Rivaldo e o gerador de crises 2.0

“Ele é visivelmente um craque, mas não consegue mais jogar profissionalmente nem com jogadores muito menos técnicos que ele”. A frase é de 2009, de um colega jornalista uzbeque, sobre Rivaldo. Dois anos depois, Rivaldo joga num clube “diferenciado” do “melhor futebol do mundo”. Muito menos decisivo do que quer se supor, o ex-craque transformou-se num gerador de crises dentro de um clube em eterna crise.

Eu tinha me comprometido a não falar mais sobre futebol brasileiro, salvo em assuntos específicos. O Brasil transformou-se numa piada como torneio, graças à ascensão da CBF e Globo sobre os demais protagonistas. O campeonato despencou de nível técnico, inflacionou o salário de uma casta de jogadores medíocres, tem uma justiça desportiva circense e repatria jogadores sem mercado na Europa. A simples existência de Rivaldo como protagonista do campeonato é uma demonstração de vários dessas razões que me puseram “de greve”. Por isso, falar dele vale menção.

O elenco do São Paulo é medíocre (sem avaliações aqui, basta analisar a colocação do time) e, Rivaldo, sente-se no direito de ser titular. Além de medíocre, o elenco está rachado e desestimulado. A queda de ontem do Tricolor na Sulamericana é a enésima situação na qual Rivaldo transforma-se em ponto focal de tensão no clube. Leão fará um favor ao São Paulo se não fizer mais nada além de assegurar que em 2012, o ex-Barcelona retorne ao Mogi Mirim para brilhar na Série Z.

Há quem defenda Rivaldo como uma arma de segundo tempo. Ele de fato poderia sê-lo. Se jogasse 10 minutos por jogo, quando necessário, poderia pegar adversários tão medíocres quanto o São Paulo e decidir os jogos, porque um jogador de classe sem preparo físico ainda joga mais que um jogador ruim cansado. O problema é que Rivaldo emula os mesmíssimos sintomas de todos craques no crepúsculo: a negação de que a natureza cobra sua fatura e que não há mais gás para jogar o futebol de outrora. Assim, Rivaldo ajudou a liquidar Carpegiani (brigando), Adilson (domando) e até a eminência parda Milton Cruz. Claro que ele não é o responsável pelo futebol opaco do clube, mas sua presença é sem dúvida um empecilho para a montagem de um time competitivo.

Mesmo Rogério Ceni, que sempre foi um trunfo tricolor, pode estar se transformando em um problema, com sua liderança. Ele sem dúvidas ainda tem condição de ser o titular do clube, mas precisa entender que também está no seu ocaso e os outros jogadores não o vêem como uma unanimidade (algo até certo ponto injusto, uma vez que o atual grupo não pode contestar nem a liderança de um cactus). O clube precisa, caso queira sair do marasmo, antes de mais nada, parar de acreditar que é “diferenciado” e começar a reconstruir lideranças, esportivas e não-esportivas, especialmente para tentar combater o câncer diretivo representado por Andrés Sanchez e o cordão de puxa-sacos da CBF.

Esse último, na verdade, não é um ponto que diz respeito ao São Paulo, mas ao futebol no Brasil como um todo. O clube tem um pape preponderante em iniciar esse combate porque é inimigo declarado do presidente do Corinthians e está isolado na oposição anti-Teixeira. Sob essa ótica, Rivaldo é um problema menor. Ele entra na equação porque sua saída seria um indicativo da intenção de se reverter a tendência de mediocridade no clube que tem muitos adeptos na diretoria, capitaneados por Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco. A resistência à CBF pode partir de poucos lugares e o Morumbi é um deles. Se isso não acontecer, azar de todo mundo.

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4 Comments

  1. Diogo Silveira Terra

    Rivaldo sempre foi um caso curioso.
    No seu auge, lá por 1999, havia gênios na imprensa que questionavam seu costume de jogar com a cabeça baixa como o fator determinante para não considerá-lo um craque completo. Em 2002, seus méritos no penta em nenhum momento foram reconhecidos como tal – Ronaldo Nazário levava todos os louros, inclusive dos mesmos pseudo-comentaristas que o julgaram acabado para o futebol. Se bem que, a partir daí, sua carreira declinou – e aí ele não pode reclamar a mídia. A mesma mídia que agora o tratou como mais um membro da dinastia de craques de fim de feira a nutrir o que deveria ser, aos olhos dela, o campeonato mais competitivo e técnico do planeta.

    Um caso similar de veterano que segue dando as cartas é o de Riquelme no Boca. A diferença é que o campeonato argentino é tão espetacularmente medíocre e corrompido pelo conluio Grondona-cartolas-barras-comentaristas comprados que faz o Brasileirão parecer a Premier League…

  2. Raphael Varella

    A lembrança que eu tinha da personalidade do Rivaldo era de um cara quieto, tímido, avesso a entrevistas e etc., algo totalmente diferente da passagem dele pelo São Paulo, onde ele fala sobre tudo, reclama, esperneia, enfim, tumulta o ambiente.

  3. Anônimo

    Impressiona o buraco em que o São Paulo conseguiu se meter de 2009 para cá. E mais ainda o fato de alguns jovens do atual elenco já serem considerados craques – ou a caminho disso – por muita gente.

  4. Se nem no Usbequistão Rivaldo conseguia jogar em alto nível, não era no Brasileiro que ele ia conseguir recuperar. Mesmo Roque Júnior e Belleti que era uns 5 anos mais novo que o meia quando viram que não conseguiam mais acompanhar o ritmo das partidas penduraram as chuteiras sem trauma. Mas enquanto Rivaldo, principalmente, e Rogério Ceni, em um nível menor, estiverem por lá não vai surgir o novo no SPFC. Outra coisa, o Tricolor precisa de uma nova geração de dirigentes. Aliás, vou além, diria de uma geração de gestores. Gente capaz de romper com esse câncer que são Andres Sanchez e a CBF.

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