No fim da semana passada o técnico Muricy Ramalho deixou o cargo a disposição da diretoria do São Paulo Futebol Clube, pretensão prontamente recusada pelo vice-presidente do clube Luiz Paulo Cunha. O ambiente no Morumbi era de “day after” após o time ter sido derrotado de forma categórica pelo Palmeiras, por 3×0 na última quarta-feira. A partida era válida pelo Campeonato Paulista, que já teve nova rodada neste domingo.

Sísifo é um mito grego que representava a condição humana. O personagem se via fadado a empurrar uma uma rocha morro ingreme acima, sendo que a rocha sempre rolava morro abaixo, de volta a Sísifo. A alegoria de Sísifo foi imortalizada na filosofia pelo pensador francês Albert Camus, que viveu na segunda metade do século XX. Camus, um dos grandes representantes da literatura e filosofia existencialista, dizia que tudo o que ele havia aprendido sobre ética, o tinha feito através da prática do futebol. Camus era goleiro.

Voltando a Muricy, o treinador mais do que nunca personifica a condição humana expressa por Sísifo, devido a momentânea incompletude, a decrepitude de sua saúde e de sua (sim vitoriosa) carreira. Muricy parece saber da condição de que a derrota faz parte do jogo de futebol. A diretoria tricolor isentou a responsabilidade do treinador, até porque não há boas opções no mercado.

O jornalista Mário Marra (rádio CBN) explicitou ainda na semana passada que Muricy não tem o perfil de “treinador gastador”, buscando soluções em improvisações, “flutuações” de posição e divisões de base. Dada a megalomania de Carlos Miguel Aidar, um “técnico gastador” pode contribuir para a bancarrota das financas tricolores.

Muricy por outro lado, mudou o discurso de cumpridor de contratos afirmando que se não voltar a vencer em jogos relevantes, abandona o barco. Algo inédito para alguém que honrosamente recusou a Seleção Brasileira, em nome de um vínculo empregatício com o Fluminense. O técnico parece muito ciente da própria condição humana.

Filosofias a parte.

O vice-presidente tricolor Luiz Paulo Cunha afirmou que a cobrança estará sendo direcionada individualmente a cada um dos atletas do atual plantel tricolor. No entanto, o clube tem cavado a própria cova desde o fim da gestão Juvenal Juvêncio, devido a uma política errática de contratações. Juvêncio pagou caro por Paulo Henrique Ganso, que por sua vez ofuscou Jadson.

Já na gestão Carlos Miguel Aidar, Jadson em crise técnica/mental foi repassado ao Corinthians, em troca de Alexandre Pato. Com o retorno de Tite ao Parque São Jorge, Jadson recuperou o bom futebol e Ganso, no Morumbi se mostra cada vez mais enquanto “eterna promessa”. No decorrer do ano passado, tão logo Aidar assumiu a presidência, a megalomania falou mais alto e o presidente atravessou a renovação de Allan Kardec com o Palmeiras, levando-o para o São Paulo.

Kardec não é mais do que um reserva de luxo, para ser escalado nos jogos contra o Corinthians no lugar de Pato, ou em partidas que nada valem como na vitória por 3×0 contra o Linense, neste domingo pelo Paulistão. Vale lembrar que Pato não pode atuar contra o alvinegro por imposições contratuais. Pelo valor de Kardec, Aidar devia ter comprado Dória que ainda seria vendido pelo Botafogo ao Olympique de Marseille, e acabou emprestado ao próprio São Paulo, agora no início de 2015.

Problemas defensivos.

O problema no elenco tricolor é uma carência há muito tempo não vista, no que diz respeito a peças defensivas, como defensores centrais e volantes. Com Tolói e Edson Silva, o São Paulo voltou a ter zagueiros tão ruins quanto Reginaldo “cachorrão” e Rogério Pinheiro, do início dos anos 2000. Voltando de lesão, Rodrigo Caio, parado por sete meses não teve nenhum suplente a altura contratado. Caio é o único volante com característica de interditor, “camisa 5” clássico.

A lesão que o tirou de cena, desmontou o sistema defensivo do time, na temporada passada. Rodrigo Caio que não é Chicão, nem Silas, nem Paulo Roberto Falcão, nem Toninho Cerezo, muito longe disso; era mais importante que Kaká. O São Paulo funciona bem com Caio postado a frente da defesa e três defensores, esquema que Muricy privilegia desde que assumiu o clube tricolor pela primeira vez em 1996, substituindo Telê Santana.

Muricy lapidava marcadores vigorosos cujos exemplos podem ser relembrados de sua segunda passagem pelo clube, na metade da década passada. Richarlyson era um meia ofensivo ruim que se transformou em volante/lateral de grande competência física. Zé Luis era um volante vigoroso que preencheu a lacuna de Josué, caindo no esquecimento após a demissão de Muricy em 2009.

Os zagueiros Alex Silva e Breno nunca conseguiram ser nada fora das rédeas do treinador. Ou safra atual das divisões de base do clube não é das melhores, ou Muricy já não é um formador de atletas tão eficiente como no passado.

É sabido que o Paulistão não vale muito para o São Paulo. Na quarta-feira, o time do Morumbi faz a “partida da temporada” contra o San Lorenzo em Buenos Aires (Argentina). Trata-se de um confronto direto pela segunda vaga do grupo 2 da primeira fase da Libertadores.

O São Paulo é o segundo colocado do grupo, atrás do líder invicto Corinthians. Em caso de derrota que pode apressar a eliminação já na fase de grupos, Muricy deve se retirar voluntariamente. No fim deste semestre completam-se dez anos do último título continental obtido pelo clube tricolor.