A Inter de Milão é um clube de muitos paradoxos. Imensa em sua história, vivencia episódios dignos de time de várzea na sua gestão; gigante na torcida, não raro vê os problemas vindos da arquibancada; cheia de craques, acaba sendo salva por jogadores comuns com uma periodicidade maior do que a previsível.

A temporada interista que se encerrou guarda dentro de si alguns paradoxos similares. Certamente a campeã tinha um elenco muito mais concreto do que qualquer rival, mas freqüentemente foi superada por times mais coesos. A Inter teve uma vantagem (11 pontos) que na mão de qualquer clube grande significaria um titulo com folga, mas ele só foi assegurado na última rodada e graças aos lampejos geniais de Ibrahimovic. Sem ninguém para feri-la, a Inter feria a si mesma, como na demissão anunciada (e depois renunciada) de seu técnico ou na troca de farpas entre vários de seus jogadores.

Ainda que de forma insegura, a Inter foi campeã liderando 34 rodadas do torneio e isso não pode ser esquecido. Se os dois títulos anteriores tiravam mumunhas dos rivais, que alegavam (justamente) desigualdade de condições, neste ano, a Inter venceu dentro de campo. Sim, contra um Milan dizimado por lesões, uma Juventus convalescente da Série B e uma Roma com um elenco enxuto demais. Mas as explicações não ficam para a posteridade e o titulo sim.
A temporada

É difícil explicar a razão pela qual a Inter dominou tanto mas gerou tanta incerteza sem se referir ao ambiente no clube. Olhando a tabela, a Inter sempre teve a faca e o queijo na mão, mas com uma lupa, não foi bem assim. Depois de um começo arrasador – onde as acusações de favorecimento arbitral não faltaram – a Interpatinou muito e só não perdeu terreno porque os rivais patinaram mais. Em tese, a LC deveria drenar forças da Inter e sem ela seu futebol deveria melhorar, mas o que aconteceu foi o oposto. A eliminação para o Liverpool eclodiu uma crise no grupo que ainda não foi resolvida. E se a Roma – única rival real pelo titulo – perdia pontos contra Livorno e Siena, a Inter perdia menos, graças ao subestimado Julio Cruz e às proezas de um Ibrahimovic com metade da capacidade. Se tivesse mantido o ritmo do começo da temporada, a Inter teria sido campeã com 12 rodadas de antecipação. Mas mesmo com os percalços, jamais dependeu de outro time.

A tática

Taticamente a Inter não mudou da temporada passada para esta. O 4-3-1-2 com Zanetti, Vieira e Cambiasso mais Stankovic de ‘trequartista’ não foi a descoberta da pólvora, mas funcionou bem sempre que havia substitutos à altura. O meio-campo robusto permitia avanços constantes dos laterais (Maicon, em especial) e Ibrahimovic fez chover enquanto o joelho deixou – alem, claro da última rodada.

O técnico

Certamente a temporada que se fechou foi a pior e a melhor para Roberto Mancini. Sua Inter devastadora das primeiras rodadas estava tão azeitada que ele facilitou: criou caso com jogadores influentes (Adriano, Figo) e com o presidente do clube. E depois que o elenco se irritou com ele, a Inter jamais esteve estável.

Anunciou sua saída depois da eliminação na LC certo de que conseguiria levar a Inter ao tricampeonato com facilidade, mas teve de voltar atrás por pressão de Massimo Moratti. Errou mais do que acertou em termos de apostas, mas foi corajoso para não jogar no jovem Balotelli a responsabilidade de carregar o time nas costas quando Ibra se machucou. A briga com o medico da nter também não o ajudou – na reta final do campeonato, tinha oito machucados na enfermaria.

O elenco

De longe, o porto seguro da Inter na temporada. Sem o elenco vasto e estelar que tem, a Inter teria sido presa fácil para Roma e Juventus. O excesso de jogadores em todas as posições acabou sendo utilíssimo quando a lesões se multiplicaram (imagine que Córdoba, Samuel e Materazzi estiveram lesionados por boa parte do torneio).

Além do numero grande, a Inter também teve a sorte de revelar um jogador como o atacante Balotelli, que aparentemente, é mais do que uma brisa de verão. Mancini usou o garoto a conta-gotas, mesmo precisando muito de atacantes, mas fazendo isso, poupou-o de cobranças prematuras. Em poucas palavras, a Inter venceu o ‘scudetto’ com a superioridade do seu elenco.

A estrela

Ele não jogou a temporada toda, mas quando jogou, resolveu. “Voi parlate, io gioco” (“vocês falam, eu jogo”), disse, desafiante, o sueco Ibrahimovic, ao final da temporada. Em forma, não tem rivais na Inter e na sua posição, na Itália. ‘Ibra’ entrou em campo para decidir o campeonato, contra o Parma e se estivesse ok, poderia ter levado a Inter mais longe na LC. Seu único débito é mesmo na competição continental. A sua consagração passa pelos campos da Uefa.

O nome chave

‘Ibra’ pode ter sido a estrela do time, mas a máquina de jogar do clube foi o argentino Cambiasso. Fortíssimo como volante e excepcional armador, o volante foi o pivô do jogo interista enquanto não esteve lesionado. Se a Inter conseguia jogar com dois atacantes mais um armador e com laterais ofensivos, o crédito deve ser quase todo dado a ele. Sua saída de graça do Real Madrid exemplifica bem como o clube espanhol entende mais de marketing do que de futebol. Fundamental para a Inter, é o cerne do jogo do time.

Os problemas

Todos os reveses da Inter nesta temporada – assim como em outras – foram criados internamente. A briga de Mancini com o medico do clube, a expulsão tola de Materazzi contra o Liverpool, a indisposição de Figo com o treinador, as intervenções pouco sutis do presidente Moratti…tudo de ruim na casa interista começou do lado de dentro. A herança ainda não se fez sentir: o grupo campeão é rachado (em mais de dois grupos), o treinador não tem mais o respeito que já teve e alguns jogadores (como Luis Figo e Adriano) são mimados por Moratti deixando colegas irritados. As férias vindouras são um período  no qual a diretoria tem de fazer escolhas e muitas delas são difíceis e ásperas. Não fazer nada será pior.

A perspectiva

Um time que ganhou três campeonatos em seguida não pode ter perspectivas nefastas. A Inter tem um bom grupo, com uma idade razoável (cerca de 28 anos), experiência e dinheiro. O sonho é vencer a Liga dos Campeões, mas a quantidade de pretendentes ansiosos na próxima temporada é grande (Bayern, Real Madrid, Barcelona, Juventus, Lyon, Arsenal, Chelsea). Em termos de competição, a meta é essa. Para se chegar a ela, no entanto só se voltar a ter a paz de espírito que faltou na reta final da Série A. Nem ‘Ibra’ vai salvar sempre que a Inter se enrascar.

Curtas

– Esta é a seleção Trivela deste Campeonato Italiano:

– Doni (Roma); Mexès (Roma), Legrottaglie (Juventus) e Maggio (Sampdoria); Maicon (Inter), Konko (Genoa), Hamsik (Napoli), Cambiasso (Inter), Vargas (Catania); Del Piero (Juventus), Borriello (Genoa)