Uma lesão no tendão patelar do joelho não é simples nem comum. Esse tendão é extremamente forte e responsável por manter o corpo em pé. Com a lesão, o paciente não consegue manter a perna esticada. Ronaldo, um dos maiores jogadores da história recente, é um caso único de jogador “world class” que sofreu essa lesão nos dois joelhos. Justamente por isso, o que mais se ouviu na imprensa na última semana foi um veredicto de como a carreira de Ronaldo acabou.

Mas notemos o curioso: não foram ortopedistas renomados que deram esse parecer. Para ser preciso, alguns deles, ávidos por exposição na mídia até se prestaram a ir a emissoras de TV e rádio, rasgando o código de ética, avaliando um paciente sem examiná-lo. Mas quem se esbaldou mesmo foram “jornalistas”, assim mesmo, entre aspas, que quando muito, não conseguem escrever sem erros de português. Imagine então qual é a competência deles ao delimitar as chances de Ronaldo retomar a sua carreira de jogador.

Sim, Ronaldo sofreu uma lesão extremamente séria e a sua continuidade no esporte está em risco. Entretanto, o único profissional que podia positivamente avalia-lo, o ortopedista francês Gerard Saillant, não deu nenhum parecer catastrófico, limitando-se a admitir que a recuperação de Ronaldo será bastante difícil.

A contusão que o atacante milanista sofreu mostrou a posição ambígua da mídia e imprensa em relação a ele. Ronaldo foi o mais decantado craque brasileiro na vitória do Brasil na Copa de 2002 – e o mais achincalhado na eliminação brasileira em 2006. Agora, sente-se nitidamente quase que uma torcida de alguns pela sua nao-recuperação, até para que os que disseram que Ronaldo estava acabado em 2000 vejam agora sua profecia dar certo. Claro, embora ninguém admita.

O que se pode atestar na prática sobre o jogador é que ele vai ter de mostrar a sua fibra se quiser voltar a jogar. Tendo conquistado tudo – ou quase tudo – Ronaldo é um milionário famoso e não precisa de mais um centavo do futebol para continuar rico pelo resto da vida. Essa eventual falta de estímulo é muito mais difícil de superar do que a lesão no joelho.

Ronaldo voltará a ser o jogador que já foi? Impossível dizer. Segundo Saillant, a recuperação é totalmente possível. Ele tem 31 anos e não mais os 24 que tinha em 2000. Mas como bem lembrou o médico, nestes oito anos, as técnicas cirúrgicas também avançaram muito. Para não incorrer no erro dos palpiteiros de plantão, uma avaliação serena é a seguinte: as chances de Ronaldo voltar a jogar estão ligadas à sua vontade de tentar vencer uma Copa dos Campeões ou uma Libertadores. Sim, porque Ronaldo só volta a jogar se estiver disposto a voltar a treinar com um afinco sobre-humano. Nesse caso, ele tem chances – conforme o parecer de Saillant, único profissional capaz de dar uma opinião. Se ele terá ou não essa vontade, só ele poderá dizer. Ou melhor: mostrar, porque quando ele dizia isso em 2000, ninguém acreditava. Não há razões para que os pessimistas passem a acreditar agora.

Sem Ronaldo e…sem goleiro!

A queda de Ronaldo parece ter desenhado muito claramente o modo como o Milan deve se preparar para o restante da temporada. O setor ofensivo do time agora terá Inzaghi como principal jogador, seguido por Pato e Gilardino, com um improvável Paloschi correndo por fora. Dificilmente alguém poderia apostar nisso há seis meses, mas é isso o que está aí.

Também em relação à próxima temporada, a lesão de Ronaldo empurra o Milan rumo a mais chances para Gilardino – bastante desacreditado nesta temporada – e Pato, um craque ainda inconstante para ser definido como titular absoluto.

Na ótica 2008/09, Inzaghi não pode ser considerado como primeiro atacante, visto que encerrará a temporada que vem com 35 anos. Paloschi? O mais provável é que o Milan lhe encontre uma destinação que garanta um ano de titular ao invés da incerteza de todo um ano ‘rossonero’.

Só que na mesma semana, o Milan também se viu sem goleiro. Dida sentiu uma curiosa contusão na coluna e Kalac, que tem jogado muito bem nas últimas semanas, luxou um dedo exatamente na semana do jogo contra o Arsenal pela LC. A escassez no gol deve ter feito o clube voltar a pensar nas razões que puderam fazer crer que a posição estivesse coberta.

A mais belo dérbi da Itália

Juve x Torino, Roma x Lazio, Milan x Inter. Todos os dérbis na Itália são, como em qualquer lugar do mundo, partidas de um brilho diferente, que valem tudo mesmo quando não valem nada. Mas nenhum confronto ‘stracittadino’ é tão legal quando o de Gênova.

Neste domingo, Genoa e Sampdoria se encontraram mais um ‘Derby della Lanterna’ (nome dado por causa do farol portuário da cidade, conhecido como Torre Della Lanterna) e o jogo foi como sempre. Nervosíssimo, com as duas torcidas empurrando muito os times e dando à Série A uma atmosfera tipicamente britânica, cortesia da ‘cara’ do estádio Luigi Ferraris.

A Sampdoria pode estar tendo uma temporada irregular – assim como o Genoa – mas em casa, o time ‘blucerchiato’ é espetacular, não só em termos de resultado (em 11 jogos, foram sete vitórias e três empates), mas principalmente de jogo. A Samp usa muito a atmosfera de seu campo e eventualmente torna-se excelente.

Walter Mazzarri, o técnico da Sampdoria, teve um começo de campanha meio titubeante, mas sua mão já começa a se fazer clara. Sua Samp joga com um 3-5-2 peculiar, porque usa somente um zagueiro central (o ex-milanista Sala) na defesa.

Os externos defensivos Accardi e Campagnaro são laterais e não raro descem à linha de fundo. Mazzarri pode fazer isso por causa de um trio de volantes muito sólido – Delvecchio,Volpi e Palombo. Nesse trio é que está a fonte do jogo fluido da Samp, já que todos os três são muito hábeis.

E no domingo, o talento-problema Cassano foi um show à parte. Ele continua irascível e cabeça-dura, mas a sua jogada no gol sampdoriano foi digna de placa. Ele se livrou de uma marcação tripla e serviu Maggio na medida para arrematar. O goleiro Rubinho até fez boa defesa, mas o rebote caiu novamente em Maggio.

Mas a maior virtude desse dérbi foi fora de campo. Ainda que a rivalidade na Ligúria seja fortíssima, a casa lotada não teve nenhuma violência. Os genoanos perderam com honra e os dois times foram corretos. Eis um ótimo exemplo para Roma e Milão, que comumente causam vexames.

Série B

Dois times que tem muito a agregar à Série A dão sinais claros de que subirão da Série B na próxima temporada. Um corretíssimo Bologna, dirigido por Daniele Arrigoni e um vivaz Chievo já se destacaram dos outros concorrentes e deixam a briga pela última vaga nas mãos de Lecce, Albinoleffe e Pisa, alem do Brescia que está um pouquinho atrás.

– Depois da contusão de Ronaldo, a Nike teria sugerido aos seus patrocinados que comemorassem seus gols com o gesto que o brasileiro faz com as mãos depois de balançar as redes.

– Final de temporada para Nicola Pozzi, do Empoli. O jogador, que marcou sete vezes na Série A, rompeu os ligamentos do joelho direito e fica seis meses parado.

– Balotelli, atacante-sensação interista, agradeceu mas recusou a convocação de Gana. Quer esperar a chamada da Itália, já que terá o passaporte em agosto, quando completa 18 anos.

– O brasileiro Amauri está a venda. Para o presidente do Palermo, ele vale €25 milhões.

– O clube recusou proposta do Chelsea de €15 milhões em janeiro.

– A lega Calcio pretende fazer a Série A com jogos todos em horários diferentes na próxima temporada para favorecer a TV – e a chiedeira dos torcedores é grande.

– Esta é a seleção Trivela da 23a rodada:

– Sereni (Torino); Falcone (Parma), Nesta (Milan) e Modesto (Reggina); Kuzmanovic (Fiorentina), Jarolim (Siena) Giovinco (Empoli) e Mutu (Fiorentina); Cassano (Sampdoria), Suazo (Inter) e Del Piero (Juventus)