Camille Paglia no Roda Viva.

Camille-Paglia-x660 (2)

Finalmente o programa Roda Viva da tv Cultura do último dia 22/10, exibiu a participação da ensaísta, escritora, crítica cultural e professora norte-americana Camille Paglia. A intelectual é relacionada por vezes, de forma displicente à conceitos de “feminismo” ou “movimento feminista”.

Tomá-la exclusivamente enquanto porta voz desta causa, é um ato tolo que reduz a importância de uma intelectual relevante da contemporâneidade. Paglia é lembrada por uma interpretação crítica que enalteceu Madonna, no início dos anos 1990. Professora da University of Arts of Philadelphia (Penssylvania/EUA), a autora divulga seu mais recente livro “Imagens Cintilantes (Editora Apicuri/2014), que enfoca teoria e história da arte. O livro pouco ou nada tem a ver com questões “feministas”.

A condução do Roda Viva pecou por priorizar questões sobre o “feminismo”. A concepção do feminismo de Camille Paglia, pode surgir incompreensível a um invólucro cultural brasileiro, que carrega traços evangélico/católico/judaico/cristãos. Por diversos momentos, Paglia deixa nas entrelinhas alguma influência da filosofia de Friedrich Nietzsche, situando o seu feminismo num plano amoral, em termos filosóficos.

A intelectual descreve sua visão feminista no decorrer do programa, delineando-a enquanto um “feminismo de drag queen”. Sua perspectiva feminina é a de uma mulher agressora e transgressora. Sua interpretação que desvincula juízos morais acerca do conceito de pornografia, implica numa assepsia no que diz respeito à qualquer tipo de moralismos; os quais segundo ela, se encrustam às próprias ideias de “feminismo”.

Entre amoralidade e fisiologia.

É preciso ressaltar que Camille Paglia não desconecta sua interpretação cultural de conceitos ligados à sexualidade, de uma perspectiva biológico/fisiológica. Outro ponto que converge para com a obra de Nietzsche. Este aspecto fica claro quando ela explica porque não considera um ou uma transexual, homem ou mulher de fato.

Sua interpretação de homem e mulher, requer o componente biológico. Mas é preciso lembrar que Paglia é homossexual. A escritora ainda ressalta a disposição biológica feminina para a maternidade. Compara a vida de uma mulher da elite yankee, que postergou a maternidade em nome da carreira profissional; à uma mulher da classe operária yankee.

A ensaísta pontua que a satisfação existencial de trabalhadoras da classe operária que foram mães cedo, são significativas. Ela propõe ênfase em licenças maternidades durante a vida universitária (com certeza dentro de perspectiva de ensino superior yankee, diferente do brasileiro), para privilegiar o frescor biológico para a maternidade.

Outro detalhe interessante da interpretação de Paglia se dá no momento em que ela não condena a cantora Rihanna, que teve tornado público anos atrás, o caso de agressão doméstica imposto por seu parceiro sentimental (e rapper) Chris Brown. Paglia ressaltou que a relação de Rihanna e Brown, foi pautada por hábitos de cunho sadomasoquista. Uma relação sadomasoquista jamais será compreendida, dentro de perspectivas moralistas e/ou judaico/cristãs.

A ensaísta dá a entender algum repúdio por interpretações generalistas, acerca de casos de agressões domésticas contra mulheres. Tal tipo de agressão com certeza deve ser coibido e criminalizado, mas na perspectiva amoral de Paglia, nada impede a mulher de revidar uma agressão ou agredir em legítima defesa.