Álbuns obscuros: Eric Peterson’s Dragonlord – “Rapture” (2001).

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Praticamente esquecido, “Rapture” lançado pelo Dragonlord em 2001, é uma improvável empreitada solo do guitarrista Eric Peterson, membro fundador do norte-americano Testament, ícone do thrash metal mundial. O nome da banda é clichê, evocando qualquer coisa ligada ao metal melódico e vale pedir a atenção do leitor, para não confundir com Dragonforce, banda que se tornou hit do game Guitar Hero.

No entanto, o Dragonlord de Eric Peterson apresentava um intento artístico influenciado pela face mainstream do black metal europeu, testemunhada pelo público do metal na última virada de milênio. O som do Dragonlord evoca o projeto artistico do norueguês Dimmu Borgir (fase “Spiritual Black Dimensions”/”Puritanical Euphoric Misanthropia”). Além de muitas nuances que remetem ao inglês Cradle of Filth.

Dragonlord_-_2001_-_Rapture

A formação que Peterson tinha junto a si impressionava, simplesmente por reunir a seção rítmica do Sadus, cultuada banda de death metal norte-americana. O contrabaixo está creditado a Steve Di’Giorgio (ex-Death), que trabalhava com o Testament naquele período. Assim como o exímio baterista Jon Allen, que também chegou a integrar o Testament por um breve período.

Na segunda guitarra, tem-se Steve Smyth (ex-Forbidden, Vicious Rumors) e o tecladista Lyle Livingston (do pouco conhecido Psypheria). O black metal sinfônico é criticado pelos fãs radicais do gênero, devido ao uso de produções qualificadas e principalmente pela inclusão de sintetizadores no som. O subestilo black metal sempre carregou consigo como característica um aspecto de anti-musica e anti-estética absoluta (ou quase).

Rapture

O nome Dragonlord (ou “senhor dos dragões”) talvez faça menção à fase épica do sueco Bathory, uma vez que as letras das canções de “Rapture” segue esta linha mais vinculada ao paganismo nórdico, do que à perspectiva anti-cristã/satânica tipica do black metal. No entanto, as letras tem um carater abstrato e nenhum integrante aparece usando corpse paint bizarra, nem vestido de cosplay de viking, no encarte. Eric Peterson no máximo, aparece empunhando uma espada numa das fotos.

A introdução “Vals de La Muerte” é impressionante pelos climas fantasmagóricos proporcionados pelos sintetizadores. A faixa de abertura “Unholy Void” eclode de forma poderosa, pesada e brutal. Os riffs lineares habituais de Eric Peterson ecoam como alicerces de todas as canções, lembrando muito a fase inicial do Testament, na metade dos anos 80.

Ouça Tradition and Fire.

Peterson também assume os vocais, ora cantando como Shagrath (Dimmu Borgir), ora de forma mais histérica como Dani Filth (Cradle of Filth). E o resultado é convincente. “Tradition and Fire” remete ao estilo de composição de “Cruelty Brought Thee Orchids”, do Cradle of Filth (do álbum “Cruelty and The Beast”/1998), sobretudo nos riffs cadenciados e na forma como Eric Peterson canta.

“Born to Darkness” apresenta um estilo cadenciado que se aproxima do metal tradicional, acentuando uma aura que trafega entre o épico e o dramático. Eric Peterson contrapõe linhas vocais limpas aos vocais guturais de uma forma bastante explorada pelo Dimmu Borgir, quando os norueguêses ainda tinham o baixista vocalista I.C.S. Vortex (Borknagar), no line up.

A brutal “Judgement Failed” enfatiza um expediente absurdo dos blast beats concedidos pela destreza do baterista Jon Allen, sendo um dos grandes momentos do álbum. O uso das vozes limpas volta a acontecer em alguns momentos da composição. Completam o tracklist “Wolfhunt”, “Spirits in the Mist” e a faixa-titulo.

Para além de “Rapture”.

“Rapture” foi lançado num período em que o Testament viu alguma incerteza uma vez que o vocalista Chuck Billy foi diagnosticado com um câncer, isso por volta de 2001. Por se valer da face mais acessível do black metal comercialmente em alta na época, o resultado final de “Rapture” poderia ser um tipo de cartão de visitas para Eric Peterson prosseguir. Seja com o Dragonlord, seja como integrante de alguma outra banda de black metal sinfônico.

O intento poderia ser uma saída na pior das hipoteses de um fim do Testament, que ainda bem, não houve. O Dragonlord seguiu como projeto paralelo ao Testament por sua vez, renascido com sua formação clássica na década passada. O projeto de Eric Peterson lançou “Black Wings of Destiny” em 2005, agrupando a si Derek Ramirez, guitarrista do próprio Testament quando a banda ainda se chamava Legacy.

Ramirez surgiu no posto de baixista substituindo Steve Di’Giorgio. O baterista Jon Allen também deixou o projeto após o álbum de 2005. Já se vê confirmado o lançamento do terceiro álbum do Dragonlord que se chamará “Dominion”. O trabalho está em processo de mixagem e Peterson afirmou publicamente, que o registro deve ser lançado em 2016.

“Rapture” chegou a sair oficialmente no Brasil pela extinta Sum Records, selo que representava a gravadora Spitfire em território nacional.

Foto de Eric Peterson: Jay Valena