Mês: novembro 2008

Falta inteligente, não. Falta de inteligência

Uma palestra do treinador Roberto Fernandes nesta semana gerou uma certa discussão, como sempre entre a encheção de saco do “futebol-arte” ou do “futebol de resultados” e assim vai.

Ninguém (pelo menos não que eu tenha visto) se deu conta de outros detalhes, como por exemplo, a palavra “blitz” escrita com “s” (“blits”) no PowerPoint da apresentação do técnico. Mas tudo bem, né? Se até GC de matéria de TV sai com erro de ortografia, como exigir português correto de um treinador?

Tecnicamente, o discurso de Roberto Fernandes (que, sim é o que fazem todos os treinadores do Brasil) de assumir que tem de parar a jogada com falta para evitar contra-ataque é uma clássica distorção de uma leitura de estatística.

A estatística diz: “time que faz mais falta ganha jogo”. Mas isso não é verdade. O que ganha jogo é o time que faz mais desarmes. Em muitos casos, por conseqüência de uma maior aplicação na marcação, alguns times que ganham fazem mais faltas. Mas é um defeito, um erro de fundamento. Se o desarme fosse bem executado, não seria necessário fazer a falta.

O treinador do Náutico, que na sua passagem pelo Atlético-PR deu diversas declarações infelizes para mostrar “determinação” (como “treino é jogo e jogo é guerra”, coisa que, diga-se de passagem, o Náutico é useiro e vezeiro de fazer nos aflitos), comete o erro que quase todo treinador faz e assim, não pode ser condenado.

Agora, vir com um termo chamado “falta inteligente” é de um desafio à lógica. Imagine “erro bem-feito”, ou “palhaçada séria” ou então “crueldade suave”. A não ser em um discurso poético, termos antagônicos não têm como ser usados ao mesmo tempo.

Não existe falta inteligente. Se ocorre uma situação na qual o jogador precisa fazer uma falta obrigatoriamente, é porque houve uma falha: ou uma falha no desarme, ou uma falha na marcação, ou uma falha na cobertura e posicionamento.

Por exemplo: o meio-campista rouba a bola do volante adversário e se posiciona para puxar um contra-ataque. Se ele não tiver mais nada entre ele e o gol ou ele e o zagueiro, além do volante que perdeu a bola, o posicionamento do time que tinha a bola falhou. Teve de fazer a falta? Tudo bem, mas falta inteligente o escambau. É tentar exibir uma besteira como se fosse uma virtude. De novo, desafio à lógica.

Parte da má interpretação vem porque poucos treinadores (poucas pessoas, aliás) lêem estatísticas cruzando as informações e não somente vendo os números mais óbvios. Outro fator é que dá muito mais trabalho ensinar o jogador a melhorar o desarme, aperfeiçoar o passe e treinar o posicionamento. Como diz o Capitão Nascimento em “Tropa de Elite”, “correr atrás dá muito mais trabalho”. Dá mesmo.

A carniça peruana

A decadência e caos do futebol peruano (que na verdade já está extinto desde a década de 70) trouxe ao ar do mundo do futebol um cheiro se sangue que só ensandece as hienas. Se a federação do país ficar “de mal” com a Fifa mesmo e perder as suas vagas na Libertadores, a luta pela carniça dos peruanos será intensa. E malcheirosa.

Os primeiros boatos dão conta de que o Internacional se mexe para conseguir que o campeão da Sul-Americana deste ano ganhe uma vaga na Libertadores. Sim, é verdade que uma vaga na Libertadores para o campeão da nossa Copa Uefa seria um excelente modo de transformar o torneio em uma competição de verdade. Mas para 2009. Para esta edição, seria de um oportunismo nojento, uma politicagem absurda e que já deixaria a Libertadores 2009 exalar um olor antes mesmo de começar.

Na verdade, rumores sobre manobras do Internacional para conseguir uma vaga na Libertadores no ano de seu centenário já vêm de longe. O clube, que se auto-proclama “o melhor elenco do Brasil”, me lembra muito o “Real Madrid do Morumbi” da época de Oswaldo de Oliveira. No papel, só craques. Em campo, irregularidade e muitas justificativas pelos resultados que não vinham.

Sim, o Inter tem todo o direito de querer fazer bonito em seu centenário. Aliás, a obrigação. Para isso, o primeiro passo é abrir mão do oportunismo barato, tentar conquistar tudo o que puder em 2009 (Gauchão, Copa do Brasil e Brasileiro) e chegar a mais um Mundial – limpo e imaculado – em 2010. Não importa que com 101 anos ao invés de 100.

Mas certamente mais abutres tentarão arrancar um naco de uma possível carniça peruana. Um entre Flamengo e Palmeiras ficará sem vaga na Libertadores . Caso uma vaga fosse designada ao Brasil, aliás, esta seria a possibilidade mais justa e o que aconteceria em qualquer liga séria: o melhor colocado do campeonato nacional que não tivesse lugar na Libertadores. Mas tem mais: o Fluminense, com a sofrível justificativa de ser o atual vice-campeão da Libertadores, postula a vaga. Logo, o Corinthians pedirá a vaga pelo título da Série B, Felipe Massa pelo vice na F1 e O Zé Costela pelo título do Campeonato de Bocha da Vila Ré. Uma série de justificativas à altura do STJD.

Quatro técnicos para manter

A vitória do São Paulo em São Januário selou o destino do Brasileirão 2008. Há, ainda, a possibilidade matemática de um título do Grêmio, mas a dificuldade de ver o atual bicampeão dar dois tropeços seguidos é gigantesca. Como bem disse Renato Maurício Prado no Troca de Passe da Sportv neste domingo, esperar que um time que não perde há três meses o faça duas vezes em sete dias é confiar demais na sorte.

A reta final do Brasileirão, contudo, deveria garantir a três dos outros quatro treinadores dos cinco primeiros da tabela, um horizonte tranqüilo nas permanências de seus empregos. Celso Roth, Adilson Batista e Caio Júnior fizeram o que podiam com o que tinham e foram ultrapassados, na bacia das almas, por um time que carrega um time montado há vários anos. Mas não será assim.

É difícil dizer quem será o primeiro a cair. Entre seus torcedores, Roth, Caio e Adilson são vistos como “culpados” pela “derrota” no Brasileiro de uma maneira injusta, e até irracional. Com elencos que não são, de maneira nenhuma mais fortes dos que os concorrentes, os três tiraram leite de pedra e sofreram com problemas que estavam além do alcance.

O Grêmio, por exemplo: quando começou o Brasileiro, o tricolor gaúcho era dado, ao lado de Santos e Vasco, como possível candidato ao rebaixamento. Enquanto o Vasco quase certamente cai e o Santos se safou por pouco, Roth e o Grêmio – sem nenhum reforço fantástico – chegou ao fim do ano na batalha pelo título.

Em Minas, Adilson é xingado em todos os jogos e apelidado de “Professor Pardal” pelas suas “invenções” como razão pelo “insucesso” do time. Tudo entre aspas, porque das “invenções” de Adilson, o Cruzeiro tirou a base de um time que, se não for desmontado pela família Perrella, põe a Raposa entre os favoritos ao título de 2009. E “insucesso”, porque considerando-se as últimas performances do Cruzeiro no campeonato nacional, a zona Libertadores é uma excelente colocação.

No Rio, o Flamengo paga o preço de ter a caixa de ressonância que tem. Três gols seguidos de um jogador flamenguista o colocam como “selecionável” (vide Ibson) e uma derrota normal (como a do Cruzeiro) deixa um ar de guilhotina na Gávea. Enquanto isso, com um elenco entre os melhores, mas longe de ser o melhor, Caio Júnior paga a conta de trabalhar num clube onde o caos reina há décadas, com jogadores fazendo o que bem entendem, sempre com o aval de um diretor ou conselheiro ávido por reafirmar seu poder. A “crise” que o Flamengo auto-gerou na semana passada é um exemplo da anarquia que é a direção do clube permite, mas cuja responsabilidade joga no colo do técnico.

A campanha de 2009 dos três clubes começa em 9 de dezembro próximo, assim que se encerrar o Brasileiro. Aqueles clubes, entre Grêmio, Cruzeiro e Flamengo, que mantiverem os técnicos e comissões técnicas e lapidarem – não rifarem – seus elencos, se firmam como favoritos para o ano que vem. Os que demitirem ou, pior ainda, colocarem seus técnicos em fritura para se livrarem deles só depois do inevitável fracasso no patético Estadual, entram na luta por uma vaga na Sul-Americana 2010. Na melhor das hipóteses.

…e um para se demitir

Ao contrário dos seus pares que lutaram pelo título até as últimas rodadas, Vanderlei Luxemburgo é, de longe, o treinador que obteve o fracasso mais retumbante de 2008. Sim, ele mesmo, que foi capa recente de uma revista de futebol que o desenhava como o “arquiteto” do sucesso palmeirense – um sucesso que não virá.

Luxemburgo teve mais dinheiro para contratações do que São Paulo, Grêmio e Cruzeiro juntos. Até o Flamengo poderia entrar na soma se não tivesse torrefado dinheiro ensandecidamente para levar Josiel e Marcelinho Paraíba (além de Sambueza e Vandinho) na crise pós-saída de Marcinho e Souza. Assim mesmo, Luxemburgo – enterrando a máxima de que ele é excepcional quando tem as contratações que quer – fracassou.

Perdido o título, Luxemburgo começou a falar que o plano “era de longo prazo”. Não cola. A Traffic investe no Palmeiras para vender jogadores e atletas que acabaram em quarto lugar são infinitamente menos vendáveis do que os campeões.

O fracasso do Palmeiras de Luxemburgo é a nota negativa do Brasileiro 2009. Nem o Vasco rebaixado surpreende tanto. Depois de décadas de devastação financeira, sabia-se que o clube cruzmaltino teria de pagar a conta em algum momento. Do Palmeiras, esperava-se o título, com futebol vistoso e com folga. Nenhum dos dois veio.

A gestão dos times de Luxa nos anos recentes inclui uma série de contratações duvidosas, arriscadas e às vezes, nebulosas, cujo risco ele assumia com a inegável capacidade que tem como técnico. Neste ano, a maionese desandou e não é difícil encontrar o que deu errado. Roque Júnior, Gladstone, Jéci, Jumar, Lenny e Jorge Preá poderiam fazer parte de um elenco forte, compondo o time reserva nos treinos. Só que, pelo contrário, em muitas partidas, quando Luxemburgo precisava de um ás na manga no banco, ele tinha Denilson que, em nenhum momento, foi o jogador recuperado que parte da mídia apregoou.

O técnico já disse, para quem quiser ouvir, que deixará o Palmeiras e a agressão dos torcedores é a causa, segundo ele. Na verdade, a agressão sofrida por ele pode até ser útil para que ele “escolha deixar” o Parque Antártica e possa evitar uma demissão. Seu rendimento neste ano certamente merece uma.

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