Anschauung

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Há uma eletricidade caótica ao redor. Na transição de ano para ano é sempre assim. Outrora imaginei que alguns feitos poderiam ter sido não mais do que golpe de sorte. Os sinais se revelavam de uma maneira pouco imaginada, improvavelmente, tal qual o surgimento de Daniel Lanois utilizando uma camiseta do Motörhead, num documentário produzido por Dave Grohl.

A sensação de ter vivido num deserto sempre houve, ainda que eu nunca tenha visitado um. É como antever as possibilidades, as interpretações ou o que pode acontecer daqui a cinco minutos. Os ecos sempre deixaram ser ouvidos. Foi como naquele sonho em que olhei para os céus e perguntei “o que você tem a dizer sobre isso, Apolo?”. E os céus trovejaram: “a palavra é a minha palavra”. É ter a habilidade de estar no momento certo e no lugar certo. É como John Constantine atravessando de um quadrinho a outro, nas páginas de uma hq escrita por Alan Moore. No quadrinho que Constantine desocupou, o inferno se irrompeu…

Um texto escrito e engavetado. A menção certa, na bibliografia certa buscada porque uma certa alma-atada sussurrou que ouve Bob Dylan. Numa crônica Dylan afirma que Bono Vox leu “On the Road”. Um texto completo com um insight devidamente fundamentado. A espera dos olhos negros e analíticos lerem. Ou que carregará em si a possibilidade de evocar a saudade daquilo que poderia ter sido lido. A procura da linguagem certa. Escrever a canção é fácil, difícil é ser o interprete dotado da voz exata para enunciar os versos.

O sonho, o elemento fisiológico apolíneo segundo Nietzsche. O limiar da racionalidade. A estreita linha separando a genialidade da insanidade. Um breve vazio, espaço necessário para as notas se propagarem e abrirem a possibilidade de que haja uma melodia. Sem o vazio não há o eco. E o eco pode fazer este som chegar mais longe.

Ao redor da joshua tree que prosperou só em meio ao deserto. Envolta pelo eco e resistindo à areia soprada fortemente pelo vento. O vazio se expande…

Foto: Luiz Holak (Expresso – Apucarana/PR)