Nietzsche – Biografia de uma tragédia. (Rüdiger Safranski – 2001).

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Biografias de filósofos importantes da história do ocidente abundam, sendo encaradas equivocadamente como fonte definitiva de entendimento da obra toda do biografado, pelo grande público. Isso acontece muito no Brasil onde o projeto educacional é falho e a carga horária de aulas de humanidades é escassa.

Há uma carga horária absurda de disciplinas de exatas, sendo que o cidadão sai da escola mal sabendo calcular o juros do cartão de crédito. Há uma carga horária absurda de aulas de gramática, que imagino, devem visar um virtuosismo linguístico, mas o cidadão sai da escola analfabeto funcional. Não consegue interpretar o que lê. Porém, solucionar isso não é problema desde que vos escreve e sim de algum gestor do MEC.

“Nietzsche – Biografia de uma tragédia” (Geração Editorial) é uma das poucas e realmente relevantes biografia do pensador alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), já disponibilizadas no mercado editorial brasileiro. Seu autor Rüdiger Safranski, é um filósofo alemão recente e suas obras dedicadas às biografias de Arthur Schopenhauer e Martin Heidegger, também foram editadas nos mesmos moldes pela Geração Editorial.

Cabe explicarmos aqui ao grande público que um texto filosófico implica no fato deste ter sido escrito em primeira pessoa, por seu próprio autor original. Safranski narra documentada pesquisa sobre a vida pessoal de Nietzsche, num ou noutro momento amparando as vivencias do biografado com sua obra. Porém, biografia não é texto filosófico.

Outro grande problema de alunos que se deparam com disciplinas ligadas a filosofia em graduações diversas (direito, administração, pedagogia, psicologia, etc), é o entendimento de que a vida pessoal do filósofo NÃO interessa quando se estuda a sua obra. Isso mesmo que a vida pessoal do pensador estudado contradiga tudo aquilo que ele propõe em seus escritos.

Nietzsche, um triângulo amoroso e Zaratustra.

Quando enfatiza o período que Nietzsche viveu nos anos 1880, Safranski inevitavelmente se depara com a época em que o pensador alemão conheceu a escritora russa Lou Andreas Salomé. Na realidade, Paul Reé amigo de Nietzsche sempre mencionado nas biografias do pensador, foi quem intermediou um encontro entre Salomé e o filósofo.

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Entretanto, Reé sexualmente interessado em Salomé formaria por algum tempo um esquisito triângulo, completo pelo próprio Nietzsche, que finalmente se juntaria a ambos por volta de 1882. Nietzsche e Salomé se conheceram na catedral de São Pedro em Roma (Itália), quando o filósofo proferiu á moça uma frase bastante reverberada em suas biografias: “De que estrelas caímos um ao encontro do outro?”.

Os três realmente chegaram a um convívio doméstico juntos, num triângulo intelectual eunuco e pseudo-erótico. A narrativa de Safranski é verossímil, a ponto de se imaginar a partir da própria, a esquete de uma patética comédia romântica sem final feliz. Nietzsche se vale do próprio Reé para pedir Salomé em casamento, numa de várias tentativas frustradas.

Uma disputa feminina entre Salomé e Elizabeth, irmã de Nietzsche também perturba a relação. Elizabeth teria dito a Nietzsche que Salomé o tomava enquanto egoísta e uma farsa intelectual a escrever uma obra que apresentava sinais de demência. Safranski afirma que não há como precisar se Elizabeth transmitiu o que Salomé realmente disse, ou se a irmã desgostando da pretendente de Nietzsche, caluniou a russa.

Anti-social extremo Nietzsche foi realmente afetado pela aproximação com Salomé, a quem chega a se referir como “discípula” em muitos escritos extra-oficiais. Após este período de frustrações sentimentais, o pensador começa a redigir aquilo que virá a ser “Assim Falou Zaratustra”, sua obra magna segundo alguns.

Muitos ainda cogitam uma pouco provável hipótese de Salomé ter sido a suposta “musa inspiradora” da obra. Safranski apenas compara a inserção de Nietzsche num convivo social mínimo, ào momento em que o personagem Zaratustra desce da montanha em que se exilou por anos.

Livro bastante controverso, “Assim Falou Zaratustra” é recebido de forma confusa inclusive por leitores do âmbito acadêmico da própria filosofia. Escrito numa perspectiva poética/literária, o “Zaratustra” de Nietzsche não se configura exatamente enquanto um texto filosófico.

Dados da obra: “Nietzsche – Biografia de uma tragédia”. São Paulo. Geração Editorial, 2001

Imagem: curiosa foto que reúne Salomé, Paul Reé e Nietzsche – reprodução