Milan: crepúsculo do ídolo.

Alessio Cerci, atacante trazido há menos de um mês pelo Milan em troca da cessão de Fernando Torres para o Atlético de Madrid, recebeu uma bola, estando aberto pelo lado esquerdo do ataque rossonero. Cerci estava numa discreta posição de impedimento, à frente da linha defensiva da Lazio. O atacante italiano finalizou de forma certeira, sendo que a bola acabou no fundo do gol de Berisha.

O árbitro porém anulou o lance que aconteceu aos 92 minutos de partida. Pressionado pelas circunstâncias o Milan recebeu a Lazio em San Siro (Milão), pelo jogo único das quartas de final da Coppa Itália, nesta terça-feira. Acabou derrotado por 1×0 pela equipe de Roma que venceu com um gol obtido através de um penalti duvidoso, por volta dos 38 minutos de partida.

A penalidade foi convertida pelo argentino Biglia e a Lazio teve um atleta expulso (Cana), ao fim da primeira etapa. Com um a mais em campo, o Milan de Pippo Inzaghi não conseguiu reverter a situação. Faltou a Alessio Cerci, no lance relatado no primeiro parágrafo deste texto, o domínio da técnica que Inzaghi possuía quando centroavante, o domínio da arte de receber a bola livre de impedimento.Milan-Lazio-Foto-AC-MilanFacebook_LANIMA20150127_0151_48

Pazzini marcado por defensor da Lazio, nesta terça-feira. (Foto: acmilan.com)

Minutos antes do lance de Cerci, Pazzini havia tido outra finalização certa anulada pelo árbitro. “Pazzo” recebeu de costas para o gol com um marcador junto a si, ambos posicionados no centro da área da Lazio. Pazzini dominou no peito e a bola caprichosamente resvalou sua mão esquerda, antes da finalização. Outro lance muito parecido com aqueles que Inzaghi protagonizava, num passado rossonero recente.

O Milan tinha a obrigação de vencer, uma vez que acabou derrotado pela própria Lazio, no último fim de semana, em partida válida pelo início do returno da Série A. A Lazio venceu o rossonero por 3×1 dentro do Olímpico (Roma), mas naquela ocasião com o Milan sem o zagueiro Méxes, expulso. A equipe estava em reclusão, concentrada para o duelo desta terça desde a derrota no sábado.

Curiosamente, o confronto entre ambos os times pelo primeiro turno acabou em 3×1 para o rossonero, em grande apresentação de Jéremy Ménez. E um início que parecia promissor para o jovem treinador Pippo Inzaghi. De lá para cá foram 6 vitórias, 8 empates, 6 derrotas pela Série A. Nas últimas 13 partidas disputadas, o Milan só venceu duas algo que culmina num amargo décimo primeiro lugar na tabela da liga italiana. A única chance real de título nesta temporada sem competições europeias, era a Coppa Itália.

Sem ilusões generosas.

Há de se recordar a “ilusória” vitória de 4×2 sobre o Real Madrid recém campeão Mundial, em amistoso realizado em Dubai, pouco antes da virada de ano. Feito suficientemente oportuno para Silvio Berlusconi “fanfarronear”, que esse Milan seria protagonista na Itália e na Europa. O atual elenco do Milan não é o suficiente para uma disputa de Champions League, mas não é pior do que aqueles ostentados por Roma e Internazionale, por exemplo.

Porém Rudi Garcia (técnico giallorossi) e Roberto Mancini (técnico neroazzurri) respectivamente e longe de serem gênios, ostentam títulos de Ligue 1, Série A e Premier League em seus currículos. O periódico espanhol El País, frisou palavras do mito Arrigo Sacchi, que voltou a trabalhar no Milan, sendo agora responsável pelas categorias de base. Sacchi afirmou que os atletas do atual time principal precisam “trabalhar os momentos que não detém a posse de bola”.

Segundo o ex-treinador de Milan e seleção italiana que os jogadores estão “mal posicionados em campo, não sabem o que tem de fazer, o que é o mais preocupante”. Pippo Inzaghi parece ter chegado cedo demais à condição de treinador de uma equipe principal, algo que metaforicamente poderia ser descrito, enquanto estar “impedido no lance”. A experiencia de Pippo como treinador se resume ao comando do “Milan primavera” nas últimas temporadas.

Num aspecto geral, as decadentes campanhas que o Milan vem protagonizando desde 2011, já sacrificaram dois ídolos do último período recente de conquistas rossoneras. Clarence Seedorf foi a carne atirada ao “moedouro” no inverno europeu passado, com Silvio Berlusconi persuadindo o holandês a deixar o Botafogo para assumir a condição de treinador, sem nunca ter sido algo parecido antes.

Agora Inzaghi, praticamente responsável pelos dois gols da vitória por 2×1 sobre o Liverpool, na última conquista de Champions League rossonera em 2007. O último grande lance de Seedorf e Inzaghi com a camisa do Milan, aconteceu pela última rodada da Série A 2011/2012. O rossonero enfrentou o Novara em San Siro e havia empatado o jogo que o adversário vencia por 1×0.

Quase no fim da segunda etapa, Seedorf lançou primorosamente Inzaghi, que dominou a bola e virou finalizando de primeira. Pippo havia entrado pouco antes e o Milan virava o jogo a “lá Inzaghi”, arrancando gols impossíveis em “partidas perdidas”. Foi a despedida dos chamados “senadores” de Berlusconi, num grupo que incluía Alessandro Nesta e Gennaro Gattuso.

Foto de Inzaghi no estádio Olímpico de Roma no último sábado: Andreas Solaro – AP

Alexandre Kazuo é blogueiro de futebol há mais de 10 anos. Ex-colaborador do Trivela (2006-2010) e ex-blogueiro do ESPN FC Brasil (Lyon). É mestre em filosofia contemporânea e também procura por cultura pop, punk/rock/metal.
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