Lado A: Running to Stand Still – Lado B: Walk On.

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“And the storm blows up in her eyes.

She will suffer the needle chill

She’s running to stand still.”

(“Running to Stand Still” – U2)

Já é o segundo álbum do U2 lançado e um vazio ainda reside. Dez anos atrás você tomava nas mãos uma edição de “How Dismantle an Atomic Bomb”, dizendo que iria fazer uma “besteira” se o colocasse para ouvir nos fones da livraria. Ainda haviam toca fitas nos carros e ouviamos “Running to Stand Still”, que parecia ter muito significado para você.

As coisas davam errado e eu seguia em frente, ao som de “Walk On” nos fones de ouvido. A cada nova tentativa, as coisas desabavam como num 11 de setembro sob solo norte-americano. Uma longa caminhada para permanecer no mesmo lugar. Mas caminhar pelas ruas da pequena Londres, era algo etéreo. Você já não estava mais lá. Eu seguia o chão que você pisou com um livro de Rushdie debaixo do braço.

Parecem não haver linhas no horizonte, até você chegou a dizer que não tinha assimilado direito “No Line On The Horizon”. Já era a época de “Viva La Vida” do Coldplay e você disse que confetes de borboletas caíam sobre a plateia durante a execução de “Lovers in Japan”, no show que você assistiu na terra do sol nascente. E reza a lenda que nos vestiários do Barcelona, “Viva La Vida” virou hino que inspirou Messi e os blaugrenas a “desfrutar” da Champions League entre 2008 e 2009. Pois dizia Eduardo Galeano que os catalães carregam deuses dentro de si.

Eu relatava o vazio para alguém que também te conhece. Nos sulcos nos long plays do U2 não haviam lacunas sonoras silenciosas entre as canções. Seu nome ecoava ao invés do silêncio, entre uma faixa e outra. E esse eco era mais forte antes das microfonias do início de “Who’s Gonna Ride Your Wild Horses” em “Achtung Baby?”. O eco entre o silêncio das faixas já foi mais forte.

Enquanto você assistia o crepúsculo de Amaterasu do outro lado do mundo aqui, surgiam muitas linhas no horizonte apontadas pelas flechas de Apolo. Como um chamado do desconhecido, eclodindo ao som de “Unknown Caller”. Oito anos depois de “How Dismantle an Atomic Bomb”, eu me pegava só numa livraria em Curitiba com uma edição de aniversário, dos vinte anos de “Achtung Baby?”. O eco pronunciado seu nome havia diminuído entre uma faixa e outra, quase que se perdendo entre o som das guitarras de “Who’s Gonna Ride Your Wild Horses”. O eco entre o silêncio das faixas já foi mais forte.

Ouça “Running to Stand Still”

Afagos sugeridos em palavras escritas e propagadas pelo cyber espaço. As “covinhas” das suas costas e novamente intentos amalgamados entre o sublime e o lascivo, sugeridos por “Running to Stand Still”. Entre versos de Baudelaire e Garcia Lorca. As linhas no horizonte se desfizeram, era para ser um romance de mentira, para você partir e viajar no navio ao findar. Minha percepção romântica se tornara turva. As coisas davam errado enquanto eu prosseguia ao som de “Walk On”. Eu me tornei mais realista.

Ao som de “Songs of Innocence” percebo o fim da inocência. Porém, as canções do U2 seguem remetendo a você e a reminiscências do meu retrato de “pseudo” artista quando jovem, há dez anos atrás. Porque eu lia o livro de James Joyce enquanto esperava você ligar, naquele dia chuvoso na pequena Londres, esperando você voltar do trabalho de fiscal do vestibular de verão. Porque eramos diferentes e talvez ainda sejamos. Porque você é “Running to Stand Still” e eu sou “Walk On”.

Porque as músicas do U2 e nome que ecoava entre uma faixa e outra, quando a agulha percorria os sulcos silenciosos dos discos de vinil, se tornaram sinônimos…