“Dias de Nietzsche em Turim” (2001).

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Nestes tempos atuais de produções cinematográficas brasileiras em profusão, alguns títulos se obscurecem e outros podem ser redescobertos, causando alguma curiosidade. “Dias de Nietzsche em Turim” foi lançado em 2001, tendo direção de Júlio Bressane e roteiro co-escrito pelo diretor associado à professora Rosa Maria Dias (UERJ/RJ).

Como o título deixa transparecer, a trama apresenta o espectador ao filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), vivendo seus últimos anos de lucidez e vida. Mas não se trata de algum tipo de documentário e sim de um drama, enfocando de forma áudio e visual a biografia do filósofo, vivido pelo ator Fernando Eiras.

Em seus últimos anos, Nietzsche passou a residir em cidades da Europa mediterrânea, situando-se mais ao sul do continente e mais ao fim da vida, em cidades no interior da Itália. O pensador convivia com enfermidades médicas diversas, buscando condições climáticas mais distantes de estações invernais.

Nietzsche residiu em Turim (Itália) pela última vez entre 1888 e 1889, perpassando um período em que escreveu suas obras maduras, tais quais “O Caso Wagner”, “O Crepúsculo dos Ídolos” e a inusitada compilação de aforismos quase autobiográficos “Ecce Homo”.

Controvérsias.

O próprio Nietzsche auto-contrapõe-se à diversas reflexões inicialmente elucidadas em suas obras iniciais. O período em Turim, marca um distanciamento para com a música do compositor alemão Richard Wagner, e para com o Idealismo proposto pela cultura e filosofia da Alemanha.

Dias_de_Nietzsche_em_Turim

Musicalmente Nietzsche estava apreciando a música de Georges Bizet, na década de 80, dos anos 1800. A própria trama de “Dias de Nietzsche em Turim” deixa explícita essa preferência, com o filósofo interpretado por Fernando Eiras, afirmando várias vezes a sua preferencia pela ópera “Carmen”. Nietzsche possuía formação musical, algo que lhe possibilitava uma interpretação inalcançável (para não músicos), daquilo que ouvia.

Percepção esta inalcançável, ininteligível e perigosamente especulativa, aos olhos e ouvidos de muitos estudiosos e interpretes do autor, que se detém à questão da música em sua obra. Num outro aspecto, Nietzsche mostrava-se incomodado com o tom cristão da ópera “Parsifal”, composta por Wagner no fim de sua carreira.

Para Nietzsche, Parsifal o personagem era anti-natural pois num dado momento da trama, se auto-castrava num ato de penitência. A cigana Carmen da ópera homônima de Bizet, levava o marinheiro Don José a loucura devido à uma paixão febril, num desígnio muito mais próximo do que Nietzsche observava enquanto “dionisíaco”, ou “trágico” no sentido helênico deste conceito.

Nos bastidores do filme.

O elenco de apoio não é menos curioso, sendo composto por nomes conhecidos do grande público, tais quais o ator Paulo José e as atrizes da rede Globo, Mariana Ximenes e Leandra Leal. A ação geral é bastante monótona, pois as vidas privadas de filósofos eram minimamente “chatas”, com verossímil certeza.

Por outro lado, a atuação de Fernando Eiras se sobressai com o mesmo se pondo a declamar diversas passagens da obra de Nietzsche, praticamente transformando os textos em (ótimos) monólogos. Os momentos em que o ator personifica o filósofo já padecendo de desatino psicológico, são também bastante realistas. Tal qual a cena em que Nietzsche dança nu, portando um cacho de uva e uma máscara do deus grego Dionísio.

O roteiro em português brasileiro não causa discórdia, uma vez que o próprio Nietzsche viu-se irritado não apenas com a cultura mas também com a língua alemã, no período de sua obra madura. Em certo momento de sua vida, Nietzsche chegou a afirmar que preferiria ter escrito “Assim Falou Zaratustra” em francês, ao invés do alemão.

A pesquisa demandada pela produção do filme é relevante, creditando-se ainda os docentes Roberto Machado (UFRJ/RJ) e Scarlett Marton (USP/SP). Os textos utilizados se pautam pelas traduções de Paulo César de Souza, responsável pelas traduções brasileiras das obras de Nietzsche, editadas pela Companhia das Letras.

Imagem de Fernando Eiras como Nietzsche: divulgação.

“Dias de Nietzsche em Turim” pode ser visto na íntegra no You Tube: