FIFA: o dia em que a casa caiu.

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Nas primeiras horas desta quarta-feira 27/05 já era divulgada a notícia de que dirigentes ligados à FIFA, entidade máxima do futebol mundial haviam sido detidos pelas autoridades em Zurique (Suíça). Tratava-se de uma operação conjunta entre as autoridades dos Estados Unidos e as autoridades suíças, uma vez que a sede da entidade fica na Suiça.

Entre os sete dirigentes detidos está o brasileiro José Maria Marin, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol, a frente da entidade futebolística brasileira até o início deste ano. Marin ocupava o quadro da CBF como vice-presidente, mas a entidade emitiu nota afirmando que o mesmo já está afastado.

O epicentro da investigação foi eclodido pelos EUA, iniciando os trabalhos há 3 anos atrás. Os yankees perderam a escolha da sede da Copa de 2022 para o Catar, suspeitando de propinas que compraram os votos favorecendo a sede árabe. A investigação no entanto, extrapolou fronteiras e instâncias, tendo chegado a outros delitos paralelos. Tais quais vendas de transmissão de torneios sul-americanos e viabilização do Mundial realizado na África do Sul em 2010.

Como age a FIFA.

Grosso modo, a FIFA age como entidade apátrida (se é que legalmente/juridicamente isso é qualificável). Quando os países aceitam abrigar seus eventos, como aconteceu no Brasil em 2014, a entidade veta a legislação local. Na prática, a nossa legislação referente aos direitos do consumidor, por exemplo, foi anulada para o torneio ocorrer.

Assim pôde-se vender ingressos para “jogos às cegas”, sem os sorteios das chaves serem definidos. Hipotéticamente, o consumidor poderia comprar um ingresso que caberia para um Brasil x Argentina ou um Peru x Honduras, não podendo ter o direito de reclamar. O intento é encher todos os estádios incluindo-se partidas de menor expressão.

Porém formalmente, a entidade FIFA é uma associação civil comum sujeita às legislações da Suíça onde está sediada. Essa é a interpretação do doutor Pedro Trengrouse advogado e consultor da ONU, entrevistado na noite de quarta, no programa 4 em campo da rádio CBN. Juridicamente, ninguém está habilitado a agir de forma apátrida.

O aspecto político.

Há ainda um componente político nas entranhas do escândalo que eclodiu nesta quarta, obviamente oriundo do interesse norte-americano. Os EUA e a Inglaterra apoiam a chapa oponente do presidente Joseph Blatter, para a próxima eleição da FIFA, que acontece nesta sexta. O opositor é o principe Ali Bin Al Hussein da Jordânia. A UEFA, entidade que representa o futebol da Europa, sugere o adiamento do pleito.

Moralmente, os EUA tem habilitação para fazê-lo. Suas ligas esportivas da NBA ao desportivamente controverso UFC, são ligas privadas, modelos de administração profissional, que pagam impostos e terminantemente independem de verba pública. O futebol vive um momento de expansão nos EUA, com o crescimento da Major League Soccer (ou MLS). Alguns indícios das irregularidades eram suspeitados pelos yankees dentro da própria CONCACAF, entidade que representa o futebol da América do Norte e Central.

O extenso relatório providenciado pelas autoridades norte-americanas ainda mantém muitos nomes em sigilo, os quais fazem subentender para os brasileiros, muito prováveis participações de Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF. Teixeira fugiu do nosso país pouco antes da Copa das Confederações de 2013.

A viabilização da copa no Brasil começou a ser alinhavada por Teixeira e o então presidente Luís Inácio Lula da Silva, na metade da década passada. Como afirmamos, não apenas as candidaturas das sedes dos próximos Mundiais (Rússia e Catar) estão sendo colocadas em xeque. Há suspeitas sobre o Mundial da África do Sul também. Não será estranho se fatos sobre a realização do Mundial 2014 virem a tona.

As autoridades yankees observam o início do rastro controverso que leva ao estado atual da FIFA, em 1991. A cifra aproximada de propinas e subornos manipulados pelos acusados, chega a 150 milhões de dólares. Os dirigentes detidos devem ser extraditados para os EUA nos próximos 40 dias.

Imagem de Joseph Blatter (a direita) e Julio Rocha, presidente da federação da Nicarágua, também investigado: O. Rivas – Reuters