O lado b dos discos do U2 (lado A).

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Certa vez um jornalista canadense escreveu na introdução de sua biografia sobre o Black Sabbath, um devaneio sobre um involuntário exercício onírico próprio. Ao contrário do que supõe do som praticado pela banda de Tony Iommi, Ozzy e cia, não foi um pesadelo.

Ele relatou ter descoberto num sonho, um disco perdido em sua coleção. O disco se chamava “Sabbath meets Purple”, algo como “Sabbath encontra Purple”. Num dos lados do disco o Black Sabbath tocava canções do Deep Purple, no lado oposto o Deep Purple tocava as músicas do Black Sabbath…

Discos rodam, são redondos e possuem duas faces. As canções se deixam reproduzir enquanto uma agulha corre por sua superficie exposta. A capa de “Songs of Innocence” do U2 é o retrato de uma edição em long play do disco mesmo, numa embalagem escrita a mão. É uma capa virtual de um álbum virtual disponibilizado até agora, apenas em arquivos mp3. Um disco do U2 que se preze precisa ter capa com fotos feitas por Anton Corbijn.

Nos dias subsequentes ao lançamento de “Songs of Innocence”, consegui entrar em contato com seu conteúdo. Fico imaginando em que parte das onze faixas do álbum haveria o corte para a divisão de “lado a” e “lado b” da versão em vinil. Nos primeiros dias ouvi apenas as seis primeiras faixas. Não senti necessidade de ouvir além. Para mim há similaridades entre “Every Breaking Wave” e “With or Without You”, devido a linha explorada por Adam Clayton em seu contrabaixo.

As guitarras usadas por The Edge em “Iris” soam como as guitarras de “Where the Streets Have no Name”. Na sexta faixa “Volcano”, o baixo de Adam Clayton soa aparente, como em velhas canções tais quais “New Years Day” ou “Bullet the Blue Sky”. O som do contrabaixo é subvalorizado no rock. Você não ouve baixistas solando por aí, a não ser o finado Cliff Burton do Metallica ou o nipônico John Miyung do Dream Theater. Por ter apenas uma guitarra em sua formação, aquela tocada por Edge, a sonoridade do contrabaixo de Adam é marcante e sobressalente. Ou talvez só eu tenha notado o quanto Adam explora verdadeiros riffs tocados no contrabaixo, porque minha única experiencia com instrumentos tenha sido um contrabaixo.

Ouça Ultra Violet (Light My Way) do U2.

Nos dias que se seguiram eu voltei a ouvir velhos discos do U2 em vinil com fones de ouvido, antes de dormir. Finalmente encontrei uma parte de “Achtung Baby” com a qual me identifico. Trata-se da sequencia final do lado b “Ultra Violet”, “Acrobat” e “Love is Blindness”. “Ultra Violet” é uma canção apolínea, que me fez perguntar para mim mesmo, se alguém da banda leu algum devaneio sobre Apolo o deus solar grego, naquela época na Alemanha. “Achtung Baby” foi gravado lá no começo dos anos 90 so século XX. No século XVIII os germânicos desenvolveram tanto um estudio racional quanto obsessivo sobre o helenismo.

Escrevi uma crônica para Frank Lampard ídolo do Chelsea, o time azul de Londres. Ele foi para o Manchester City e marcou um gol contra os blues. Não comemorou em respeito a sua história, a torcida que o aplaudiu mesmo assim e à sua falecida mãe, que pediu que ele não deixasse o Chelsea. Dediquei o refrão de “Acrobat” à Lampard meio-campo de verdadeira elegância britânica.

Em “Love is Blindness” descobri uma das minhas faixas favoritas dentre todas as criadas pelo U2. Não sei tocar guitarra, mas acho que Edge devia ter sido mais desmedido com seu instrumento nesta canção. Ele é Edge que conseguiu fazer do U2 o que a banda é sem clichês, nem “solos de penhasco”. Eu só escrevo comentários impertinentes sobre bandas de rock num blog.

(continua)