Blatter re-eleito: o inferno não é um mau lugar.

Joseph-Blatter

“Hell ain’t a bad place/Hell is from here to eternity!”
(“From Here to Eternity” – Iron Maiden)

Como alardeado por toda a imprensa mundial, o presidente da FIFA Joseph Blatter conseguiu se re-eleger na última sexta-feira. O presidente da entidade máxima do futebol, eleito pela primeira vez em 1998, segue no comando da instituição por mais quatro anos.

Com a explosão das noticias sobre a prisão de dirigentes ligados a FIFA na última quarta-feira em Zurique (Suíça), informações sobre a forma da FIFA se portar mundialmente, chegaram ao grande público. Convém esclarecer que postura democrática nunca foi parte do modus operandi dos dirigentes máximos da entidade.

Desde sua fundação na França no começo do século XX, Jules Rimet seu primeiro presidente se manteve a frente da instituição por mais de 30 anos. O antecessor de Blatter, o brasileiro João Havelange, presidiu a FIFA por exatos 24 anos. Além disso as engrenagens políticas da entidade parecem funcionar de forma harmônica.

A geopolítica de Blatter.

Como se a geopolítica futebolística fosse um tabuleiro do antigo joguinho War, Blatter conquistou os territórios que sustentam sua permanência no poder de forma perspicaz. Em 2002 obteve apoio de coreanos do sul, japoneses (e chineses por tabela, estes dotados de futebol subdesenvolvido), com o Mundial Japão/Coreia, o primeiro da história em duas oportunas sedes.

Em 2006, o torneio voltou brevemente à Europa sediado na Alemanha. Porém em 2010, Blatter obteve o apoio dos africanos com o Mundial na África do Sul, primeiro da história naquele continente. Se por um lado, os EUA começam a despertar para o esporte bretão tão recentemente, por outro, os países periféricos da Concacaf, que englobam os yankees sempre foram alvos fáceis.

Os integrantes da sul-americana Conmebol fariam o favor de corromper os integrantes latinos da Concacaf. A estes escudeiros onde se inclui o país do suposto “melhor futebol do planeta”, um Mundial em 2014. Entretanto, a relação com a Europa mudou drásticamente de figura com Blatter se posicionando ao lado de um opositor do ocidente (Vladmir Putin), dentro do velho mundo. Àos russos, um mundial em 2018 em detrimento a uma copa na Inglaterra, terra dos inventores do futebol e detentores da melhor liga nacional europeia atual (Premier League).

Os EUA se esqueceram que seu parceiro na FIFA para o Mundial de 1994, era João Havelange e uma aposta furada de que o futebol se desenvolveria lá nos anos 1980. Blatter não precisa dos yankees e fortificou sua aliança com a Ásia, dando ao Catar a possibilidade de sediar a primeira copa em território árabe em 2022.

O melhor futebol da Oceania é jogado pelos australianos, deslocados para as eliminatórias da Ásia, para dar chance ao futebol subdesenvolvido de seu continente. Faltou um agrado aos pequenos países da Oceania, que poderia vir com uma vaga direta, tomada da quinta vaga sul-americana. Isso não fossem as prisões da última quarta-feira.

Mas Blatter venceu seu joguinho de War, com certeza ostentando a carta que dizia o objetivo da conquista de 24 territórios a sua escolha. Ele não precisa do prestígio norte-americano, nem do super-desenvolvido futebol europeu da UEFA. Pode saber de crimes diversos investigados pelo FBI, mas o tortuoso principio amoral e apátrida da FIFA, discerne bem a diferença ontológica entre “saber” e “cometer”.

O calendário FIFA do novo mandato de Blatter já está em curso, com o Mundial sub-20 sendo realizado a uma semana na Nova Zelândia. Uma copa na Oceania, virá em breve tenham certeza. No próximo fim de semana, a copa do mundo de futebol feminino inicia-se no Canadá. E em pouco mais de uma semana, uma fúnebre Copa América terá início no Chile.

Alexandre da Macedônia e Napoleão não dispunham de um pretexto tão universal para expandir seus domínios. Blatter sim. O futebol é um esporte. Mas é também o ópio do povo.