FIFA: a improbidade do intento apátrida.

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O periódico espanhol El País entrevistou o pesquisador equatoriano Fernando Carrión, presente numa conferencia em San Juan de Puerto Rico (Espanha), na última quinta-feira. Carrión ex-jogador de futebol e pesquisador da Faculdade Latino Americana de Ciência Sociais (FLACSO), fez parte do congresso LASA de estudos latino americanos.

O El País o abordou acerca dos problemas eclodidos dentro da FIFA. Quando perguntado por que a situação chegou a tal ponto extremo, Fernando Carrión acenou para a controversa constituição jurídica da entidade FIFA, sob o formato de ONG (organização não governamental). A sede da FIFA localizada na Suíça, se constitui juridicamente sobre um paraíso fiscal, o que possibilita movimentações de valores financeiros absurdos.

Carrión deu como exemplo simples os valores angariados pela FIFA, com a realização da copa do mundo 2014, no Brasil. Como sabido, a instituição manejou entre 30 e 40 milhões de dólares, oriundos de patrocinadores e empresas de televisão que compraram os direitos de transmissão do evento.

Os corruptores sem fronteiras.

Quando perguntado pelo El País sobre a responsabilidade da América Latina na questão, Carrión enfatizou que se trata de um “problema mundial”, porém contando com figurões nefastos de origem latino-americana. O pesquisador mencionou punições sofridas pelo ex-presidente da FIFA, o brasileiro João Havelange e pelo ex-presidente da Conmebol, o paraguaio Nicolás Leoz, levando-os a renuncia de seus cargos de presidente honorário da FIFA e presidente da Conmebol, respectivamente.

A fuga do ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira para Miami (EUA), antes da Copa das Confederações 2013, também foi ressaltada por Carrión. O problema não está no futebol latino-americano em sim em corruptores latino-americanos. O pesquisador equatoriano enfatizou ainda que a dimensão que a FIFA adquiriu, se deve em grande parte à gestão de João Havelange.

Havelange buscou a internacionalização da entidade mediante o processo de expansão mercantil do futebol. Presidindo a FIFA nos anos 90, a gestão de Havelange coincide com a transformação do futebol em negócio milionário. O atual presidente Joseph Blatter, assumiu a entidade em 1998, finalizando o processo de controverso agigantamento da FIFA, na interpretação de Carrión.

Quando questionado sobre que tipo de reforma a FIFA necessita, Carrión reafirma que a mudança em sua configuração de ONG precisa ser alterada. O equatoriano afirma que o futebol “deve ser entendido como bem público e como tal, sujeito a regras nacionais e internacionais”. Como temos afirmado neste site, a FIFA age com intenções apátridas, passando por cima de normas e legislações nacionais.

Carrión novamente recorre a um exemplo do Mundial 2014, quando a entidade obrigou os parlamentares brasileiros a alterarem a legislação vigente pelo período de realização da copa. O exemplo mínimo usado por Carrión especificamente mencionou a violação do “estatuto do torcedor”, que proíbe a venda de bebida alcoólica nos estádios brasileiros. Durante a copa os estádios puderam comercializar bebidas alcoólicas.

Repudiar este intento apátrida da FIFA é a mensagem enviada pela intervenção dos EUA, na opinião de Carrión. Qualquer estado nacional é soberano para se opor a FIFA e pode fazê-lo valendo-se de suas simples federações. Os EUA impuseram um questionamento da estrutura da FIFA, o qual poderá empreender uma reforma da gestão do futebol em nível mundial.

Imagem de Fernando Carrión: Neysa Jordán