A insustentável leveza do politicamente incorreto.

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Uma semana após o atentado ao periódico “Charlie Hebdo” em Paris (França), interpretações mais apuradas do ocorrido vão surgindo via imprensa, via internet, via redes sociais. Assim como o próprio periódico já tem sua primeira edição “pós-atentado”, publicada e com sua capa devidamente divulgada. E não há porque dar-se por vencido, sendo que outra charge de Maomé estampa a capa.

Nesta nova edição o profeta é retratado com olhos assustados, carregando uma plaqueta que diz “Je suis Charlie”. Letras grandes e escuras acima dele dizem: “todos estão perdoados”, num tom que mistura o cômico e o ecumênico. A publicação que recebeu apoio (inclusive financeiro) de diversos órgãos e empresas ao redor do mundo não desistiu da luta, mas expressa compreensível melancolia.

Dentre as relevantes interpretações do ocorrido, o filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Ẑiẑek vislumbrou como seria a visão sarcástica do próprio “Charlie Hebdo”, em relação a grande manifestação em Paris, no último domingo.

Em texto publicado e traduzido no Brasil pelo site da editora Boitempo, Slavoj refletiu: “Pensar significa ir adiante do pathos da solidariedade universal que explodiu nos dias que sucederam o evento e culminaram no espetáculo de domingo, 11 de janeiro de 2015, com grandes nomes políticos ao redor do globo de mãos dadas, de Cameron a Lavrov, de Netanyahu a Abbas – talvez a imagem mais bem acabada da falsidade hipócrita.”

Ẑiẑek de forma coerentemente mordaz, continua: “O verdadeiro gesto Charlie Hebdo seria ter publicado na capa do semanário uma grande caricatura brutal e grosseiramente tirando sarro desse evento, com cartuns de Netanyahu e Abbas, Lavrov e Cameron, e outros casais se abraçando e beijando intensamente enquanto afiam facas por trás de suas costas.”

O senso ecumênico que muitos não parecem ter (sobretudo no Brasil) é vislumbrado por Slavoj na figura equilibrada do budista: “Quando um budista encontra um hedonista ocidental, ele dificilmente o condena. Ele só benevolentemente nota que a busca do hedonista pela felicidade é auto-derrotante. Em contraste com os verdadeiros fundamentalistas, os pseudo-fundamentalistas terroristas são profundamente incomodados, intrigados, fascinados pela vida pecaminosa dos não-crentes. Tem-se a sensação de que, ao lutar contra o outro pecador, eles estão lutando contra sua própria tentação.”

A olhos brasileiros.

Na edição extra do programa “Observatório da Imprensa” (TV Brasil, entre outras emissoras) o convidado Paulo Caruso, renomado cartunista brasileiro, frisou o ímpeto do “Charlie Hebdo” em assumir-se e expressar-se enquanto oposto ao “politicamente correto”. Numa perspectiva amoral, a linha editorial do periódico francês é politicamente incorreta por excelência.

Caruso que tinha contato pessoal com os cartunistas executados no atentado da semana passada, afirmou que os mesmos descreviam respeitosamente as suas charges enquanto dotadas de um “humor melancólico”.  O dito de Caruso visava ressaltar o quão debochado é o projeto editorial do periódico francês. O apresentador do “Observatório da Imprensa”, Alberto Dines ressaltou ainda o aspecto humano do sarcasmo ou do sarro, ainda que agressivos.

Mesmo a raiva ou a “perca do espirito esportivo” ditante do ridículo são sentimentos humanos e legítimos. Dines pautou que a imprensa num todo geralmente se opõe contra o que lhe ameaça, e no caso da “Charlie Hebdo”, não era um partido político nem uma religião em específico, mas sim os jihadistas extremos ligados ao islã.

Nem todo o público brasileiro parece estar assimilando a situação, sobretudo numa época em que julgamentos e “achismos” se proliferam instantaneamente via internet. Ao passo que as reflexões mais apuradas vão surgindo, a opinião tupiniquim também vai se expandindo e se propagando. As timelines agora mostram arrependidos dizendo “eu não sou Charlie”, após terem expresso a rashtag.

A “intelligentsia” brasileira segue expressando em tom acadêmico seu temor de uma ascensão da extrema direita europeia. Se esquecem que no fim dos anos 90, um plebscito realizado na França mostrou que os próprios franceses preferem não ter um partido de direita a sua frente.

A ironia estava nas entranhas da própria edição da “Charlie Hebdo”, da semana dos atentados, divulgando o novo livro de Michel Houellebecq, “Submissão”. A obra vislumbra um futuro debochado onde o partido islâmico chega ao poder na França em 2022, exatamente como opção a um partido de direita. Mas em tempos de jornalismo, opinião e “achismo” 2.0, ler um livro toma muito tempo, quanto mais um que mal saiu em sua língua francesa original.

Como diz um dos apresentadores de um dos talk shows brasileiros da tv aberta, o “brasileiro tem opinião para tudo, do cocô a bomba atômica”, o que é uma patética verdade. O senso libertário do “Charlie Hebdo” segue inacessível a um povo que não sabe perder, que prefere ver o time rival perdendo ao ver a vitória do próprio time.

Que censura piadas e tirações de sarro seja juridicamente ou seja no processo educacional, transformando qualquer travessura em bullying. Que não considera o aborto enquanto problema de saúde pública e desconsidera o uso medicinal da cannabis. Enfim, que tem medo de reconhecer o quão “moralista” e “faceta” é, tentando fingir-se “politicamente correto”.

No Brasil o livro “Submissão” de Houellebecq sairá pela editora Alfaguara. Para ler o texto de Slavoj Ẑiẑek no blog da Boitempo, clique aqui!

Je suis Charlie!

3 responses

  1. Países que têm maior nível de alfabetização e cidadania têm mais habitantes para argumentar, sim. Não se trata de opinião – é um fato. Habitantes de democracias consolidadas (+50 anos sem golpes militares ou governos semiautoritários) de maioria não-católica freqüentemente conseguem discutir conceitos antes de tentar desqualificar opositores. ‘Haters’ que gostam de xingar, agredir ou censurar, especialmente protegidos pelo anonimato (que vai desde uma discussão na Internet até o seio de uma religião), são sintomas ou de uma sociedade autoritária um de uma democracia em deterioração.

  2. Discursos como o seu e da maior parte da mídia alimentam a atuação bélica dos Estados Unidos no Oriente Médio. Se o Brasil fosse tão esquerdista (não sou um deles) como você diz, a mídia daria prioridade absoluta ao atentado na Nigéria, que foi em escala muito, muito, muito, muito maior, mas ninguém deu importância por ser na África.

  3. Tenho certeza que você não gosta de piadas babacas e sarcasmo sobre japonês (pelo sobrenome presumo que é descendente).
    Você acredita mesmo que despolitizados só existem no Brasil? Todo mundo na Europa ocidental é altamente qualificado para falar de cultura, politica ou religião? Ai, ai, hein..

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