Mês: janeiro 2009 (Page 1 of 2)

…e ele ficou…


Nesta segunda-feira, Kaká deu um passo para deixar seu nome na história do futebol que poucos, pouquíssimos jogadores deram. Ele recusou um contrato irreal de tão grande. Aqui, eu estou falando de verdadeiros gigantes entre os jogadores que abraçaram contratos maiores: Michael Owen, Luis Figo e outros grandes como Patrick Vieira e etc. Eles podem estar ricos, mas Kaká pode se mitificar.

A escolha de Kaká estava fechada quando ele abriu a janela e viu a torcida cantando seu nome. Ele viu crianças de colo, meninos, mulheres, todos com faixas e cartazes. Naquele momento, Kaká se deu conta do que seus colegas quase nunca percebem: que ele já é milionário, e ganhar o dobro não vai mudar seu futuro, financeiramente falando.

Ficando em Milão, entretanto, ele decidiu mudar seu futuro mesmo. Kaká tem agora a condição de verdadeiramente ser o herdeiro de Paolo Maldini como o “homem-clube”. É verdade que o seu holerite de €10 milhões por ano dá algum conforto, mas ninguém poderá acusá-lo de só pensar em dinheiro. Kaká pavimentou o caminho para virar uma lenda depois da carreira, daquelas que passam a vida num clube e se tornam patrimônio do mesmo, como Del Piero na Juventus, Totti na Roma, Gerrard no Liverpool. Mas com a diferença de que ele está, tecnicamente, um nível acima dos três mitos clubísticos.

No Milan, Kaká se mantém num palco de gala. O time hoje não é o mais forte possível, mas seu gesto faz os tantos Ibrahimovics e Robinhos pensarem duas vezes. Eles podem ficar ricos, muito ricos, mas não têm a menor chance – a menor – de adquirir a afeição de uma torcida como fez Kaká.

Aliás, por falar em torcida e Robinho, duas observações.

Primeiro, sobre Robinho: após a recusa muito se comparou a escolha de Kaká e do ex-santista. Não há parâmetro de comparação. Um já ganhou a Bola de Ouro, Liga dos Campeões, Campeonato Italiano, Mundial e é hoje, sem dúvida, o melhor jogador em atividade na Itália; o outro não venceu nada no exterior e ainda não deixou saudades em nenhum lugar. O Manchester City está muito abaixo do que o talento potencial de Robinho poder vir a ter, mas exatamente à altura do que ele já conquistou.

O segundo é sobre a torcida. Quando Kaká estava para sair do São Paulo, os asnos da torcida profissional, aquela que não trabalha e tem tardes livres para ir fazer protestos às terças à tarde, foram vaiá-lo; ontem, ela se reuniu na frente da sede do clube para comovê-lo. A partir de ontem, não há dúvidas sobre qual delas Kaká tem em seu coração.

PS: e para não dizer que não falei de flores, dou a mão à palmatória. Estava errado sobre a ida de Kaká (embora ele tenha estado mesmo MUITO perto de assinar com o City). Ainda bem que errei…

Os traidores

A discussão do fim de semana no Brasil foi: o Milan deve vender Kaká? Ele deve ir para um clube pequeno – mas que se diz ambicioso e certamente rico – Manchester City? Difícil responder. Então, façamos o que? Vamos falar bobagem.

Observação recorrente no final de semana da TV era que “o Milan não estava fazendo questão de segurar Kaká”. Não por coincidência, essa tônica é a mesma adotada pelo famigerado The Sun, tablóide radical de Londres. O Sun cravou na manchete que Kaká iria para a Inglaterra porque estava se sentindo traído pelo Milan.

Vamos aos fatos: o Milan paga a Kaká €10 milhões por ano (cerca de R$ 31 mi) num reajuste negociado há menos de um ano, inclusos aí os salários do seu irmão Digão que, não, o clube não aposta ser o novo Baresi. Com a proposta do City nas mãos, o pai de Kaká, que é seu empresário, ligou para o Milan e disse que para ficar, Kaká teria de receber um aumento. Ao saber do pedido, o dono do Milan, Silvio Berlusconi agradeceu, disse que entendia a necessidade de Kaká, mas que não podia pagar mais ao craque. Ronaldinho recebe €4 milhões anuais; Pato, recebe €2 mi. Uma corrente inflacionária se estabeleceria, com certeza, num clube que é conhecido por uma eficiente política salarial entre os grandes italianos. A posição do Milan teria sido: Kaká, se quiser, fique que será um prazer, mas sem aumento.

Mas tiremos o lado sentimental da questão (Berlusconi gosta muito de Kaká também como pessoa). Essa não é uma questão sentimental. É burrice, ou no mínimo, ingenuidade desinformada achar que um assunto envolvendo cerca de €200 milhões (cerca de R$ 620 milhões) seria decidido na “amizade”. Milan, Kaká, seu pai e todos os envolvidos estão pensando é em negócios, porque decisões amistosas não se tomam neste âmbito.

Se a proposta é na casa da cifra mencionada (€115 milhões), o Milan tem a obrigação de vender qualquer jogador. O Milan e qualquer outro clube, aliás. Kaká é um craque, mas essa quantia compra pelo menos cinco excelentes jogadores com contrato longo em vigência. Procurando bem (contratos próximos do fim, jogadores insatisfeitos, etc.), é possível formar quase um time inteiro no nível de times da Liga dos Campeões.

Além disso, na posição de Kaká, não é que o Milan esteja passando fome. Apesar de terem estilos ligeiramente diferentes, Kaká e Seedorf podem ocupar o mesmo espaço. Se o esquema for alterado, então, ainda há Pirlo e Gourcuff (emprestado ao Bordeaux, mas do Milan) que podem se incumbir de um papel de armação de modo diverso. “Ah, mas Kaká é melhor!”. Kaká é um craque, não se discute. Mas esses jogadores não são exatamente dignos do Grêmio Barueri.

O aspecto pessoal pesa mesmo é para Kaká. Ele não quer ir para o City porque não é burro. É idolatrado pela torcida de um dos maiores clubes do mundo, ganha um salário de rei e nesse clube, um dos maiores palcos do mundo, pode escrever seu nome na história do futebol como um protagonista. Nem o salário nababesco do City (€15 milhões anuais, só de salário) garantiria isso.

Ninguém está traindo ninguém. Falar que Kaká está fazendo bobagem ou se vendendo é fácil para quem não tem de tomar tal decisão. menos ainda para uma empresa (Milan) diante de uma soma que significa uma reformulação de qualidade da equipe. Assim, concluir que o Milan está “traindo Kaká” ou que está só pensando no dinheiro, é conversa de quem ouviu o galo cantar mas não sabe aonde.

Bobagens…

Dizer que Carlo Ancelotti é defensivista, tendo ele escalado um meio-campo com Pirlo, Beckham, Seedorf, Kaká, Ronaldinho e Pato, com Jankulovski e Zambrotta de laterais, é difícil de engolir…ai, como tem jornalista que não faz seu trabalho…

Uma grande besteira…mas como condenar?


Kaká acaba de entrar para a história como o jogador pelo qual se pagou a maior quantia em todos os tempos. E é muito provavelmente que nunca mais se volte a pagar cifras similares, porque a economia do mundo está iniciando um processo onde os acúmulos de riqueza indecentes, como os dos milionários russos e dos xeques árabes que vivem com o patrimônio de seus povos, irão rarear.

Do lado do Milan, não há o que falar. Não se trata de uma decisão. Se os italianos não vendessem Kaká por mais de R$ 300 milhões, teriam de ser internados. Não há nenhum jogador que valha isso (como eu disse ontem).

Mesmo sendo quase impossível condenar Kaká por aceitar uma proposta de cerca de R$ 1.7 milhões por semana, é possível atestar: ele, do ponto de vista esportivo, fez uma besteira. Nem o Manchester City, nem nenhum clube muda de status simplesmente com um aporte de dinheiro, por maior que seja ele. Em Manchester, Kaká será herói, é verdade, mas terá sobre si uma cobrança muito maior do que tinha no Milan. Se exigirá dele o que ele não pode dar: a perfeição em todos os jogos.

Hoje, o futebol é um negócio, mas sua natureza faz dele um negócio muito particular. Dinheiro ajuda, mas não define. O Chelsea não é um clube à altura dos grandes europeus e pelo que tudo indica, não o será, porque o verão provocado por Abramovich dá sinais de fadiga. Investimentos em divisões de base, treinadores e profissionais de gabarito são fundamentais, mas só os clubes que criam em torno de si uma aura, que faz daquele clube uma entidade única, conseguem se fixar. Mesmo os jogadores mercenários, quando vão para clubes como Juventus ou Barcelona, têm de se adaptar à entidade, ou então, não ficam.

Ouço dizer também que Robinho também pediu Kléber, lateral do Santos, como contratação para o clube se engrandecer. É curioso observar como o mundo do futebol tem espaço para suas próprias chagas. Kléber, um lateral que teve uma passagem razoável no Corinthians, fracassou retumbantemente na Alemanha e, no Santos, fez pouco mais do que alguns bons jogos, vem sendo convocado à seleção há anos e ainda tem “patrocínio” do “chegado” Robinho para uma tranferência zilionária. Exatamente ele que, diga-se a verdade, teria grande dificuldade para lutar por uma vaga de titular em qualquer um dos cinco primeiros colocados do último Brasileiro.

Kaká ficará muito, muito rico e esse foi o caminho que ele escolheu. Mais do que todos seus colegas. Mas não alcançará no City o sucesso que teria no Milan, Barcelona ou Manchester United. O dinheiro elevará o City, mas o difícil é permanecer no alto. Uma Premier League? Finais européias e eventualmente um título? Talvez. Tradição? Não, nisso eu realmente não acredito.

E finalmente, uma palavra sobre este sheikh árabe. O seu gasto não tem nada a ver com “investimento”. Não é possível ter retorno como negócio num valor deste. Num momento em que palestinos morrem na miséria em Gaza, essa despesa é asquerosa, vil, suja e odiosa. A simples existência de uma pessoa tão rica e tão inconseqüente já causa incômodo. Bem, um de seus assessores é Kia Joorabchian. É preciso dizer mais?

…e para deixar o palpite…

…está com cheiro de que o negócio vai rolar…

Kaká

Uma enquete do jornal Gazzetta dello Sport de hoje anota que mais de 60% dos votantes (que já eram mais de 30 mil no momento da minha consulta) achavam que Kaká deveria ser vendido se a proposta de £100 milhões (cerca de R$ 346 milhões)feita pelo Manchester City fosse feita. A leitura tola é: “são os torcedores dos outros times”. Mas não é essa a leitura correta.

Kaká é um craque. Será um dos maiores de todos os tempos. Está muito à frente de Cristiano Ronaldo (para citar o atual Bola de Ouro) e só Messi parece ter potencial para igualá-lo. Ronaldinho Gaúcho, se não tiver nenhum problema físico misterioso (e vontade) pode igualá-lo. Superá-lo me parece difícil.

Mesmo com todas essas credenciais, uma proposta dessas, que realmente é indecente, uma imbecilidade que só um mundo como o de hoje permite, tem de ser aceita. Com esse dinheiro, o Milan pode comprar quase um time que, mesmo sem o brasileiro, pode superar em muito o atual elenco.

Kaká é grandioso na imposição da jogada e na avaliação correta entre a diferença do momento entre o drible e o passe (coisa que Robinho não sabe fazer quase nunca). Carrega o Milan nas costas há duas temporadas. Mas não vale esse dinheiro. Talvez Pelé, no auge de sua forma, com 25 anos, pudesse valer. Mas ninguém mais.

O torcedor, não nos esqueçamos, quer ver seu time vencer jogando bem. Kaká faz isso, mas uma quantia irreal de R$ 350 milhões (capaz de comprar, digamos, todo o time campeão brasileiro do São Paulo e ainda os melhores jogadores de Cruzeiro, Grêmio e Palmeiras) pode fazer mais. O torcedor italiano, votando em 60% pela venda, se mostra mais racional do que a média.

Não parecia possível…


Quando Carlo Ancelotti anunciou a escalação do Milan para pegar a Roma, pensei: “A Roma ganha”. Um meio-campo com zero volantes e cinco meias me parecia inadequado para enfrentar uma Roma sólida no setor e ainda contando com vários jogadores talentosos. A estréia de Beckham ganharia ainda mais ares de “jogo-espetáculo”.

Fiquei surpreso com o jogo e, apesar de ter ficado claro que o esquema não é ideal, ele é viável. Beckham, Pirlo, Seedorf, Ronaldinho Kaká e Pato podem jogar juntos desde que seja contra times mais técnicos e com menos força física para disputar a bola no meio-campo.

Antes que venha a criativa acusação de “você não gosta de futebol-arte”, peço que se responda à pergunta: dá para jogar futebol sem a bola? Não. É por isso que você precisa dela nos seus pés e quem consegue tirar a bola dos adversários habilidosos são os De Rossis, Gattusos e Essiens, e não os Léos Limas.

Contra um time mais sólido fisicamente (digamos a Juventus ou um Arsenal), o Milan precisaria, no mínimo, de contar com zagueiros fortes e rápidos, no estilo da zaga do São Paulo tricampeão. Com defensores rápidos, é mais difícil para o atacante ganhar no fôlego. Com Maldini e Favalli (ou Kaladze e Nesta), não dá para abrir mão de um cão de guarda diante da defesa. Por exemplo, quando Thiago Silva puder jogar, ele será uma ótima opção neste sentido.

A experiência de Ancelotti não deve ter sido à toa. Vindo da intertemporada, Milan e Roma (assim como todos os times grandes) voltaram com um cansaço causado pela carga de exercícios, exaustão essa que se dissipa em algumas semanas. Assim, um jogo contra a Roma era a alternativa ideal para usar o esquema “galáctico” que alguns pediam e provar que ele, como tática fixa, é inviável.

As soluções passam por dois caminhos. O primeiro é contratação de zagueiros com menos idade; a segunda é a escalação de Flamini ou Ambrosini (ou os dois) para dar substância no meio-campo. A lógica sugere uma união das duas coisas.

Sobre a estréia de Beckham em si, ela foi boa. Dentro do contexto (preparação física inadequada e falta de entrosamento), o inglês mostrou inteligência e condição de se adaptar a um time que tem a posse de bola com característica.

As parcerias

Na temporada passada, a Traffic, empresa de marketing esportivo, anunciou parceria com o Palmeiras. Houve festa nas arquibancadas. Craques chegariam. As lembranças dos saudosos anos da Parmalat tilintaram os copos dos palmeirenses que começaram a sonhar com títulos.

Era uma expectativa justificada. Nenhum clube, na temporada passada, contratou os jogadores que quis como o Palmeiras. Diego Souza, Kléber, Henrique. Todo mundo dava o Palmeiras como barbada para o título, especialmente pela presença de Vanderlei Luxemburgo no banco – também cortesia da Traffic. Até colaboradores de luxo como os técnicos Carlos Alberto Parreira e Darío Pereyra engrossaram as filas.

O fim da história já se sabe: as contratações foram boas para a Traffic, mas não para o Palmeiras que, por exemplo, perdeu seu melhor zagueiro, de muito longe (Henrique) com alguns meses. E o toque de Midas de Luxemburgo – outrora técnico, hoje com mais preocupações gerenciais do que de campo – também se foi.

A lição daí é clara: se um time quer ganhar títulos e uma empresa quer ganhar dinheiro, ambos sairão felizes só em poucas oportunidades, quando combinarem as circunstâncias para as duas coisas. Em todas as outras vezes, se dará bem quem mandar, ou seja, quem tem dinheiro e quer mais (dica: não é o clube).

Então por que cargas d’água as “parcerias” continuam ganhando adeptos? E como explicar que um clube seja parceiro de uma empresa que é parceira também de um rival? Será que dá, mesmo numa mente infantil e de capacidade de raciocínio visivelmente embotada, para acreditar que se trata de um bom negócio para o clube?
Hoje, a torcida do Palmeiras já sabe o que significa a “parceria” e externa sua revolta, mas no ano passado, na expectativa de ver o time se dar bem, comemorou.

Assim como fizeram os corintianos quando Tévez chegou, mesmo que até uma porta via que a MSI era uma empresa enterrada até o pescoço em tramóias e sombras. Vários clubes do Brasil estão abraçando a política das parcerias (especialmente aqueles com diretorias particularmente incapazes). É muito provável que quebrem a cara, mesmo que haja sucessos efêmeros de saída. Com certeza, mas certeza mesmo, só dá para dizer uma coisa: as empresas “parceiras” vão encher o rabo de dinheiro.

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