Mês: fevereiro 2008

Apresentação da temporada – parte V

Football Club Internazionale Milano
Estádio: Giuseppe Meazza “San Siro” (85.700 pessoas)
Principal jogador: Zlatan Ibrahimovic (atacante)
Fique de olho: Mario Balotelli (atacante)
Competição continental que disputa: Liga dos Campeões
Time base (4-2-3-1, 26/08): Julio Cesar; Maicon, Samuel, Chivu e Maxwell; J. Zanetti e Cambiasso; Figo, Muntari e Mancini; Ibrahimovic.
Técnico: José Mourinho (novo)
Objetivo na temporada: vencer a Liga dos Campeões

Contestado ou não, o tricampeonato italiano da Inter é o que determina a fixação dos objetivos do clube para esta temporada. Depois de conquistar a liga nacional por três anos, somente um sucesso na competição mais importante da Europa pode dar a sensação de uma boa temporada. Qualquer outra coisa é fracasso.

A cobrança espartana só aumenta com a contratação de José Mourinho, provavelmente o melhor técnico do mundo hoje. Ele mesmo perseguiu, no Chelsea, a taça que venceu com o Porto, mas não a conseguiu. Com um time entrosado, reforços mirados e a condição de “time que todos querem odiar” será que o lado ‘nerazzurro’ de Milão pode chegar ao final de maio próximo festejando?

Condições existem. A Inter tem um técnico que prioriza o sistema defensivo antes de tudo e essa boas defesas são a condição básica para vencer campeonatos. Nomes como Samuel e Chivu devem ser o suficiente para dar estabilidade ao time e no ataque, o sueco Ibrahimovic é a esperança de um setor ofensivo montado para fazer muitos gols.

Mourinho chegou na Itália fazendo inimizades (vide seu atrito com Claudio Ranieri) e precisa perceber que as relações interpessoais na Itália podem definir o futuro de um profissional – mesmo que extremamente competente. Outro desafio será o de fazer conviver dois atacantes natos como “Ibra” e o brasileiro Adriano. Com um pouco de sorte para evitar contusões e a carta branca que lhe foi dada pelo dono do clube, Mourinho tem como tirar a Inter do jejum europeu de 43 anos.
Associacione Sportiva Roma
Estádio: Olímpico de Roma (82.222 pessoas)
Principal jogador: Francesco Totti (meia-atacante)
Fique de olho: Stefanop Chuka Okaka (atacante)
Competição continental que disputa: Liga dos Campeões
Time base (4-2-3-1, 26/08): Doni; Panucci, Juan, Mèxès e Riise; De Rossi e Pizarro; Taddei, Julio Baptista e Perrotta; Totti.
Técnico: Luciano Spaletti (mantido)
Objetivo na temporada: vencer o campeonato

Mesmo que com rumores da venda do clube cercando a tranqüilidade do elenco, a Roma parte com uma vantagem sobre a maioria de seus rivais domésticos: o entrosamento. O clube de Trigoria tem basicamente o mesmo time há três temporadas e nem a saída de um nome importante como Mancini tende a diminuir a capacidade da equipe de Francesco Totti.

Spaletti criou uma equipe rápida e ofensiva, muito técnica, que prefere jogar com o baricentro alto (ou seja, com a posse de bola pressionando o adversário em seu campo). Uma dupla de medianos que marcam e passam bem (De Rossi e Pizarro) é a condição básica para o 4-2-3-1 romanista. O esquema nasceu da necessidade de se jogar para Totti e até o último campeonato, isso era um problema que o uso do montenegrino Vucinic parece ter resolvido.

O norueguês Riise na lateral-esquerda deve dar ainda mais solidez a uma defesa que na prática joga com quatro zagueiros. No extremo oposto, somente Perrotta tem características mais de meio-campista, com Júlio Baptista (finalmente escalado na sua posição predileta), Taddei e Totti (ou Vucinic) alternando-se no papel de último atacante.

Contratações como as do defensor Loría e a integração de Okaka ao elenco aumentam as opções do técnico Spaletti, mas não deixam o elenco largo o suficiente para a Roma lutar de igual para igual com o trio de ferro italiano. Pensar em LC e Série A não é viável. Se quiser vencer algum dos dois, a Roma terá de fazer uma escolha. E ainda assim, não terá vida fácil.

Juventus Football Club
Estádio: Olímpico de Turim (25.370 pessoas)
Principal jogador: Gianluigi Buffon (goleiro)
Fique de olho: Paolo De Ceglie (defensor)
Competição continental que disputa: Liga dos Campeões

Time base (4-4-2, 26/08): Buffon; Grygera, Mellberg (Legrottaglie), Chiellini e Molinaro (De Ceglie); Camoranesi, C. Zanetti (Poulsen), Sissoko e Nedved; Del Piero (Amauri) e Trezeguet (Iaquinta)
Técnico: Claudio Ranieri (mantido)
Objetivo na temporada: vencer o campeonato

Associazione Calcio Fiorentina
Estádio: Artemio Franchi (47.282 pessoas)
Principal jogador: Adrian Mutu (atacante)
Fique de olho: Zdravko Kuzmanovic (meio-campista)
Competição continental que disputa: Liga dos Campeões

Time-base (4-3-1-2, 26/08): Frey; Zauri, Gamberini, Kroldrup e Vargas; Kuzmanovic, Felipe Melo e Montolivo; Jovetic; Mutu e Gilardino.
Técnico: Cesare Prandelli (mantido)
Objetivo na temporada: vaga na Liga dos Campeões

A ativa comunidade de torcedores da Fiorentina há de se irritar, mas o fato é que o clube toscano começa sua temporada com uma meta fixa: se classificar novamente para a LC. “Mas como? E o título?”. Calma com o andor. A Fiorentina pode até ser campeã, mas começa a liga correndo por fora. E a avaliação é do insuspeito técnico do time, o excelente Cesare Prandelli.

Por mais que tenha se reforçado com ótimas promessas, a Fiorentina não tem ainda os nomes que decidem campeonatos. Mutu é um ótimo jogador, mas não é um Kaká nem um Ibrahimovic. E os muitos Montolivos, Jovetics e Osvaldos do elenco ainda precisam amadurecer para dar consistência a um time que quer ser campeão.

O time deste ano deve ser melhor que o anterior. Prandelli garantiu dois externos defensivos melhores (Zauri e Vargas), um ‘trequartista’ de imenso potencial (Jovetic) e aposta na recuperação de Gilardino, que nas suas mãos, já foi um atacante letal. Além disso, o técnico torce para que o brasileiro Felipe Melo tenha a capacidade de dar a segurança necessária á sua defesa.

Assim como a Roma, a equipe “viola” é de altíssima qualidade, mas não tem substitutos que mantenham o nível do elenco titular. O grupo é grande demais e tem muitas promessas que precisam de rodagem, mas que no ‘Franchi’ ficam sem ritmo de jogo. O clube chegou no difícil momento de trocar de estágio e precisa de craques. Promessas já não adiantam mais.

Despedida

Depois do meu amigo e sócio Tomaz Alves, chegou a hora de eu me despedir da Trivela também.
Dez anos depois, o laboratório de texto dos alunos da ECA-USP virou uma publicação sólida e chegou a hora de me despedir agradecendo a todos os leitores, colegas, críticos. Obrigado a todos.

Sucesso antipático

Na Itália, se diz que os ‘tifosi’ (‘torcedores’, em italiano) do país se dividem em duas categorias: os juventinos e os anti-Juventus. A antipatia generalizada que a ‘Vecchia Signora’ desperta é o preço que ela pagou por tantos anos de conquistas e sucessos que de vez em quando também contaram com a ajuda da arbitragem. Só que o que acontece quando o time mais odiado do país é rebaixado e volta à divisão de elite visivelmente redimensionado? Bem, é necessário arrumar alguém mais para odiar. Sempre é.

O trono da antipatia juventina na Série A foi herdado por quem agora está vencendo. E quem está vencendo é a Inter. A rumo de um tricampeonato (mesmo que com um título ganho no tapetão e outro sem a Juventus) que não acontece na Itália desde 1994 e só ocorreu em seis ocasiões na história, a Inter é o alvo da antipatia e das reclamações de todo mundo.

Certamente não ajudou a imagem interista uma entrevista dada pelo técnico Roberto Mancini na qual o técnico admitiu ser arrogante, criticou quem questiona a lisura das arbitragens, disse que jogava tanto quanto Ibrahimovic joga hoje, mas que não teve sucesso na ‘Azzurra’ porque não jogava no Milan. Entre outros.

A superioridade interista certamente não deve ser questionada pelos erros de arbitragem. O time de Mancini é muito mais sólido do que qualquer outro concorrente e mesmo na temporada que vem o pretendente ao título terá de suar sangue para tirar a diferença técnica em relação aos interistas.

Contudo, Mancini negar os erros de arbitragem só solidificam a sua imagem de arrogante (“Se sou arrogante? Sou, porque não tenho medo de incomodar ninguém”). A Inter vence e só isso já seria o suficiente para fazer dela o time a ser odiado. Mais ainda com erros incontestáveis que aconteceram em pelo menos oito jogos deste campeonato.

Um sinal sólido de que a arbitragem tem ajudado (ainda que involuntariamente) o time de Appiano Gentile é a quantidade de críticos de diferentes frontes. Curiosamente, o único time que aparentemente não aponta o dedo para os campeões é o rival Milan. Isso, entretanto, se deve muito mais à distância quilométrica entre os dois times na tabela do que propriamente a um juízo de valor.

Depois de um longo jejum de quase vinte anos sem usar o ‘tricolore’ no peito, a Inter se desabituou á condição de clube realmente grande. Os troféus vêm acompanhados de inimizades, inveja, críticas e ironia por parte dos rivais. As reclamações seguidas da líder ainda são mostras de um grupo que não se habituou ao sucesso, porque as acusações e pauladas são parte do pacote de quem vence mais.

Ladrão que rouba ladrão…

Quem poderia ptofetizar há alguns anos que a Juventus terminaria uma partida contra em Reggio Calábria berrando apopleticamente contra os erros de arbitragem que lhe custaram a derrota diante da gigantesca…Reggina?

Mas é isso mesmo. A Juventus se sente prejudicada pelos árbitros e chega a dizer que eles ainda estão apitando sob a égide do escândalo do ‘Calciocaos’. “Não podemos continuar pagando por algo que já nos custou uma severa punição”, declarou o sério presidente do clube, Giovanni Cobolli Gigli. “Que amargura. Estes episódios são a ponta de um iceberg”, bateu o técnico Claudio Ranieri, sugerindo que algo ‘maior’ está movendo a influência sobre a arbitragem.

O “iceberg” naturalmente seria um complô para dar o troféu à Inter e os “episódios” aos quais o treinador se refere são quatro lances de pênalti: um, marcado, contra a Juventus e três, não marcados, a favor dos piemonteses. Em pelo menos um deles, um lance sobre o malinês Sissokho, a Juventus tinha direito de chiar.

Acreditar em uma Inter malévola que articula o poder para garantir mais um título é um tanto quanto infantil – embora de, depois do ‘Calciocaos’, seja possível desconfiar até de uma ovelha. A Juventus tem sido prejudicada por erros de arbitragem, sim, mas o transtorno em via Galileo Ferraris é muito mais causado por uma indignação de quem jamais tinha passado pelo papel de vítima antes. Para as outras torcidas italianas, os erros contra a Juve são até mesmo merecidos. Afinal, ladrão que rouba ladrão…

O pós-Ronaldo do Milan

Parece fora de qualquer dúvida que o Milan não terá Ronaldo por pelo menos a maioria da próxima temporada – isso na melhor hipótese. Assim, com um Inzaghi beirando os 35 anos, um Gilardino ainda inseguro e um Pato adolescente, o Milan já abriu as cartas e deixou claro: em junho, o clube contratará um atacante de peso.

Tirando as piadinhas de que atacante de peso era Ronaldo, a direção ‘rossonera’ sabe que terá de abrir o bolso para poder levar um nome famoso a San Siro, coisa que não tem acontecido nos últimos anos. Sim, Ronaldo foi uma contratação megafamosa, mas veio a um custo baixo por causa das lesões e idade. Desta vez, os cofres de via Turati terão de buscar um jogador relativamente jovem e que possa ficar em Milanello por muitos anos, como é a política do Milan.

A última dessas contratações foi Alberto Gilardino, que aportou em Milão com 24 anos, por €24 milhões. Sim, o Milan levou Pato à Lombardia, mas mesmo que por uma cifra quase igual à de ‘Gila’, ainda era considerado uma aposta. Se ele está ganhando seu espaço, é porque demonstrou uma maturidade maior do que a normal.

Alguns jogadores já são dados como ‘preferenciais’ numa possível contratação pelo Milan porque têm o perfil desejado por Carlo Ancelotti e porque são ‘cortejados’ de alguma forma pelo clube há tempos. Além do Ronaldinho, que não é mais para o Barcelona o que já foi um dia, o também brasileiro Amauri, do Palermo e Didier Drogba, do Chelsea, surgem na pole-position, por causa da combinação eficiência-idade-experiência internacional-qualidade.

Como soluções ‘alternativas’, estariam o jovem francês Benzema, do Lyon, (20 anos, avaliado em cerca de €50 milhões), o ucraniano Shevchenko (herói milanista que está no Chelsea) e o togolês Adebayor, do Arsenal. Contra o primeiro, pesa a pouca idade e o preço irreal (com Pato e Gilardino, seria conveniente outro atacante experiente); contra o segundo, a exigência que o Chelsea faria para liberá-lo e uma certa oposição de parte da torcida (que acha que ele “traiu” o clube ao ir para Londres); contra o terceiro, pesa a suspeita sobre a sua capacidade de carregar um ataque do porte do milanista.

A contratação de um quarto atacante faria com que a revelação Paloschi fosse emprestado para um time menor, para ganhar experiência. O ‘prata-da-casa’ é visto com grande entusiasmo em Milão, mas há um receio em “queimá-lo” com as pressões que pairam sobre o ataque do clube.

Além da questão do atacante (cuja contratação já é dada como certa mesmo por Adriano Galliani, vice-presidente do clube), há uma expectativa quanto à chegada de um ou dois defensores e um goleiro. O mítico Maldini pendurará as chuteiras e não existe exatamente uma grande segurança em torno de nomes como Simic e Bonera. Além disso, Cafu e Serginho também têm seu futuro nebuloso. No gol, Dida e Kalac parecem uma aposta arriscada para um time de proporções mundiais. Só que a dupla já parecia uma aposta perigosa no fim do campeonato passado, e nem assim o clube ‘rossonero’ resolveu abrir o cofre.

Jornalismo

Depois da coluna da última semana, na qual eu escrevi sobre a leviandade de parte da imprensa esportiva na “avaliação” da situação física de Ronaldo, naturalmente, recebi diversos e-mails com questionamentos do tipo: “Aí, seu trouxa! E agora que o Ronaldo mesmo disse que pode parar? Quem é que estava exagerando? Heeeeeeeeein?”

Aos zebus que, num rompante de necessidade de se comunicar, me enviaram mensagens menos educadas, simplesmente ofereço a vastidão do vazio no qual suas próprias vidas estão inseridas. Contudo, achei que deveria tocar no assunto e esclarecer minha posição em apreço a internautas mais civilizados e articulados.

Não, não acho que eu estava exagerando quando disse que os pseudo-jornalistas que especulavam sobre o futuro de Ronaldo estavam sendo levianos. Eles não tinham instrução (continuam não tendo), recursos nem informação para avaliar o que teria acontecido com o joelho de um paciente que estava incomunicável em outro continente. Eles tinham direito a uma opinião? Certamente. Assim como qualquer pessoa do planeta, especialmente as que sentavam-se ao redor de mesas, diante de garrafas de cerveja, em botecos, em papos descontraídos.

Como já disse uma vez o jornalista Joelmir Beting, o jornalista tem uma preferência por fazer previsões catastróficas, porque quando ele acerta, posa de profeta, mas quando erra, vê seu palpite passar batido. O caso de Ronaldo é um ótimo exemplo. Cravar que Ronaldo encerraria a carreira horas depois da lesão era uma ótima maneira de fazer sensacionalismo, especialmente se adicionando informações mentirosas ou coletadas na Internet como “fontes de dentro do Milan”. Dá audiência e de um modo geral, dá uma sensação de que o jornalista está fazendo seu trabalho.

O único modo que alguém, ao meu ver, poderia ter feito uma avaliação que vai além do ‘achismo’ imbecil ou do palpite típico dos botequins, seria um jornalista ter conseguido uma declaração de um dos médicos do Milan, que tinham examinado Ronaldo. Isso não aconteceu – e por consequência sigo certo de que a acusação de leviandade era pertinente.

Hoje, todos sabemos que realmente Ronaldo teve uma lesão seríssima e que pode encerrar sua carreira, porque ouvimos a informação de sua boca – uma das poucas pessoas aptas a dar um parecer sem sede de exposição, sensacionalismo ou irresponsabilidade. Será uma pena. Talvez eu achasse a especulação um exercício interessante se a Trivela fosse um site de apostas ou o pregão de uma bolsa de valores, mas não é o caso. Logo, dando uma adaptada na frase de Catão, “Delenda Est Decipio”.

Curtas

A vaga da Fiorentina na LC parece cada vez mais distante mesmo.

Além de ter sido ultrapassada pelo Milan na tabela, a equipe toscana perdeu Mutu por pelo menos um mês.

Sem o romeno, Prandelli perde o único homem em condições de tirar ‘coelhos da cartola’.

O romanista Ferrari não fica em Roma para a próxima temporada e todo mundo dá como certa sua passagem ao Milan.

Depois da derrota para o Cagliari, a Lazio sofreu vaias no CT de Formello.

É impressionante o futebol que Cassano está voltando a jogar.

Com a cabeça no lugar, o barese realmente tem talento para dar e vender.

E esta é a seleção da 24a rodada segundo a DataTrivela:

Storari (Cagliari); Maggio (Sampdoria), Gamberini (Fiorentina), Agostini (Cagliari) e Buscé (Empoli); Kuzmanovic (Fiorentina), Hamsik (Napoli) e Bresciano (Palermo); Giovinco (Empoli); Inzaghi (Milan) e Cassano (Sampdoria)

Ronaldo, herói trágico

Uma lesão no tendão patelar do joelho não é simples nem comum. Esse tendão é extremamente forte e responsável por manter o corpo em pé. Com a lesão, o paciente não consegue manter a perna esticada. Ronaldo, um dos maiores jogadores da história recente, é um caso único de jogador “world class” que sofreu essa lesão nos dois joelhos. Justamente por isso, o que mais se ouviu na imprensa na última semana foi um veredicto de como a carreira de Ronaldo acabou.

Mas notemos o curioso: não foram ortopedistas renomados que deram esse parecer. Para ser preciso, alguns deles, ávidos por exposição na mídia até se prestaram a ir a emissoras de TV e rádio, rasgando o código de ética, avaliando um paciente sem examiná-lo. Mas quem se esbaldou mesmo foram “jornalistas”, assim mesmo, entre aspas, que quando muito, não conseguem escrever sem erros de português. Imagine então qual é a competência deles ao delimitar as chances de Ronaldo retomar a sua carreira de jogador.

Sim, Ronaldo sofreu uma lesão extremamente séria e a sua continuidade no esporte está em risco. Entretanto, o único profissional que podia positivamente avalia-lo, o ortopedista francês Gerard Saillant, não deu nenhum parecer catastrófico, limitando-se a admitir que a recuperação de Ronaldo será bastante difícil.

A contusão que o atacante milanista sofreu mostrou a posição ambígua da mídia e imprensa em relação a ele. Ronaldo foi o mais decantado craque brasileiro na vitória do Brasil na Copa de 2002 – e o mais achincalhado na eliminação brasileira em 2006. Agora, sente-se nitidamente quase que uma torcida de alguns pela sua nao-recuperação, até para que os que disseram que Ronaldo estava acabado em 2000 vejam agora sua profecia dar certo. Claro, embora ninguém admita.

O que se pode atestar na prática sobre o jogador é que ele vai ter de mostrar a sua fibra se quiser voltar a jogar. Tendo conquistado tudo – ou quase tudo – Ronaldo é um milionário famoso e não precisa de mais um centavo do futebol para continuar rico pelo resto da vida. Essa eventual falta de estímulo é muito mais difícil de superar do que a lesão no joelho.

Ronaldo voltará a ser o jogador que já foi? Impossível dizer. Segundo Saillant, a recuperação é totalmente possível. Ele tem 31 anos e não mais os 24 que tinha em 2000. Mas como bem lembrou o médico, nestes oito anos, as técnicas cirúrgicas também avançaram muito. Para não incorrer no erro dos palpiteiros de plantão, uma avaliação serena é a seguinte: as chances de Ronaldo voltar a jogar estão ligadas à sua vontade de tentar vencer uma Copa dos Campeões ou uma Libertadores. Sim, porque Ronaldo só volta a jogar se estiver disposto a voltar a treinar com um afinco sobre-humano. Nesse caso, ele tem chances – conforme o parecer de Saillant, único profissional capaz de dar uma opinião. Se ele terá ou não essa vontade, só ele poderá dizer. Ou melhor: mostrar, porque quando ele dizia isso em 2000, ninguém acreditava. Não há razões para que os pessimistas passem a acreditar agora.

Sem Ronaldo e…sem goleiro!

A queda de Ronaldo parece ter desenhado muito claramente o modo como o Milan deve se preparar para o restante da temporada. O setor ofensivo do time agora terá Inzaghi como principal jogador, seguido por Pato e Gilardino, com um improvável Paloschi correndo por fora. Dificilmente alguém poderia apostar nisso há seis meses, mas é isso o que está aí.

Também em relação à próxima temporada, a lesão de Ronaldo empurra o Milan rumo a mais chances para Gilardino – bastante desacreditado nesta temporada – e Pato, um craque ainda inconstante para ser definido como titular absoluto.

Na ótica 2008/09, Inzaghi não pode ser considerado como primeiro atacante, visto que encerrará a temporada que vem com 35 anos. Paloschi? O mais provável é que o Milan lhe encontre uma destinação que garanta um ano de titular ao invés da incerteza de todo um ano ‘rossonero’.

Só que na mesma semana, o Milan também se viu sem goleiro. Dida sentiu uma curiosa contusão na coluna e Kalac, que tem jogado muito bem nas últimas semanas, luxou um dedo exatamente na semana do jogo contra o Arsenal pela LC. A escassez no gol deve ter feito o clube voltar a pensar nas razões que puderam fazer crer que a posição estivesse coberta.

A mais belo dérbi da Itália

Juve x Torino, Roma x Lazio, Milan x Inter. Todos os dérbis na Itália são, como em qualquer lugar do mundo, partidas de um brilho diferente, que valem tudo mesmo quando não valem nada. Mas nenhum confronto ‘stracittadino’ é tão legal quando o de Gênova.

Neste domingo, Genoa e Sampdoria se encontraram mais um ‘Derby della Lanterna’ (nome dado por causa do farol portuário da cidade, conhecido como Torre Della Lanterna) e o jogo foi como sempre. Nervosíssimo, com as duas torcidas empurrando muito os times e dando à Série A uma atmosfera tipicamente britânica, cortesia da ‘cara’ do estádio Luigi Ferraris.

A Sampdoria pode estar tendo uma temporada irregular – assim como o Genoa – mas em casa, o time ‘blucerchiato’ é espetacular, não só em termos de resultado (em 11 jogos, foram sete vitórias e três empates), mas principalmente de jogo. A Samp usa muito a atmosfera de seu campo e eventualmente torna-se excelente.

Walter Mazzarri, o técnico da Sampdoria, teve um começo de campanha meio titubeante, mas sua mão já começa a se fazer clara. Sua Samp joga com um 3-5-2 peculiar, porque usa somente um zagueiro central (o ex-milanista Sala) na defesa.

Os externos defensivos Accardi e Campagnaro são laterais e não raro descem à linha de fundo. Mazzarri pode fazer isso por causa de um trio de volantes muito sólido – Delvecchio,Volpi e Palombo. Nesse trio é que está a fonte do jogo fluido da Samp, já que todos os três são muito hábeis.

E no domingo, o talento-problema Cassano foi um show à parte. Ele continua irascível e cabeça-dura, mas a sua jogada no gol sampdoriano foi digna de placa. Ele se livrou de uma marcação tripla e serviu Maggio na medida para arrematar. O goleiro Rubinho até fez boa defesa, mas o rebote caiu novamente em Maggio.

Mas a maior virtude desse dérbi foi fora de campo. Ainda que a rivalidade na Ligúria seja fortíssima, a casa lotada não teve nenhuma violência. Os genoanos perderam com honra e os dois times foram corretos. Eis um ótimo exemplo para Roma e Milão, que comumente causam vexames.

Série B

Dois times que tem muito a agregar à Série A dão sinais claros de que subirão da Série B na próxima temporada. Um corretíssimo Bologna, dirigido por Daniele Arrigoni e um vivaz Chievo já se destacaram dos outros concorrentes e deixam a briga pela última vaga nas mãos de Lecce, Albinoleffe e Pisa, alem do Brescia que está um pouquinho atrás.

– Depois da contusão de Ronaldo, a Nike teria sugerido aos seus patrocinados que comemorassem seus gols com o gesto que o brasileiro faz com as mãos depois de balançar as redes.

– Final de temporada para Nicola Pozzi, do Empoli. O jogador, que marcou sete vezes na Série A, rompeu os ligamentos do joelho direito e fica seis meses parado.

– Balotelli, atacante-sensação interista, agradeceu mas recusou a convocação de Gana. Quer esperar a chamada da Itália, já que terá o passaporte em agosto, quando completa 18 anos.

– O brasileiro Amauri está a venda. Para o presidente do Palermo, ele vale €25 milhões.

– O clube recusou proposta do Chelsea de €15 milhões em janeiro.

– A lega Calcio pretende fazer a Série A com jogos todos em horários diferentes na próxima temporada para favorecer a TV – e a chiedeira dos torcedores é grande.

– Esta é a seleção Trivela da 23a rodada:

– Sereni (Torino); Falcone (Parma), Nesta (Milan) e Modesto (Reggina); Kuzmanovic (Fiorentina), Jarolim (Siena) Giovinco (Empoli) e Mutu (Fiorentina); Cassano (Sampdoria), Suazo (Inter) e Del Piero (Juventus)

Patoschi x Turbomario

Esqueça Kaká, Ronaldo e Seedorf. Esqueça também Ibrahimovic, Vieira e Cambiasso. Estes são os craques do passado. Milão agora está numa fase tão de renovação que a nova discussão já é para ver quem é o novo Pato. Tudo bem, é um exagero – mas não muito. A chegada explosiva do brasileiro ao Milan fez a imprensa italiana começar a debater qual dos dois lados da cidade tem o craque mais promissor.

Claro, a estréia de Alexandre Pato pelo Milan, fazendo um golaço contra o Napoli, é que começou a “disputa”. O ‘velho’ Pato, que completou 18 anos em setembro, é o símbolo do que o Milan não tem: uma divisão de base capaz de revelar craques. E um jogador tão novo num elenco cuja idade média beira os 30 anos caiu como uma luva para o clube.

Daí, a imprensa passou a dar atenção à ‘resposta’ interista a Pato. Mario “Turbomario” Balotelli ainda não tem 18 anos (faz aniversário em agosto). Filho de imigrantes ganeses e criado por uma família italiana, Balotelli estreou na Lumezzane em 2006 (então na terceira divisão, hoje na quarta) com 15 anos (um recorde), graças a uma autorização da federação. No mesmo ano, já foi levado à Inter por olheiros e em dezembro passado, estreou no time principal, contra o Cagliari. Duas ‘doppiettas’ contra Reggina e Juventus (pela Copa Itália) mostraram que o italianinho não estava para brincadeiras e o credenciaram como uma resposta à altura de Pato.

E eis que o Milan respondeu à resposta da Inter. Alberto Paloschi estreou pela Copa Itália e fez um gol na derrota para o Catania. Em fevereiro (já com 18 anos), estreou na Série A contra o Siena fazendo o gol decisivo na vitória sobre o Siena. Depois de o Milan vencer a Fiorentina com gol de Pato e o Siena com gol de Paloschi, o narrador Gianni Cerquetti, da RAI, cravou: “o Milan ganhou os últimos seis pontos graças a Patoschi”. Corrigido por um colega, o narrador reafirmou: “Não, Paloschi, não. Patoschi, a dupla”.

Na prática, o raro fenômeno de uma competição de promessas entre Inter e Milan ainda não tem uma conseqüência. Contudo, a empolgação das duas diretorias com as estréias de sucesso de jogadores tão novos podem estimular um maior investimento nas divisões de base dos clubes, especialmente o Milan, que ‘aposentou’ a divisão de base e raramente revela alguém, como atestou o capitão Maldini. “No Milan, a divisão de base foi esquecida”.

Quem é melhor? Bom, é até piada tentar dizer isso com jogadores que ainda mal completaram 18 anos. Pato é visivelmente mais experiente e aparentemente com mais lampejos geniais que os outros dois. Mas ‘Turbomario’ também impressionou, especialmente pelos dois gols sobre a Juventus. E Paloschi dá todos os sinais de um jogador à la Inzaghi, que não tem lances maravilhosos tecnicamente, mas tem um faro de gol notável.

Bem, todo este entusiasmo, devemos dizer, se dá depois de os três juntos terem menos de 30 partidas profissionais. Pato e Paloschi – aparentemente – têm um ambiente seguro para crescer, protegidos por craques experientes e um ambiente familiar e num elenco que carece de atacantes. Na Inter, Balotelli tem rivais pela posição (como Ibrahimovic e Crespo) e um ambiente mais instável. Talento, há. Se há suporte para tanto, o tempo dirá.

Perdeu, tomou!

Depois de quatro vitórias seguidas, a Fiorentina tinha uma sequência de dois jogos que nem soava assim tão mortal: Milan em casa e Atalanta em Bérgamo. Mas graças a um Pato em estado de graça e uma Atalanta azeitada e muito determinada, o clube toscano deve entrar na 23ª rodada na quarta posição, caso o Milan vença o Livorno. Por causa disso, toda a admiração que se tinha pela Fiorentina no começo do campeonato está indo por água abaixo e já há na Itália quem diga que o time é medíocre? Injustiça?

Sim, é injusto sim. É verdade que a Fiorentina contrata bastante e tem muitos jogadores que podem explodir nos próximos anos (Lupoli, Kuzmanovic, Montolivo, Osvaldo, Vanden Borre), mas tirando Adrian Mutu, a Fiorentina não tem jogadores que sejam craques, como um Kaká no Milan ou um Ibrahimovic na Inter. E isso faz a diferença. Por exemplo: no jogo contra o Milan, a Fiorentina não merecia a derrota e manteve o Milan controlado. Só que na hora de decidir, o Milan tinha Kaká e Pato e a Fiore não.

Além disso, apesar do time de Cesare Prandelli dar suas patinadas, o técnico está maturando quase todo um time de jovens promessas (como as citadas acima). Algumas delas, como o atacante Pazzini, já têm condições de enfrentar a Série A com todos os méritos.

As críticas excessivas fizeram o diretor de futebol do clube, Pantaleo Corvino, partir para o ataque: “Estamos colados na zona de classificação para a Liga dos Campeões contra clubes que têm uma vantagem imensa. Colocar tudo abaixo depois de dois resultados negativos não é um sinal de crescimento. Se alguém quer descer o pau, que desça em mim”, disse Corvino à Gazzetta Dello Sport.

– A Fiorentina já dá como certa a partida de Ujfalusi em junho, destino Liverpool.

– A renovação de contrato de Ronaldo com o Milan depende do departamento médico do clube. Inzaghi, Pato e Paloschi estão confirmados para 2008, enquanto Gilardino depende da permanência ou não do brasileiro.

– Esta é a Seleção Trivela para a 21a rodada da Série A:

– Buffon (Juventus); Diana (Torino), Siviglia (Lazio), Modesto (Reggina); Mancini (Roma), Delvecchio (Sampdoria), Cambiasso (Inter), Seedorf (Milan); Di Michele (Torino), Pazzini (Fiorentina) e Muslimovic (Atalanta)

Quitandinha Série A

Se você já é fã do futebol italiano há algum tempo, provavelmente não se espantou que Ronaldinho não foi para o Milan, que Gerrard não apareceu na Juventus nem que outro maioral qualquer não foi contratado pela Inter. É, depois do escândalo de 2006, o futebol italiano empobreceu em todos os sentidos – especialmente o financeiro. Virou uma mercearia. Ou uma quitanda,

Mas mesmo o torcedor menos exigente há de ter torcido o nariz para as contratações que os clubes italianos fizeram para a reta final do torneio. Se todos os elencos estivessem azeitadíssimos e estivesse sobrando futebol, ainda haveria uma desculpa. Mas este não era o caso.

Exceção feita à Juventus, que buscou dois ótimos nomes em Stendardo e Sissoko, todos os outros clubes ficaram observando. Ta a Inter contratou Maniche, mas não é que o português seja a reencarnação de Eusébio – e na verdade a Inter não está carente. Todos – sem exceção – os outros clubes poderiam ter feito retoques e não seria exagero.

O campeão da necessidade é o Milan, que manteve a política de ficar fiel aos “velhos” heróis. O inconveniente é que o time está muito mal na Série A (ao menos em termos de futebol) e se bobear pode ficar até sem o quarto posto e a respectiva vaga na Liga dos Campeões.

Entre os que não estão mal e até que fizeram um mercadinho razoável está a Lazio. O atacante Bianchi, o meia Dabo e os defensores Radu e Rozehnal devem agregar bastante, mas a Lazio não foi atrás da posição que mais a castigou no primeiro turno – o gol, onde o goleirossauro Balotta alterna atuações ótimas com vexames épicos.

O Napoli, já entre os times que tem ambições mais modestas, poderia ter gastado mais, mas fez contratações que prometem também em médio prazo. O volante Pazienza pode ser um excelente companheiro para Hamsik; o defensor Santacroce chega ao San Paolo cercado de boas recomendações e o goleiro Navarro, dos Argentinos Jrs. – ARG também era cotado para várias outras equipes.

Entre as boas assinaturas “esparsas” no ‘calcio’, estão a volta de Cristiano Lucarelli ao futebol italiano, com a camisa do Parma (que realmente precisa de um goleador nato), o defensor belga Vanden Borre, indo ao Genoa (na Fiorentina teve espaço zero) e Franco Brienza, na Reggina (que já estreou até fazendo gol).

Faltaram contratações que levassem à Bota nomes de peso no continente, ou ao menos craques em potencial, como o eslovaco Hamsik, por exemplo(que chegou ao Brescia há 18 meses sem nenhum alarde e hoje é o nome mais importante do Napoli). A falta de brilho do campeonato deste ano – também – é culpa da falta de craques.

Nhaca milanista

Com Dida em má fase E se machucando, com o legendário Maldini se preparando para abandonar os gramados e com um Pato que ainda alterna devastações e sumiços, o Milan se arrasta no campeonato. Não há riscos de grandes vexames, mas o time jpga muito mal mesmo. E a caveira de burro continua enterrada em San Siro. E é rubro-negra.

Oirregular Kalac vem jogando com mais freqüência e há rumores de que a relação entre Dida e o técnico Carlo Ancelotti estaria se deteriorando. Um site brasileiro falou na semana passada em “marginalização” de Dida por parte de Ancelotti, mas é uma obesa pataquada. Ancelotti sempre defendeu Dida com ferocidade, mesmo depois de frangos fantásticos do brasileiro.

A última baixa em Milanello parece ser o guerreiro Gattuso, que com um estiramento, estaria com um mês de férias forçadas agendadas. No período, Gattuso ficaria de fora de uma ou até as duas partidas com o Arsenal pela LC, o que seria péssimo. A coisa só não é pior, porque o Milan tem Emerson, que poderia ganhar ritmo com a vaga repentina no time.

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