O lado b dos discos do U2 (lado B).

achtung seal

Os helênicos diziam que Apolo convivia com Dionísio deus do vinho, do tragédia, da desmedida e da histeria. O solar Apolo era também o deus da medida, dos versos épicos, das artes plásticas e do sonho enquanto elemento fisiológico. Nas noites subsequentes às primeiras audições do novo álbum do U2, tive sonhos visualmente chamativos. Num deles sonhei que lia uma entrevista concedida por Bono. O jornalista perguntava sobre a letra de uma canção perdida no meio do tracklist, de um álbum lançado dez anos antes.

Bono dizia que havia lido uma poesia num blog na internet, que ele acreditava ser de alguém que escrevia em português brasileiro. Ele disse tentou de todas as formas entrar em contato com o autor e não conseguiu. O escritor do blog parecia gostar de coisas sombrias e bandas de heavy metal. Bono disse que achou estranho, pois as vezes haviam comentários bons sobre o U2, mas ficou feliz por sua música agradar a tantas pessoas diferentes. Bono é muito político. Ele gostou tanto, que queria usar os versos como letra. Sem conseguir falar com o autor ele fez uma versão em inglês dos versos e usou.

Meu subconsciente em exercício onírico achou esquisita tantas informações análogas a mim mesmo. No exercício onírico fui ouvir o álbum do U2 de dez anos atrás, “How Dismantle An Atomic Bomb”. No século XXI as porras dos discos não tem encartes para lermos as letras, porque em sua maioria, nós os temos em mp3. Acordado eu nunca havia escutado “How Dismantle” por inteiro e de forma minuciosa, que dirá sonhando. Esse é aquele disco de 2004 que tem a música “Vertigo”. No exercício onírico eu ouvi o disco inteiro e ali pela quarta ou quinta faixa ouvi uma música diferente. Era o U2 com Edge fazendo sua guitarra “trovejar” em meio a arranjos sinfonicos. Edge não usa timbres agressivos como os do heavy metal, nem guitarras Jackson King V ou BC Rich usadas por guitarristas de metal. Parecia “Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me” que o U2 fez para um filme do Batman dos anos 90, só que com mais guitarras, da forma como Mötley Crüe fez em “Dr. Feelgood”, onde o produtor mandou Mick Mars gravar 4 ou 5 guitarras base. No vocal, Bono cantava de forma quase sussurrada, em tons baixos.

Acordei frustrado por não saber tocar um instrumento. Nunca mais vou ouvir aquela música na minha vida e fiquei tentando lembrar o que Bono dizia na letra, “man without FEAR” ou algo assim. No exercício onírico minha intuição dizia que era o poema traduzido, escrito por mim num blog que Bono encontrou por acaso.

Ouça Acrobat do U2.

Dias depois vi o jogo do Chelsea em que Frank Lampard jogou contra eles vestindo a camisa do Manchester City. E resolvi ir adiante da faixa 6 do novo disco do U2. Bob Dylan dizia em seu livro “Crônicas” que 3 é um número metafisicamente poderoso e que 3 + 3 são seis. Nunca entendi o que isso significava exatamente. Na sétima faixa de “Songs of Innocence” Bono usa estranhos vocais sussurrados em tons baixos, fazendo da sua voz um elemento percussivo. O refrão diz “Raised by wolves, stronger than FEAR”. Bono disse que a letra se refere aos conflitos da guerra civil na Irlanda, os quais ele viu durante sua infância.

Na oitava faixa Edge usa timbres agressivos da guitarra como nunca fez antes. O começo de “Cedarwood Road” tem guitarras sincronizadas e Edge parece querer homenagear seus compatriotas irlandeses do Thin Lizzy, que também sincronizavam as suas. Edge parece ter entendido aquela conversa do Jimmy Page no documentário “A Todo Volume” em que eles aparecem com Jack White. Page toca trechos de “Ramble On” tentando resumir o que era o Led Zeppelin. Page mostra a justaposição entre a suavidade e a agressividade dizendo que a música do Led Zeppelin, era como “sussurrar para o trovão”. O Led Zeppelin era como o apolíneo e o dionisíaco de Nietzsche expresso na forma do rock. Edge timbrou sua guitarra como um trovão justaposto a suavidade polifônica melódica do U2. Civilizações antigas afirmavam que o número 8 simbolizava o infinito…

Ainda me pergunto se a versão em vinil de “Songs of Innocence” tem o “lado a” acabando na “faixa 6” e o “lado b” começando com a “faixa 7”. Os “lados b” dos discos do U2 são os meus favoritos.

Para ler a primeira parte deste texto, clique aqui.

(Nota do autor: tanto a primeira quanto a segunda parte deste texto foram escritas dias depois do lançamento digital de “Songs of Innocence”. Antes da divulgação da capa do álbum físico e antes da grafia oficial do mesmo ter sido divulgada enquanto “Son Gs of Innocence”. “Son Gs of Innocence” está saindo oficialmente em cd e lp nesta semana que se inicia).