“Crônicas” (Bob Dylan – 2004)

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Nesta última quinta-feira o cantor/compositor americano Bob Dylan acabou inusitadamente agraciado com o prêmio Nobel de literatura, concedido pela academia sueca. Mil discussões surgiram na internet acerca da legitimidade ou não dos méritos de Dylan no meio literário.

Aqui todas estas discussões são insignificantes, pois para este que vos escreve Bob Dylan é algo imensurável na cultura ocidental da qual o Brasil é um país periférico. Nem Caetano, nem Gilberto Gil, nem Chico Buarque a ele se equiparam. No que diz respeito ao music business, Dylan nunca dependeu de verba pública e/ou influência de governo corrupto, sendo ele um artista mundial muito maior do que qualquer outro do showbusiness brasileiro.

No aspecto artístico/literário, talvez em profundidade e densidade daquilo que seus escritos (englobando-se em seu caso, letras de inúmeras canções) evocam, Dylan só seja comparável a escritores do âmbito cultural brasileiro como Nelson Rodrigues ou Guimarães Rosa. E ainda assim esse tipo de comparação é desnecessário.

O talento literário de Bob Dylan foi expresso em forma poética no livro “Tarântula” (“Tarantula” no original) de 1971, o qual chegou a ser editado no Brasil em 1986 pela Editora Brasiliense, material atualmente fora de catálogo. Em prosa, Dylan trouxe o recente “Crônicas – Volume Um” em 2004.

Capa de "Crônicas Volume Um" (reprodução)

Capa de “Crônicas Volume Um” (reprodução)

“Crônicas” foi publicado no Brasil em 2005, editado pela Planeta e traduzido pelo escritor gaúcho Eduardo Bueno. Seu conteúdo não é ficcional, com Dylan expressando memórias autobiográficas em forma de narrativas não muito extensas, como faz supor o título da obra.

O produto final é ágil, distante de autobiografias morosas e intermináveis, com o autor enfocando os pontos que ele mesmo julga mais relevantes em sua própria trajetória. Algo que pode não condizer com momentos em que ele criou álbuns considerados seminais, por crítica e fãs. Valem menção os segundo e quarto de cinco capítulos totais.

No segundo intitulado “A terra perdida”, Dylan nascido em Duluth (Minnesota/EUA) em 1941, recorda sua chegada à Nova York no início da década de 1960. O cantor/compositor rememora a forma como entrou em contato com as primeiras músicas que ouviu na vida, via rádios e discos em vinil.

Bem como relata as experiências literárias que teve como leitor, ao ler os livros da biblioteca particular que havia na casa de um casal de amigos seus. A Big Apple na América do pós-Guerra escondendo em suas entrelinhas os desígnios da Guerra Fria, era o que Dylan aludia como “A Terra Perdida”, do poema de T.S. Eliot.

No quarto capítulo simplesmente intitulado “Oh Mercy”, Dylan recorda um acidente sofrido por volta de 1987, que lesionou uma de suas mãos obrigando-o a adiar uma turnê e se re-inventar no que dizia respeito a sua forma de tocar. O período do fim dos anos 80 remete a um momento bastante superficial da indústria fonográfica, artisticamente muito diferente dos anos 60 e 70.

A reminiscência culmina com o relato de uma visita feita por Bono Vox, ocasião em que Dylan mostrou para o vocalista do U2 anotações de canções que talvez seriam queimadas com “fluido de isqueiro”. Bono vivia a época de chegada do U2 ao mainstream com o hoje clássico “The Joshua Tree” (1987), indicando o produtor Daniel Lanois à Bob Dylan.

Lanois e Dylan acabam por gravar “Oh Mercy”, lançado em 1989 e posteriormente pouco ou nada lembrado pela crítica. A narrativa faz crer que Dylan atribui grande importância ao registro.

Dados da obra: DYLAN, Bob “Crônicas Volume Um”. São Paulo: editora Planeta, 2005.

Imagem de Dylan: divulgação