Álbuns incompreendidos: Moonspell “The Butterfly Effect”.

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Grande nome do metal português em termos mundiais, o Moonspell acabou de lançar “Extinct”, seu mais recente álbum de estúdio. A carreira dos lusitanos se extende há mais de vinte anos, sendo que seu álbum de estreia foi o cultuado extending play “Under the Moonspell” de 1994.

Os trabalhos mais lembrados da banda são “Wolfheart” seu primeiro full lenght que completa vinte anos de lançamento agora em 2015, “Irreligious” (1996) e aqueles que iniciam a fase madura do conjunto, “Darkness & Hope” (2001) e “The Antidote” (2003). Musicalmente, o Moonspell desenvolveu um estilo muito próprio amalgamando influencias do metal extremo, do gothic e do pós punk.

Alguns momentos de “Wolfheart” evocavam influências da própria cultura lusitana, com canções escritas em sua língua natal como “Trebaruna” e a épica “Alma Mater”, esta última clamando o impeto conquistador lusitano das Grandes Navegações. Em 2006 o vocalista e líder Fernando Ribeiro expressou um imenso pesar pelo falecimento de Quorton, líder do sueco Bathory morto em 2004.

A aura grandeloquente do poderoso álbum “Memorial” (2006) reverenciava a chamada fase épica do Bathory, que por sua vez também é um dos precursores do black metal no underground europeu. O Moonspell no entanto nunca cometeu incoerências culturais. Por exemplo, nunca evocou deuses vikings nórdicos sendo eles portugueses. É trivial vermos por aí conjunto de música celta oriundo do Brasil. Ou banda grega de viking metal enaltecendo Odin.

O conceito de paganismo sim é universal e o Moonspell sempre abraçou influencias do black metal. Mercyful Fate, Hellhammer/Celtic Frost e Samael sempre foram vértices artísticos importantes para o projeto musical do conjunto. O intento artistico do Moonspell nunca escondeu uma insatisfação com o conservadorismo cristão/católico, vigente em Portugal.

Em diversas entrevistas Fernando Ribeiro já afirmou que sua música expressa uma melancolia lusitana e tristeza típicas de sua cultura, sentimento este nunca estampado nos cartões de visita portugueses. Possivelmente, as mesmas melancolia e tristeza que desde sempre inspiram os fados, expressões máximas da música portuguesa.

O fim dos anos 90.

A face mais contemporânea do projeto sonoro do Moonspell eclodiu nos álbuns “Sin/Pecado” (1998) e principalmente em “The Butterfly Effect” (1999). Este último trabalho citado foi repudiado por fãs mais conservadores de metal, que acompanhavam o conjunto. Na época do lançamento, Fernando Ribeiro afirmou que o intento era fazer algo propositadamente “do contra”.

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No fim dos anos 90 houve sim um renascimento do metal no mainstream musical da Europa, mas abundavam bandas de heavy metal melódico incorporando influencias neo-clássicas, arranjos sinfônicos e temas medievais. Foi quando bandas do norte da Europa como Blind Guardian (alemã), Stratovarius (finlandesa) e Hammerfall (sueca), tomaram de assalto o continente. A ideia dos lusitanos era ser um contraponto.

Num outro aspecto, o Moonspell também convivia com comparações em relação ao novaiorquino e hoje dissolvido Type O Negative, sendo que esta banda obteve grande repercussão na metade dos anos 90. Além da admiração pelo metal underground, o lado gótico do Moonspell vinha das influências do pós punk, oriundo da Inglaterra. Diferentemente da banda do falecido Peter Steele, a linguagem do pós punk expresso pelo Moonspell era europeia, não yankee.

The Butterfly Effect.

“The Butterfly Effect” foi propositadamente gravado na Grã Bretanha e apresentou um resultado final bastante cabível para a época. Em termos de produção e sonoridade, o álbum não destoava de um “The Fragile” (2000) do Nine Inch Nails ou um “Mechanical Animals” (1998) do Marylin Manson, artistas em alta naquele período.

O tracklist abria com a energética “Soul Sick” bastante ligada do industrial, tal qual a vibrante faixa-título que se desenvolve num ritmo sincopado, conduzido pelo baterista Miguel “Mike” Gaspar. O lado pós punk começa a desatrelar por baixo da aura soturna irresistível que emana de “Can’t Bee”, onde os sintetizadores de Pedro Paixão são utilizados de forma bombástica, contrastando com o desatino expresso pela canção.

Ouça Can’t Bee.

O intento estilístico voltado ao pós punk segue perceptível ainda em “Selfabuse”, conduzida pela linha do contrabaixo do brasileiro Sergio Crestana, tal qual em “Soulitary Vice”. O minimalismo soturno de “Disappear Here” trás a mente de forma inegável algo de Joy Division.

Em “Angelizer” Fernando Ribeiro alterna vozes sussurradas a vocais guturais, com a canção alternando um desamparo sonoro típico do pós punk, a explosões sônicas habituais do metal. Ainda chama a atenção a perspectiva abstrata revelada pela longa “K: O Mal de Cristo”, a qual se estende em mais de dez minutos, mostrando-se desprovida de qualquer intento dianóico que guiasse seu processo de criação.

O uso de uma timbragem limpa de guitarras, algo utilizado por artistas ligados ao que se define como rock/metal industrial e popularizado nos anos 90 com o processo de gravação digital, foi um expediente sintomático. Ícone do gênero industrial, o Nine Inch Nails surgiu no fim dos anos 80, oriundo dos escombros do pós punk.

Já a admiração pelo Joy Division o Moonspell confirmaria em 2001 quando gravou uma excelente versão para “Love Will Tear Us a Part”, inclusa como bonus em algumas edições do álbum “Darkness & Hope”.

Ouça Love Will Tear Us A Part.