Cruze Esta Linha (Salman Rushdie – 2002).

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Muito antes dos atentados ao periódico político/humorístico francês Charlie Hebdo, o escritor anglo-hindu Salman Rushdie, já havia sido o primeiro grande ícone midiático ameaçado de morte pelo mundo islã. Muito antes de “Submissão” de Michel Houellebecq, “Os Versos Satânicos”, best seller escrito por Rushdie, já havia evocado a ojeriza sangrenta de líderes muçulmanos.

A obra de Rushdie é até popular no Brasil, ainda que muitos títulos do autor disponibilizados aqui pela Companhia das Letras, estão atualmente fora de catálogo. É o caso desta coletânea “Cruze Esta Linha” lançada no Brasil em 2007 e que compila ensaios, crônicas e textos curtos de Salman Rushdie.

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Dentre os textos principais de Rushdie em “Cruze Esta Linha”, aqueles em que ele relata a experiência de ter sido perseguido pela fatwa ordenada pelo aiatolá Khomeini, no começo dos anos 1990, com certeza são os mais relevantes. Rushdie se tornava um problema para qualquer país que resolvesse acolhê-lo.

O temor era a transformação imediata do país em alvo de represálias terroristas vindas do Irã, caso algum lhe concedesse exílio. Para se ter uma ideia, o tradutor italiano de “Os Versos Satânicos” sobreviveu a um atentado e o tradutor da edição japonesa, foi vítima fatal.

Rushdie, Bono e o U2.

No texto “U2” também incluso em “Cruze Esta Linha”, o escritor anglo-hindu relata os laços de amizade formados com Bono Vox e os outros integrantes do conjunto irlandês U2. Rushdie entrou em contato direto com a banda no período dos álbuns “Achtung Baby” (1991) e “Zooropa” (1993).

Na época em que o escritor se tornava um problema político em qualquer país em que resolvesse residir, Bono levou Rushdie para o palco de um show da ZooTv tour, realizado em Wembley (Londres/Inglaterra) em 1993. A ideia era mostrar solidariedade em nome da liberdade de expressão artística, algo típico do vocalista. Nos bastidores daquela apresentação, o fotógrafo holandês Anton Corbijn registrou a famosa foto em que Bono e Rushdie, trocam os seus óculos.

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Bono e Rushdie (a direita). Foto: Anton Corbjin.

Rushdie afirma que embora oriundos de contextos religiosos diferentes, ele e o U2 se identificaram por meio deste aspecto. Rushdie fugitivo do mundo islã e o U2 surgido dos escombros da disputa entre católicos irlandeses e protestantes ingleses. O curto texto ainda registra a “consultoria” solicitada por Rushdie à Bono Vox, durante o processo de criação do romance “O Chão Que Ela Pisa”, lançado originalmente enquanto “The Ground Beneath Her Feet”.

O intento da trama daquela publicação era uma releitura do mito grego de Orfeu, vislumbrado por Rushdie na contemporaneidade enquanto um cantor de rock cuja constituição poética fora inspirada por John Lennon, Bob Dylan e Johnny Cash. A canção que o Orfeu de Rushdie cantava na história, também intitulada “The Ground Beneath Her Feet” ganharia um instrumental e acabaria registrada pelo U2.

A canção faz parte da trilha sonora do filme “Hotel de Um Milhão de Dolares” (1999). Dirigido pelo aclamado cineasta alemão Wim Wenders, o roteiro do filme estrelado por Mila Jovovich e Mel Gibson foi idealizado e co-escrito por Bono.

O curto texto “U2” foi escrito por Rushdie pouco depois do lançamento de “All That You Can’t Leave Behind” de 2000, trabalho crucial e que redefiniu a carreira da banda de Bono, no século XXI. Presente nos bastidores do conjunto naquela época tal qual Wim Wenders, Rushdie afirma que o U2 poderia realmente ter acabado, se o álbum de 2000 não tivesse obtido boa receptividade.

Imagem de Bono e Rushdie: divulgação.

Dados da obra: “Cruze Esta Linha”. Salman Rushdie. São Paulo. Companhia das Letras, 2007.