A Juventus aguarda a final da Champions League que será disputada em Berlim (Alemanha), no próximo sábado, tendo os bianconeri como adversário o Barcelona. O periódico espanhol El País jogou luzes sobre o ressurgimento da equipe italiana que há dez anos sofreu as consequências do chamado “calciocaos”, que eclodiu no futebol de seu país.

Pouco antes do Mundial de 2006, vencido pela Itália, o Calcio foi estremecido por investigações que deram conta de manipulações de resultados e irregularidades em gerenciamento e contratações de atletas. O epicentro dos problemas se dava dentro do corpo administrativo da Juventus, propriedade da família Agnelli desde sempre. Tradicional familia na Itália os Agnelli ostentam a automobilística Fiat, em seu patrimônio.

Na temporada 2006/2007, a Juve foi rebaixada para a Série B italiana iniciando um intento de reconstrução, que culmina com este momento em que o clube pode vencer sua terceira CL. Hoje a Juve é presidida por Andrea Agnelli, neto de Edoardo Agnelli, sobrinho de Gianni Agnelli e filho de Umberto Agnelli, seus três antecessores respectivamente.

A estrutura do futebol italiano pode ser descrita enquanto tão corrompida e controversa, quando a estrutura administrativa de qualquer polo futebolístico sul-americano; mesmo estando na Europa. Em quase dez anos o calciocaos empobreceu o outrora rico Calcio, limando toda e qualquer credibilidade ao seu redor.

O El País descreve Andrea Agnelli enquanto um dirigente sensato e sim, preparado. O atual presidente bianconeri é formado na Saint Clare’s International College de Oxford (Inglaterra), e também na Universidade Bocconi de Milão. Andrea trabalhou para a Ferrari e para a Philip Morris, fundando sua própria holding financeira a partir de 2007.

Gestor sensato.

Ao contrario das orgias financeiras protagonizadas há 10, 15 anos atrás por Internazionale, Milan dentre outros clubes italianos, a Juve atual prima pela gestão pés no chão, comportando-se humildemente como uma “força média” europeia. O El País destaca que a Juve mantem seu atual elenco com um valor de 280 milhões de Euros, obtidos em ingressos vendidos.

Um número pequeno se comparado por exemplo, com os 530 milhões de Euros em ingressos vendidos pelo Barcelona, no ano passado. Financeiramente a Juventus depende de si mesma, ao contrário de Inter, Milan e Roma. Inter e Roma já contam com investidores estrangeiros, o Milan dentro em pouco deve estar anunciando aporte financeiro de um investidor tailandês.

A força motriz da saúde financeira do clube é a Juventus Arena de Turim, construída posteriormente ao calvário da Série B. O detalhe espantoso é que a Juve é a única agremiação futebolistica italiana dotada de estádio próprio. O objetivo da Juve é chegar a marca de 350 milhões angariados em venda de ingressos, na próxima temporada.

Isso somado a um novo contrato firmado com um novo fornecedor de material esportivo. A Adidas substituirá a Nike, oferecendo 23 milhões de Euros, 10 milhões a mais que o previsto pelo contrato a expirar proposto pela empresa norte-americana.

Plantel a procura do bom e barato.

O El País ressaltou palavras de Andrea Agnelli ao Financial Times que afirmou que houve uma revolução tanto desportiva quanto empresarial dentro da Juve. Anteriormente era impossível adquirir um craque ou um “jogador campeão”, como se diz na Itália, com o clube buscando 10 atletas novos a cada temporada.

O craque também pode demandar desajustes no plantel, o que interfere no uso do valor arrecadado. Se o mercado oferece a oportunidade, abre-se as portas (e os cofres). Se não, não. Agnelli pontua que foi preciso decidir se prosseguiria-se com o gasto ilimitado ou a buscaria-se pelo craque oportuno, se este fosse oferecido pelo mercado. O jogador campeão precisa se adequar ao perfil do plantel e ter bom custo benefício.

O El País sublinha a folha salarial atual da Juve que tem em Carlitos Tévez seu atleta mais caro, recebendo cerca de 4,5 milhões de Euros anuais. Em segundo lugar vem o goleiro e ídolo Gianluigi Buffon com 4 milhões anuais. Buffon aceitou redução salarial em relação ao vínculo anterior, que previa 6 milhões anuais. O goleiro tetracampeão em 2006, se manteve no clube mesmo durante a Série B.

São números drasticamente menores por exemplo, aos dos três maiores salários do Barcelona. Messi recebe 20 milhões de Euros anuais, Neymar 14 milhões e Suárez 10 milhões. A direção esportiva da Juventus também se viu obrigada a mudar após o calciocaos ter envolvido seu antigo gestor (e agente de atletas) Luciano Moggi. Beppe Marotta é o diretor geral e de futebol e Fabio Paratici é o diretor esportivo. O ídolo recente aposentado em 2009, o tcheco Pavel Nedved ex-meia da Juve é o braço direito de Marotta, na parte futebolistica.

O plantel bianconeri ainda destaca um alto número de atletas locais. São 16 italianos de 26 jogadores inscritos na CL. A contratação mais cara para esta temporada foi a do atacante espanhol Álvaro Morata, que custou 20 milhões de Euros. Pouco antes, o clube pagou 10 milhões de Euros por Arturo Vidal e 10 milhões também pelo citado Tévez, então desvalorizado. Os destaques Andrea Pirlo e Paul Pogba chegaram a custo zero, trazidos em fim de vínculo com seus ex-clubes. Se o mercado apresenta a oportunidade o clube investe. Se não, não. Simples assim.

Já tendo vencido a Série A e a Coppa Itália a Juventus pode obter uma tríplice coroa européia se vencer a final da Champions League, feito na Itália só obtido pela Internazionale em 2010. O El País frisou ainda que Andrea Agnelli afirmou que pagaria uma entrada para uma partida em Anfield Road, com o intuito único de ouvir a torcida do inglês Liverpool entoar a canção “You’ll Never Walk Alone”.

Agora em 2015 se completam 30 anos da tragédia de Heysel na Bélgica, onde torcedores da Juventus acabaram mortos após confusões com hooligans reds. A ocasião se deu na decisão da CL ainda sob o nome de Copa dos Campeões, vencida pela Juventus contra o Liverpool em 1985.

Imagem de Andrea Agnelli (a esquerda) em cerimonia de homenagem às vítimas da tragédia de Heysel: Marco Bertorello – AFP