Álbuns obscuros: Daemonarch “Hermeticum” (1998).

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No fim dos anos 90, a banda lusitana Moonspell gozava de um bom prestígio na cena metal europeia. Moldando seu som a partir de influencias que mesclavam metal extremo, gothic, industrial e pós punk, o conjunto se tornou um dos campeões de venda da divisão europeia da gravadora Century Media.

Com a sonoridade tendendo mais para experiencias com o gothic/industrial entre os álbuns “Sin/Pecado” (1998) e “The Butterfly Effect” (1999), o lado mais bárbaro da música dos portugueses parecia ter ficado em segundo plano. Porém, entre os citados álbuns, o conjunto lançou o obscuro registro “Hermeticum”, utilizando-se do nome de Daemonarch.

A influencia do death/black metal latentes na demo tape “Anno Sathanae” (1993) e no primeiro extending play “Under The Moonspell” (1994), eclodem de forma violenta em “Hermeticum”. O Moonspell sempre assumiu influencias de nomes seminais do metal extremo europeu como Bathory, Samael, Hellhammer/Celtic Frost, além daquela buscada na musicalidade um pouco mais dramática do Mercyful Fate.

O conteúdo de “Hermeticum” no entanto, revela alguma reverência ao brasileiro Sarcófago também. Os álbuns de death metal lançados pela gravadora mineira Cogumelo, incluindo-se os primeiros do Sepultura, sempre foram reverenciados por publico e artistas do metal underground europeu.

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O tracklist de “Hermeticum” abre com a áspera “Lex Talionis”, movida a riffs típicos do black metal. Fernando Ribeiro (usando o pseudonome de Langsuyar) lança expediente única e exclusivamente de vocais guturais, saindo-se muito bem neste intento. A nuance que trás o Sarcófago a mente se dá pelo uso de bateria eletrônica, uma vez que o álbum foi gravado sem um baterista.

A desesperadora “Of a Thousand Young” revela uma ferocidade impressionante. “Corpus Hermeticum” num estilo de composição mais cadenciado e característico do death metal, aponta para uma maior dramaticidade devido ao uso oportuno dos sintetizadores. A canção apresenta também um solo fantástico do guitarrista Ricardo Amorim.

Ouça Corpus Hermeticum.

A instigante “Call From The Grave” evoca uma aura fúnebre, sobretudo devido aos arranjos utilizados pelo tecladista Pedro Paixão e cujos timbres remetem a sonoridades sacras. No entanto, trata-se de um cover originalmente criado e gravado pelo Bathory (no álbum “Under The Sign of The Black Mark”/1987). A arrastada “Nine Angels” remete a um estilo voltado ao doom metal. “Incubus”, a longa “The Seven Daemonarch” bem próxima do estilo dos álbuns que o Moonspell lançou na década passada e “Hymn To Lucifer”, completam o tracklist.

“Hermeticum” era um álbum surpreendente, apresentando uma proposta que estava em voga no metal underground europeu de sua época. Porém, soava de forma inteligente e musicalmente diferenciada daquela apresentada pelas bandas de black metal da escandinavia. O álbum talvez merecesse um relançamento caprichado.

Entre o Daemonarch e o Moonspell.

O Moonspell atual tem equilibrado bem a face gothic/pós punk e a face mais agressiva no projeto sonoro de seus últimos álbuns. Durante a década passada, a banda moldou um som coeso e muito próprio mesclando death e doom metal nos álbuns “The Antidote” (2003), “Memorial” (2006) e “Night Eternal” (2008).

O lado gothic mais acessível voltou a ressurgir nos trabalhos mais recentes, incluindo-se o novo “Extinct” (2015). Porém, uma nova viagem sob o nome de Daemonarch não seria ruim, ainda que Fernando Ribeiro tenha afirmado desde que “Hermeticum” foi lançado, que não haviam mais planos para este projeto paralelo.

Em 2007 o Moonspell se aproximou deste vislumbre mais extremo de sua obra ao regravar a demo “Anno Sathanae” e o ep “Under the Moonspell”. O conteúdo de ambos ressurgiu rebatizado enquanto “Under Sathanae”.

“Hermeticum” foi disponibilizado no Brasil na época de seu lançamento original, pelo antigo selo Rock Brigade Records.