Pathos helênico, Stimmung alemão.

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“Licht, mehr licht”
(Goethe)

E como ficaria a rosa presa em seus cabelos, como se ela fosse uma moça da Andaluzia? Caminhando sobre a areia da praia, a espera dos cavalos selvagens, num fluxo de consciência que me faz mudar a ordem das músicas do playlist. Uma canção sulcada no “lado A” do velho long play a um clique do mouse, e todos os desejos mais profundos se materializam. Os acordes parecem ter novo significado e outra voz parece estar cantando os velhos versos.

A canção mal chega ao refrão e todo o intento criativo de esvai. Há muito o fôlego não sumia por causa de outrem. Para o bem ou para o mal. O que será que fixaria os seus olhos negros e analíticos? As linhas que descrevem este pathos teriam algo a lhe dizer? Ou seriam linhas ao acaso traçadas pela areia, momentos antes da maré invadir e desfazê-las. É como descobrir um novo e vistoso planeta sem ter meios de chegar até ele. E mesmo que eu grite, que eu tente chamá-lo, o som não se propagará no vácuo frio que desatrela através do manto negro que reveste o universo entre nós.

O pathos não é aqui traduzido enquanto frívola paixão. Relacionamos o termo helênico ao Stimmung em alemão, que pode ser vertido para o português brasileiro enquanto “disposição” ou “impressão”. Está-se disposto a chegar a alguém. Como se nomeia o inaudito? Algo que não se espera, mas que sempre se desejou, acreditando que nunca seria encontrado, porém inesperadamente se revelou. Certa vez o jornalista Mikal Gilmore descreveu o uivo, não o de Allen Ginsberg, mas sim o de Mick Jagger, enquanto um uivo “(…) agudo e fantasmagórico que soa como se fosse o espectro de um futuro que você nunca quer ver chegar, mas ao mesmo tempo está ansioso para que chegue”.

(…)

As palavras em fluxo de consciência cessam e após minutos vem uma estapafúrdia constatação. Faltam palavras para descrever aquilo que já extrapolou as possibilidades racionais de ser projetado. Mensurar o desejo é tolice. Não é como a “fraqueza” da música do Lulu Santos, que se cala sem coragem de enunciá-lo e o esquece. Não é um show de calouros. É um ímpeto invasor, lascivo e sedutor, que precisa ser enunciado pelo interprete certo, num estádio certo acompanhado da banda certa. Com a plateia certa dando-lhe suporte enquanto canta o refrão.

Não é uma sensação, é um sentimento. This is not a feeling, this is the sentiment. É como vi Greg Graffin definir aquilo que Woody Guthrie enuncia. A hybris eclodida nas entranhas de um Jagger, um Bono ou um Dave Grohl, em suma um Orfeu pós-moderno; poderia descrevê-lo. Buscando a luz, a sua luz…