Mês: fevereiro 2009 (Page 1 of 2)

Ingressos, polêmicas, estádios e outras coisas

No Brasil, tivemos um domingo à altura dos campeonatos estaduais. Insensato, triste, frustrante,

SP: uma idéia irresponsável e inoportuna (ainda que absolutamente dentro dos seus direitos) da diretoria do São Paulo motivou uma campanha imbecil em uma mídia ainda mais imbecil. Motivo: limitação de ingressos para torcidas visitantes – fato que ocorre em TODOS os clássicos locais do mundo. A atitude impensada do SPFC faz com que Andres Sanches, então presidente e candidato à reeleição no Corinthians, passasse a semana dando declarações classificando o São Paulo como “inimigo” e jurando vingança, além de dar todos os ingressos mais baratos para a torcida organizada. Resultado: depredação do Morumbi, confronto dos torcedores profissionais com a polícia e dezenas de feridos.

MG: um morto e 40 feridos por causa de um jogo inútil, em um campeonato risível, digno de pena, triste e anacrônico, entre dois times que têm uma rivalidade empalhada: há mais de 10 anos que não há páreo entre Galo e Raposa. Nem a empolgação com os sinais de um projeto que, a longo prazo, possam levar o Atlético-MG de volta à condição de “grande” valeriam um simples bate-boca, quanto mais o assassinato covarde e vil.

É ridículo, impensável, idiota. Concordo plenamente com o Mauro Cezar Pereira quando diz que reduzir a carga de ingressos para o visitante seja recibo de incompetência, mas talvez não haja outra maneira. Ou melhor, maneira há: mandar para a cela mais gelada e embolorada possível, até que o Universo se desfaça, todo e qualquer “torcedor” organizado que se envolver em confrontos em dias de jogos (não só perto dos estádios, mas em toda a cidade). Como sempre, são criminosos fantasiados de torcedores que dão vazão a uma frustração explicável sociologicamente, mas justamente pela futilidade de princípios, teriam de servir como um superanabolizante para as sentenças. Digamos, entre 5 e 10 anos de reclusão em isolamento estariam bem para esse tipo de comportamento, além de banimento eterno dos estádios (vide Inglaterra). Infelizmente, para tal medida, falta coragem, falta ter “aquilo roxo” como já nos brindou um ex-presidente de triste legado.

Mas tem a mídia. “Ah, a mídia de tanta gente…” como diria Wanderley Nogueira. Acontecida a baderna, agora todo mundo desce o pau na diretoria do São Paulo e na demagogia eleitoral do Corinthians, mas ninguém para e pensa que foram horas e horas sendo gastas na semana passada elevando a questão dos ingressos a um crime inafiançável, um desacato internacional, um genocídio futebolístico. A esses comentaristas, formados em faculdades patéticas, sem condição de esboçar um texto minimamente legível e com a bagagem cultural de um protozoário, um sistema justo também atribuiria responsabilidade – e punição. Exposição e influência trazem consigo uma responsabilidade que poucos têm condição de exercer. Os mortos e feridos deste final de semana que o digam. O que aconteceu neste final de semana tem participação direta da imprensa, mesmo que, como sempre, ela se recuse a reconhecer.

Aston Villa, o anti-Chelsea

Com um orçamento infinitesimalmente menor do que o do Chelsea, o Aston Villa é a prova viva de que um clube de se futebol não se faz só com dinheiro, mesmo que muito. Enquanto Abramovich encheu o bolso de muito jogador meia-boca na sanha de comprar o sucesso como se fosse um deus, o Villa fez o que pôde e quem é do ramo: contratou um cara que entende de futebol (Martin O’Neill), deu a ele plenos poderes e esperou.

Em menos de três anos, o Villa está a caminho de uma vaga na Liga dos Campeões. Dono do estádio mais tradicional da Premier League, uma torcida fanática que o lota frequentemente (42.640 lugares) e um dono que não é nenhum assalariado (o americano Randy Lerner, que tem cerca de US$ 1.5 bilhões), o Villa tem tudo para, em médio prazo, passar para o time dos “grandes”clubes ingleses e de uma maneira na qual não se dependa de um milionário maluco torrando dinheiro freneticamente para comprar títulos.
A lição aqui (digo, em Londres) é: clubes ricos têm mais recursos mas sucesso, no futebol depende de muitas outras coisas.

Copa do Mundo no Brasil

Há um certo medo nos jornalistas brasileiros em declarar oposição à Copa do Mundo no Brasil. Mesmo os que são contrários, temerosos de se indispor com o público num assunto onde a preferência popular é claramente favorável, atestam: “Eu sou a favor da Copa, mas que não se gaste dinheiro público”.

É compreensível. Morar num país onde contece uma Copa do Mundo é algo fenomenalmente legal. Ter seleções na sua cidade e a história acontecendo ao lado de casa é uma delícia. Mas muito melhor é ter índices de analfabetismo baixos, governos com pouca corrupção, políticos menos pilantras, infraestrutura e qualidade de vida decente para a população.

Por isso, sem meias palavras, eu sou contra a Copa no Brasil. Ponto. Não adianta diferenciar que “eu seria a favor se não estivesse nas mãos da CBF”. Sim, se pudesse haver um milagre que me garantisse sob pena de extinção dos envolvidos, que a Copa não desviaria nenhum real do país, eu adoraria tê-la perto de casa. Mas isso é uma fábula, mentira, lenda, história da Carochinha. A Copa, nas mãos da CBF, é um instrumento sórdido de política e de favorecimento de aliados. Não é possível provar que existe corrupção de antemão, mas há indícios. Não há? Então que alguém me prove que Manaus pode ter um estádio de R$ 6 bilhões que depois se mantenha economicamente viável.

Não acho que quem defenda a Copa no Brasil esteja “errado”. Cada um tem direito a ter qualquer opinião. Os interessados que defendem a Copa aqui, como clubes que sonham com estádios, prefeitos que sonham com promoção, empreiteiros que sonham com concorrências fajutas e dirigentes que sonham com levar algum por fora, esses são indefensavelmente culpados. Aquele cidadão comum que defende os gastos para ver a Copa de perto, a esse, na melhor das hipóteses, eu classifico como ingênuo, embora muitos adjetivos piores possam ser usados dependendo do argumento utilizado para justificar sua preferência.

Scolari e a linguagem do medo

Todo mundo há de falar agora sobre a demissão de Scolari (até este blog). Especialmente no Brasil. Aparentemente o gaúcho foi enredado por uma trama de intrigas entre seus jogadores e acabou caindo por causa da falta de comprometimento deles. Mas não foi isso. Scolari caiu por sua própria responsabilidade.

Não, não há nenhuma crítica à competência de Scolari aqui. O ponto é que trairagem de jogador, o bicampeão da Libertadores já deve ter visto de todas as cores: desde o Grêmio até o Chelsea, duvido que Felipão tenha sido surpreendido por alguma atitude que ateste a falta de confiabilidade dos atletas.

O erro de Scolari aconteceu na assinatura de seu contrato. Apesar de ser um treinador excelente, Luiz Felipe subestimou alguns fatores culturais do futebol inglês, deixando alguns itens ao acaso ou sem a devida atenção.

O primeiro e mais óbvio diz respeito às contratações. Felipão herdou um time mais fraco do que em anos anteriores e nos nomes que ele queimou cartuchos, levou jogadores de sua confiança, como Deco e Bosingwa. Só que Deco não é jogador para carregar um time nas costas (especialmente se o time não quiser jogar) e Bosingwa bem menos que isso. Ao mesmo tempo, levava um nome multi-famoso para um setor que já tinha dois medalhões supervalorizados, Ballack e Lampard – este último, com o agravante de ter forte influência no vestiário. Pior ainda foram os “remendos” feitos por Felipão, como Mineiro e Quaresma. O primeiro não tem como jogar como titular nem no Wolfsburg (imagine no Chelsea); o segundo, é um jogador que aos 23 anos, já “flopou” como promessa em quatro clubes.

Segundo, Scolari tentou partir de um elenco montado. Um elenco que ganhava salários muito maiores do que suas capacidades mereciam, com muitos jogadores para várias posições e poucos para outras. Exemplos: Terry e Ricardo Carvalho fazem uma dupla defensiva excelente. Mas como ficam Alex e Ivanovic? Como fazer conviver Drogba e Anelka, dois goleadores, mas de características muito similares e com um caráter abaixo da crítica?

Taticamente, Scolari teria obrigatoriamente de fazer Ballack e Lampard esquentarem o banco, se era o caso de Deco jogar como titular, para assim poder armar o jogo com dois pontas abertos “a la Euller” e dois marcadores vorazes. Mas Scolari sabia desde o começo que não dava para colocar Ballack e muito menos Lampard no banco. E a tentação de tentar fazer o que não pode ser feito venceu.

Terceiro: Scolari, por não conhecer suficientemente a Inglaterra, acreditou que levar seu assessor de imprensa para a Grã-Bretanha fosse suficiente, mas não era. A assessoria de imprensa do técnico é muito mais famosa pelos atritos que consegue com jornalistas ao marcar entrevistas para seus “assessorados” do que outra coisa. E a mídia inglesa é um assunto à parte.

Dar certo na Premier League teria sido muito difícil, mesmo com o cuidado necessário: um tradutor desde o primeiro dia e principalmente uma assessoria de imagem, que todas as estrelas na Inglaterra têm. Não se trata de marcar entrevistas, mas mapear cuidadosamente os perigos (leia-se inimigos) que Scolari poderia fazer para diminuir a quantidade de ataques sofridos. Para lidar com a mídia brasileira, a assessoria de imprensa de Scolari basta, mas com a inglesa, não dá mas nem de MUITO longe.

Scolari teria de ter imposto algumas condições no Chelsea, além do supersalário: refazer o elenco, vendendo pelo menos 30/40% do grupo, um ano de “carência” de títulos e aposta em jogadores mais novos e fortes técnica e fisicamente do que Deco e Mineiro. O seu estilo pautado em comprometimento e caráter dá certo com jogadores que o conhecem – e mais que isso, o temem e que depois, podem vir até a ter uma relação de amizade. Caras como Terry, Lampard e Drogba acham que o gaúcho é um zero à esquerda e que nada pode atingi-los.

Felipão, como Luxemburgo, fracassou na Europa dos clubes porque não exigiu o suficiente: poder total para poder impor o terror e enquadrar quem fosse necessário sem ter de dar satisfação a ninguém. Luxa é respeitado no Palmeiras porque seus jogadores sabem que ele pode ferrar as suas carreiras. No Chelsea e no Real Madrid, os dois treinadores estavam “tendo uma oportunidade”. No Brasil, eles mandam. E essa diferença, é a única linguagem que 90% dos jogadores respeitam. A linguagem do medo, no futebol, é a única que leva a algum lugar quando o assunto é não ser trairado.

PS: e como escreveu Lédio Carmona no seu blog, Dunga que se cuide…

A mentira mil vezes vira verdade…

Sobre o “Mito” de interistas chamarem o estádio de Giuseppe Meazza e milanistas de San Siro:

“Giocare quando San Siro ti mormora contro alla prima palla non dev’essere facilissimo.
Massimo MorattiLa Gazzetta dello Sport

Se Moratti não for interista, quem é?.

Tarifa do sindicato dos palhaços

Um dos itens mais nojentos da Copa 2014 (entre tantos) é o fato de os políticos de estádios da Amazônia e Pantanal, além de permitirem de maneira asquerosa a destruição da floresta, agora usam a mesma como “atrativo” para conseguir sediar um ou dois jogos do torneio.

Confira abaixo os valores que trouxas como eu e você teremos de pagar por alguns estádios da Copa 2014 e os clubes que depois utilizarão o estádio, junto com suas respectivas médias de público no Campeonato Brasileiro. Uma verdadeira tarifa cobrada pelo sindicato dos palhaços brasileiros, categoria que só não engloba políticos e influentes milionários.

Vivaldão (46 mil lugares)
Preço: R$6 bilhões
Holanda – 4761 pessoas/jogo
Fast – 961 pessoas/jogo

Arena da Floresta (40.900 lugares)
Preço: não divulgado
Rio Branco/AC – 4.814 pessoas/jogo

Natal
Preço: R$1 bilhão
ABC – 9.274 pessoas/jogo
América/RN – 5.498 pessoas/jogo

Cuiabá (40 mil lugares)
Preço: R$ 340mi
Mixto – 2.755 pessoas/jogo
Luverdense – 1.150 pessoas/jogo

Campo Grande (44.355 lugares)
Preço: R$ 500mi
Operário – 1.825 pessoas/jogo
Águia Negra – 664 pessoas/jogo

Brasília (76.232 lugares)
Preço: R$ 250mi
Brasiliense – 3.018 pessoas/jogo
Gama – 1.836 pessoas/jogo
Legião – 1.341 pessoas/jogo
Dom Pedro II – 149 pessoas/jogo

E depois deste festim sórdido, o governo ainda terá de bancar a manutenção desses elefantes brancos. Pode colocar o nariz vermelho que vai sair do seu bolso também.

Detalhando

Para reafirmar o post acima e para que não restem dúvidas: Muricy, estava errado em ser mal educado com um repórter na coletiva depois de um jogo e erra quando continua dando coletivas sem ter disposição para isso. Enfrentar a imprensa é tarefa para a vitória e para a derrota. Não há nada de errado em ser mal humorado. Telê era. Ser mal educado é outra estória. E se algum jornalista se comporta inadequadamente, que ele, sozinho, seja tratado como tal – não com falta de educação, mas com o silêncio. Agora, lições de moral, vindas da imprensa – como um todo, um bloco – são ridículas. Bons profissionais e bons veículos têm autoridade moral para tanto, mas eles são raros. Essa exigência só pode ser feita individualmente.

É mal-educado? Não fale com ele…

Não vou defender a postura de Muricy Ramalho com a imprensa. Ser mal educado, ainda que seja com jornalistas prontos para comer seu fígado na primeira oportunidade, não se justifica. Só que achei um pouco ridícula a repreensão de parte da imprensa ao técnico como que tentando estabelecer uma conduta moral.

Explico: Muricy não tem nenhuma obrigação de ser bem educado. Ele pode ser tão rabugento quanto quiser. Por outro lado, a imprensa, os jornalistas e os veículos de comunicação também são livres para fazer o óbvio: não entrevistá-lo. Não têm direito, por outro lado, de exigir que ele se comporte da maneira adequada às suas (da imprensa) necessidades.

Eu não sei muito bem o que me irritou mais: se foi o levante da Liga dos Jornalistas pela Boa Educação (quando na verdade alguns não têm nem educação básica), se foi a Associação dos Derrotados Travestidos de Corretos, ou o Sindicato dos Malas Desprovidos de Matérias. O fato é que a grosseria de Muricy transformou-se no assunto da segunda-feira, com direito à épica manchete do UOL: “São Paulo já iguala número de derrotas em casa de 2008”. Ou seja: uma derrota. A matéria compete com “Benfica segura João Pinto”, do mesmo UOL em 1998. Graças a Deus pude ver alguns jornalistas lembrando da profissão, como Mauro Cezar alertando para algo verdadeiramente sério, o planejamento do assalto maciço aos cofres públicos na Copa de 2014 e dando ao comportamento do técnico um espaço subalterno.

Muricy não é inteligente quando bate de frente com repórteres que raramente conseguem articular meia dúzia de frases desconexas. Erra mais ainda quando age estupidamente com jornalistas sensatos, inteligentes e educados (sim, eles existem), como por exemplo, Fernando Gavini, da ESPN Brasil. O técnico poderia, simplesmente, não participar mais das coletivas, deixando a incumbência para seus assistentes. Certamente Milton Cruz, Tata, Carlinhos Neves ou outro qualquer adorariam. Alex Ferguson não dá coletivas depois dos jogos na Premier League há anos e não é o único. Ao invés disso, se expõe às críticas de um grande grupo de pessoas que quer a sua cabeça. Sim, porque vencer faz o sujeito antipático. Todo mundo adora um derrotado. O sucesso dos outros é insuportável.

Quanto aos meus colegas de profissão (os bons), repensem. Não precisam se engajar em uma trincheira corporativista tosca, reles, que iguala grandes profissionais com zebus homéricos, como se um cara como Claudio Carsughi merecesse o mesmo respeito de um qualquer, desses que inventam notas para por no jornal. Sem alarde, não entrevistem mais o homem. É simples, fácil e rápido. E tenho certeza que vai fazer o técnico repensar.

Page 1 of 2

Desenvolvido em WordPress & Tema por Anders Norén

Top