Je suis Charlie. Je ne suis pas religeux.

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A repercussão dos atentados em Paris (França), propagados por terroristas motivados por intentos teológicos, segue gerando as mais diversas repercussões. No Brasil, há um curioso temor dos intelectuais tupiniquins em condenar uma suposta possibilidade de expansão dos partidos de extrema direita europeus. O atentado ao “Charlie Hebdo” faria eclodir uma onda “anti-islã”, ou “islãmofóbica”, podendo ser subentendida enquanto onda anti-teísta.

Se não vejamos. Leonardo Boff, renomado teólogo, respeitado em círculos intelectuais católico/cristãos brasileiros, postou em seu blog a 10/01 um texto de um padre que viveu na França, e que vê com olhos críticos o atentado ao “Charlie Hebdo” (leia aqui). Boff não menciona o nome do autor do relato transcrito na íntegra em seu espaço na internet. Mas o link relaciona a um blog de um padre chamado Antonio Piber.

Então, o padre patrocinado por Boff afirma literalmente “je ne suis pas Charlie”, ou seja “Eu não sou Charlie” em oposição ao lema que se propagou na França após o ocorrido, e em todo mundo sobretudo via internet. O mesmo clérigo compara a liberdade de expressão da qual a “Charlie Hebdo” se valia, à matérias “mentirosas” (nas palavras dele mesmo) publicadas pela revista Veja, no Brasil. As mesmas seriam aquelas publicadas no último período eleitoral, trazendo denuncias contra o partido do qual à atual presidente da república brasileira é filiada.

O padre mostra-se “semi-favorável” à censura, afirmando que os tribunais de justiça deveriam processar sumariamente publicações como a “Charlie Hebdo” ou a “Veja” no Brasil. Nas palavras do próprio padre Piber: “Um dos significados da palavra ‘Censura’ é repreender. A censura já existe. Quando se decide que você não pode sair simplesmente inventando histórias caluniosas sobre outra pessoa, isso é censura. Quando se diz que determinados discursos fomentam o ódio e por isso devem ser evitados, como o racismo ou a homofobia, isso é censura. Ou mesmo situações mais banais: quando dizem que você não pode usar determinado personagem porque ele é propriedade de outra pessoa, isso também é censura. Nem toda censura é ruim…”

Tudo isso em nome de um discurso onde o intuito do padre é tentar terminantemente proibir as pessoas de “odiarem” algo. Discurso óbvio pois a promessa de amor e salvação eterna é algo que motiva basicamente todas as religiões existentes. Num todo, é claro que o padre Piber NÃO se mostra a favor de nenhuma execução de nenhum cartunista, e nem aprova a ação dos terroristas. Afinal de contas, ele é um padre.

Apesar do nosso intento aqui ser amoral e irreligoso, a falta de posicionamento ou o “cagaço” de ostentar uma opinião nos lembra um trecho bíblico em Apocalipse que diz em capitulo 3 versículo 16: “Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca”.

Nas raízes da liberdade francesa.

Se voltarmos no período Iluminista da França pré-revolucionária (séculos XVI, XVII), nos depararemos com a célebre figura do pensador Jean Jacques Rousseau. O conceito da sociedade civil pautada por uma legislação vigente, passa pela obra “O Contrato Social”, onde se via um rascunho da sociedade democrática. Para sair daquilo que Rousseau chamava de “estado de natureza” no qual vivia o homem selvagem, Rousseau tomava como necessário um “contrato”.

O mesmo podaria a liberdade total do homem e que impossibilitaria a vida em sociedade. Para Rousseau, o homem era o “bom selvagem” que deliberadamente abriria mãos da liberdade total de um estado sem leis para constituir o “soberano” e por consequência o “estado civil”. O “soberano” era a população, apta a escolher um líder político e viver conforme as regras constituídas em conjunto.

Até aí o nosso discurso não se difere do trivial, nem daquele escrito pelo padre enaltecido por Boff. Porém aqui não somos quentes nem frios e sim, irreligiosos. A questão é que “O Contrato Social” fora escrito por Rousseau simultaneamente ao seu tratado pedagógico “Emílio”. Rousseau, antecipando diversas teses da pedagogia moderna, sugere um processo de formação para um jovem, desde a sua tenra idade, ilustrando-o através do personagem Emilio.

Entretanto é preciso deixar bem claro que Rousseau terminantemente EXCLUI qualquer traço de formação religiosa ou de cunho teológico, de seu projeto de formação educacional. O jovem cidadão formado pelas bases do ‘Emilio” seria amoral e apto a pactuar do contrato social para viver num estado laico. Convém frisar que a obra de Rousseau SOFREU em sua época com a censura e os desmandos da Santa Inquisição, promovida pela Igreja Católica de seu tempo.

Como afirmamos anteriormente aqui neste 90 Minutos, o conceito de liberdade de expressão na França é algo quase milenar e difícil de ser compreendido, a olhos tupiniquins e olhos teístas. Não temos direito de abrir fogo contra nenhum opositor, e mesmo que o amor seja mais forte, temos a liberdade de odiar opiniões cretinas.

Je suis Charlie!

Arte: reprodução de capa do periódico Charlie Hebdo.