, são as que surgiram dos escritos de Platão em diante.

Filósofos da physis

Nietzsche inicia sua apresentação a partir de Tales de Mileto, este tido enquanto filósofo e precursor da aritmética. O intento de Tales de observar a arché (início/princípio, elemento primordial) na água, revelava uma observação do empírico, o que justifica o desígnio dado aos pré-socráticos enquanto filósofos da physis (ou “física”, no sentido de fenômenos físicos).

Os pré-socráticos viviam no momento em que os livros introdutórios de filosofia geralmente catalogam enquanto momento da passagem do pensamento mítico, a margem da racionalidade, à filosofia. Explicações de cunho religioso, oriundas de narrativas da mitologia grega já eram questionadas.

Nietzsche sempre carregou consigo alguma ironia ao se referir a autores dos séculos XVII e XVIII, tais quais os empiristas ingleses (Hume, Berkeley, Locke) ou aos seus compatriotas alemães idealistas (Kant, Schopenhauer). Para Nietzsche os empíricos britânicos eram “menores”, pois para ele os gregos haviam “inventado tudo”.

O discurso nietzscheano é perigoso, estando sujeito a interpretações simplistas que erroneamente podem colocar seu autor enquanto um obscurantista anti-científico, o que é um equívoco comum (e grotesco). Nietzsche se situava no limiar do século XIX, pouco antes da definição daquilo que nós temos enquanto conhecimento científico.

A seu tempo, Nietzsche em específico apontava para a falência da chamada (e hoje obsoleta) doutrina positivista.

Dados da obra: NIETZSCHE, Friedrich. “A Filosofia na Era Trágica dos Gregos”. Porto Alegre, editora LP & M, 2011.

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