Mês: dezembro 2008 (Page 1 of 2)

A dor crônica de Kaká e do Milan

Um problema apontado por muita gente já há algumas temporadas – o da idade média avançada – se faz sentir no Milan mais uma vez neste ano. É ir contra a lógica imaginar que a diretoria virá a público assumir seus próprios erros – que existem, mas os problemas do “maior campeão do mundo” vão além de ter um time com muitos veteranos. Mas que ela errou, errou.

A questão da idade é certamente uma dificuldade, ainda que não a única. O elenco do Milan tem uma idade média de 29 anos e meio, mas aí vão inclusos garotos que raramente jogam como o defensor Darmián (19 anos) e os meio-campistas Cardacio e Viudez (21 e 19 anos, respectivamente). Sem os três e sem o pueril Pato, a média sobe em mais de dois anos. Idade elevada é quase sempre igual a maior número de contusões. O problema é ainda maior na defesa, onde a idade média é de 30 anos, mas sem Darmián, Bonera e Senderos, sobe para 34,5. No gol, os “meninos” têm 33 anos.

Em temporadas passadas, mesmo com presenças jurássicas como Costacurta, Cafu, Fiori e Serginho, o Milan se safava. A resposta, segundo o clube, estava no MilanLab, um centro de preparação física e tratamento de lesões “state-of-art”, que fazia com que só as contusões traumáticas (as causadas por uma pancada, por exemplo) tirassem seus jogadores de campo. Contudo, nos últimos dois anos, a quantidade de lesões por estresse ou preparação inadequada vêm sendo o calcanhar de Aquiles milanista. Na temporada passada, o técnico Carlo Ancelotti chegou a ter nove jogadores fora de combate. No momento, ele tem seis, e vários, como Emerson, Senderos, Ronaldinho e Pirlo estão em processo de recuperação.

A pior ausência é a de Kaká, cujos problemas físicos coincidem com o início das lamúrias do Milan, logo depois da final da LC de 2006/07. O esquema de jogo do time passa pela combinação de Seedorf e o brasileiro na união entre meio-campo e ataque. Sem Kaká, Ancelotti está tentando fazer uma coisa que não fez em sete anos de Milan: armar o time num 4-4-2 tradicional, com Seedorf e Ambrosini externos e Emerson e Pirlo na linha mediana.

A conseqüência é clara. O Milan sofre para maquinar as ações ofensivas, que sempre passam por Kaká e sem ele, precisariam ser organizadas pelas alas onde nem Seedorf nem Ambrosini são os homens ideais. Assim, é preciso que os laterais Zambrotta e Jankulovski se arrisquem e não é raro que os defensores fiquem desguarnecidos (ainda mais sem o guardião Gattuso à frente deles)

Nessa leitura tática, a chegada de Beckham ao time em janeiro é positiva. Anos atrás, Ancelotti disse que Beckham não se encaixava no jogo do Milan. Ele tinha razão. Jogador habituado a dar profundidade às manobras pelas laterais, Beckham teria dificuldade em jogar no 4-3-1-2 da época. Num 4-4-2, no entanto, o inglês torna-se uma excelente alternativa de jogada pela direita, deslocando Seedorf para a esquerda. Mais: o holandês e Jankulovski poderiam então se alternar nas descidas pelo setor, e com o tcheco indo à linda de fundo, Seedorf se deslocaria para o posto que mais gosta: o espaço atrás dos atacantes. Como Kaká faz.

E se Seedorf gosta de jogar no lugar de Kaká, por que Ancelotti não troca simplesmente um pelo outro, enquanto o segundo está machucado? Porque o técnico entende que o esquema com três medianos e um ‘trequartista’ só é tão eficiente no Milan graças a Seedorf, que consegue combinar grande pressão na marcação com qualidade no passe. Se ele faz as vezes de ‘trequartista’, nenhum dos substitutos consegue dar conta do recado sem outras mudanças no sistema.

Sintoma

Kaká não é o tipo de jogador que faça carnaval para forçar uma transferência. Quando no São Paulo, mesmo sabendo-se que ele não renovaria o contrato com o time paulista, não há nota de grandes demonstrações de descontentamento para uma transação. Até abrir mão do percentual que normalmente o jogador tem direito ele abriu, segundo conta abertamente o vice-presidente do Milan, Adriano Galliani.

Mesmo assim, não é difícil sacar que o brasileiro não está contente em jogar pela segunda temporada num clube que se alija das disputas de títulos por causa de problemas de contusão ou idade média avançada. Até a chegada de Ronaldinho Gaúcho – demonstração inequívoca que o Milan não quer deixar de disputar títulos- tem deixado o ex-meia do São Paulo incomodado, porque, com o 4-3-2-1 (alternando-se para 4-3-3) do Milan, os dois têm de se esforçar para não ocupar a mesma faixa de terreno.

Essa circunstância, aliada ao apetite de rivais como Real Madrid, Barcelona e Chelsea, faz com que a saída de Kaká deixe de ser um fato ilógico, mera produção de sandice mediática, para se transformar numa possibilidade concreta. O sucesso do clube nesta temporada (leia-se título italiano) não é só importante para o clube impedir um tetracampeonato interista. É também um modo de convencer seu maior nome a continuar em San Siro.

O erro de Cuca…

Ao longo de sua carreira de técnico (que começou há 10 anos, no Uberlândia), o novo treinador do Flamengo, Cuca, raramente passou um ano num clube só. Nessa década, Cuca já tem no seu currículo, uma lista de 20 clubes: Uberlândia, Avaí (duas vezes), Brasil de Pelotas, Inter de Limeira, Remo, Inter de Lages, Gama, Criciúma, Paraná Clube, Goiás, São Paulo, Grêmio, Coritiba, São Caetano, Botafogo, Santos, Fluminense e finalmente o Flamengo, também pela segunda vez.

A primeira conclusão que não é difícil de tirar é a de que apesar de um reconhecimento geral de que se trata de um bom técnico, ele não consegue ficar mais de seis meses num clube (menos até do que o irascível Emerson Leão). Só no Botafogo Cuca conseguiu ficar mais de um ano e ainda assim, numa gestão turbulenta, onde o clube ficou consagrado pelo “chororô”, muito pela instabilidade emocional de seu comandante (e também da diretoria, claro).

Em 2008, Cuca teve uma lição da vida: saiu do Botafogo por causa de uma deficiência sua na gestão psicológica (dele mesmo e do grupo) e foi para um Santos despedaçado. Aos amigos, Cuca admitia que estava se arriscando, mas que a proposta financeira do Peixe era boa demais para ser recusada. Fracassou fragorosamente de novo, mas nem assim aprendeu a lição e aceitou um chamado do Fluminense, que também estava na zona do rebaixamento. E não surpreendentemente, ‘flopou’ igualmente, também deixando o Flu na mesma zona de risco. Para configurar definitivamente a sua falta de competência em 2008, todos os três se salvaram depois de sua saída.

O acerto com o Flamengo revela provavelmente um novo recorde: Cuca passou por quatro clubes em 2008. Sim, ele deve estar com uma conta bancária bem abastada. E é bom que seja assim, porque pelo andar da carruagem, em breve ele vai precisar dela para viver, já que não falta muito para que os convites de porte comecem a escassear.

Depois de três fracassos indefensáveis, Cuca deveria fazer o que qualquer um que tomou uma envergada faria: esperar um convite de um clube organizado (ainda que mais modesto), com uma torcida que pressionasse menos no qual ele pudesse passar dois ou três anos e finalmente, mostrar que sabe trabalhar para elevar o clube de patamar. Seu salário provavelmente não seria nababesco como os dos últimos três clubes, mas ele apostaria numa carreira sólida.

Sua opção foi a inversa: deixou-se seduzir por um salário provavelmente alto, mas vai lidar com um time que tem um elenco regular e uma torcida ensandecidamente fanática, bombada por uma mídia rigorosamente cega em relação à própria paixão. Para piorar, tanto a mídia quanto a torcida acham que o elenco é composto de gênios e que deveria ter vencido o Brasileiro com facilidade.

É difícil vislumbrar Cuca dirigindo o Flamengo no fim de 2009. Não há pressão similar à do Flamengo e ele certamente não sabe lidar com pressão (nem mesmo em clubes menores que o Fla). A sua reputação de bom tático (que é justa) há de se afundar por uma reputação muito mais concreta, a de “perdedor”, ainda que em nenhum dos clubes que ele tenha passado, o elenco desse chances para disputas de título. Muito mais que os seus atletas, é ele que precisa de um psicólogo em tempo integral, ou então vai soçobrar.

…e o erro do Flamengo

Diretoria, mídia e torcida flamenguista demitiram Caio Júnior com uma certeza: seus erros tiraram o clube de um título brasileiro certo. (Ao leitor que estranhou a menção à mídia como um dos participantes da demissão de Caio, não estranhe – não é por acaso). Sem ele (talvez com o “Professor Joel”), o Fla teria conquistado seu sexto título brasileiro e não teria sido passado pelo São Paulo. Certo?

Não. O Flamengo tinha um time bom nesta temporada, é fato, mas nem de longe era superior aos seus concorrentes diretos que, não coinidentemente, ficaram com as vagas para a Libertadores. Exemplos: Léo Moura e Juan são bons laterais, mas Eltinho e Luizinho ainda não existem. Dos oito atacantes flamenguistas, nenhum estava à altura do posto com um deles, Josiel, ficando em situação constrangedora pela deficiência técnica.

Caio Júnior não foi o maior culpado (embora tenha suas responsabilidades) pelo quinto lugar do Flamengo (e não, não foi um fracasso, porque o Fla não é melhor que os quatro primeiros do Brasileiro 2008), mas deixemos isso para lá. Uma vez demitido, qual o perfil do técnico seguinte? Certamente um nome com personalidade fortíssima (para controlar elenco e mídia), virtude mais importante até do que a capacidade tática, já que na Gávea, o extra-campo é muito mais problemático do que o que acontece no gramado.

O nome natural era o de Renato Gaúcho. Não sou fã da fanfarronice de Renato, mas admito que nos clubes em que passou ele soube desenhar taticamente seus times e colocou os jogadores na coleira. Além disso, a derrota na Libertadores há de ter ensinado a ele algumas lições sobre como controlar a língua para não se transformar numa vítima dela.

Ao invés disso, é Cuca, provavelmente o treinador mais fragilizado emocionalmente no Hemisfério Sul, o encarregado de comandar o Fla a vencer o seu primeiro título em 16 anos (não, estaduais e Mercosul não estão à altura do Flamengo). Esse jejum faz (ou deveria fazer ) pensar. Se o clube é tão superior, porque tanto tempo sem ganhar?

O clube da Gávea, nos últimos anos, deu sinais de amadurecimento e profissionalismo, mas também deu – como nos inúmeros episódios que levaram às escorregadas no Brasileiro – mostras das velhas presepadas originadas em fanfarronice mediática. Cuca foi um erro da direção do Flamengo e o Flamengo foi um erro de escolha de Cuca. Se algo positivo sair daí, será uma surpresa. A melhor chance do Fla neste ano é a Copa do Brasil, único torneio que pode dar ao técnico a energia para superar as próprias limitações e a pressão rubro-negra.

Ronaldo

A contratação de Ronaldo me surpreendeu, confesso. Não achava que o presidente do Corinthians, Andres Sanchez, fosse capaz de levar a cabo um plano astucioso de contratar um dos jogadores com mais exposição no mundo mesmo sem jogar há quase um ano. A diretoria do clube do Parque São Jorge me parece muito mais atenta à política interna e às declarações demagógicas. Mas enfim, ele vai para o Corinthians. E agora?

Minha primeira dúvida é: por que razão ele não assinou com o Flamengo? Se ele pensa na Seleção, como declarou em entrevista, o Flamengo é “o” clube: tem muito mais mídia do que Corinthians, São Paulo e um outro grande qualquer juntos; é na sua cidade; é seu clube de coração e politicamente, jogar bem no Fla vale 10 vezes mais do que jogar bem em qualquer outro lugar. “Mas no Fla a pressão é maior”. Mentira. Isso é uma coisa em que o Timão equipara-se ao Flamengo. Duas derrotas seguidas na Fazendinha são quase uma pena de morte.

Imediatamente, o que me vem à cabeça é: por que o Flamengo deixou Ronaldo escapar? E se foi Ronaldo que deu um boné no clube, porque fez isso? Será que se deu conta de problemas internos que nem a mídia percebe? O que haveria no Flamengo de tão nefando, de tão intransponível? A desculpa de que o Rio tem mais tentações é patética. São Paulo, para quem é famoso e rico, pode ser igualmente uma Sodoma.

Tecnicamente, eu diria o seguinte: se Ronaldo conseguir voltar a jogar, digamos com 50% do que podia fazer em 2002, será artilheiro do Brasileirão. PVC, no seu blog, anota que ele não joga sete partidas seguidas há quase cinco anos, mas o ritmo do futebol brasileiro é muito menor do que o europeu. Prova disso foi a longevidade quase tutancâmica de Romário que muito antes já não podia nem se aventurar em clubes de outros países. Ronaldo tem um problema físico que pode impedi-lo de jogar. Se ele conseguir jogar, um abraço. O Corinthians já tem pelo menos 20 gols no Brasileiro.

Como é que é?

Então peraí: o juiz da partida mais importante do campeonato é sacado porque “interceptou-se” um envelope de dinheiro que ia para o árbitro Wagner Tardelli e fica por isso mesmo? E como fica essa história de Ricardo Teixeira saber de tudo e dizer que só vai revelar na segunda-feira? É isso? E nada mais vai acontecer?

Quem é que está por trás disso? Grêmio, São Paulo, a CBF ou quem?

O ‘Flop’ Informativo

A maior bomba do jornalismo esportivo em 2009 ocorreu neste Sábado, com a estranha história da remoção de Wagner Tardelli do jogo entre São Paulo e Goiás. A notícia surgiu no meio da tarde. Cerca de quatro horas mais tarde, os meios de comunicação não tinham conseguido agregar nenhuma informação alem daquela divulgada pelo Sportv. O que há de errado?

Há de errado que os sites brasileiros que tratam de futebol (sejam eles de jornais, revistas ou eletrônicos) tratam o final de semana – exatamente o momento onde mais acontecem partidas – como um período morto, por conta da queda de visitação dos sites na Internet.

A questão é que não é porque a audiência é menor que as publicações ficam autorizadas a manter redações com uns poucos estagiários para apurar um assunto que deve arruinar a credibilidade do Campeonato Brasileiro de 2009. Um jornal não é como uma empresa qualquer, que pode ter seu planejamento simplesmente decidido em cima dos custos e resultados. Há um compromisso com a sociedade de se informar bem. Compromisso esse que foi solenemente ignorado neste sábado.

Pagar as dívidas faz bem


A caminhada do Leeds rumo ao despenhadeiro financeiro na liga de futebol inglesa foi acompanhado por todo mundo que gosta de futebol inglês. Como era possível, um clube que estava na Liga dos Campeões até outro dia e tendo um estádio tão moderno como Elland Road, estar à beira do caos e correndo mesmo o risco de sumir. Pois é. Estava.

A resposta para a pergunta “como pode” é a maior seriedade com a qual o governo e a justiça britânica encaram e regulamentam o futebol. Lá, clubes em dívidas que não possam ser comprovadamente pagas, perdem pontos, são rebaixados e chegam até a sofrer intervenção, com a entrada de administradores que simplesmente deixam de lado a paixão e garantem que o clube pague suas dívidas – mesmo que isso signifique cair para a 17ª divisão.

Esse cenário, que deve causar horror na Gávea ou em General Severiano, foi a salvação do Leeds. Levado à bancarrota por uma administração megalômana (alô, Kléber Leite?), o Leeds facilmente quebraria se fosse uma empresa, mas um ano e meio depois de entrar na administração forçada, apresentou um lucro líquido de £4 milhões (cerca de R$ 15milhões) nos últimos 14 meses. É verdade, ainda não conseguiu se livrar de Ken Bates, um dirigente para lá de suspeito, mas isso é capítulo para outro post.

O interessante nessa recuperação do Leeds para nós brasileiros é a comprovação de que uma legislação impositiva aos clubes de futebol não quer dizer – como apregoam os cartolas – o fim do futebol. Na verdade, pode representar até mesmo uma grande ajuda para uma entidade que precise passar por uma depuração e renovação dos dirigentes (características que certamente encaixam na maioria dos clubes brasileiros).

Não é preciso fazer uma lista dos clubes mais endividados para convencer o leitor, mas se ele quiser pode ver uma matéria sobre o assunto aqui. O endividamento e má gestão crônicos são infinitamente mais nocivos do que um ou dois anos em divisões inferiores ou sem poder lutar por títulos. Enquanto isso não acontece, meia dúzia de maus dirigentes mama nas tetas dos clubes e no final, a conta é paga pelo contribuinte. Contribuinte esse, que quando não paga as suas dívidas, acaba na cadeia.

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