Não há uma lembrança de tanta expectativa para a estréia de um jogador de 18 anos, com pouco mais de 50 partidas nas costas do que a que foi despejada em cima de Alexandre Pato. Técnico, companheiros, diretores, todos no Milan só fizeram aumentar a cobrança da torcida. Um desastre se anunciava. Conseguiria Pato fazer o que se esperava dele ou iniciaria-se uma “fritura” de talentos?

Conseguiu. Num San Siro lotado, Pato, que tinha prometido “um ou dois gols” contra o Napoli, teve uma estréia épica, daquelas dignas dos grandes craques. A expectativa só aumentou, claro, mas Pato demonstrou uma maturidade raríssima num jogador de futebol. “Frio assim, aos 18 anos, eu nunca vi igual”, atestava o técnico Carlo Ancelotti, na vigília do jogo.

A entrada do brasileiro mostrou quase imediatamente que a escalação inicial é a ideal do Milan. Goleiro à parte (Dida segue como uma incógnita) e com os retornos de Oddo e Jankulovski, a defesa se completa com Nesta e Maldini; no meio-campo, o quarteto de aço Gattuso-Pirlo-Seedorf-Kaká e Pato e Ronaldo na frente.

Com Pato, na verdade, o Milan jogou num esquema que é uma leve variação do 4-3-1-2 bicampeão europeu. A linha de quatro na defesa permanece imutável, mas o esquema passou a ser um 4-2-3-1, com Ambrosini (no lugar de Gattuso) e Pirlo à frente da defesa e um trio de armadores ‘dos sonhos’: Seedorf, Kaká e Pato. Somente Ronaldo joga mais enfiado.

Sim Pato é um atacante, mas vem com a bola de trás. Kaká é um meia, mas avança como um atacante e Seedorf joga numa posição muito móvel. Com o trio jogando a pleno vapor, não sobra uma lasca de referência para a defesa rival acertar a marcação.

O locutor Gianni Cerquetti, da RAI, fez uma boa análise da participação de Pato no time do Milan. “Agora, alem de Kaká, o Milan passa a ter mais um ‘Speedy Gonzalez [referência a um desenho animado de um ratinho velocíssimo]”. Pato dá ao ataque uma velocidade e capacidade de improvisação que não tem similares.

Depois de uma estréia de tirar o fôlego, o jogador precisa pôr as barbas de molho. Mesmo com todas as suas virtudes, Pato tem só 18 anos e vai passar por períodos irregulares. Se ele e o Milan souberem gerenciar sua maturação, podemos estar vendo – de fato – a aparição de um gigante. O risco é que já vimos dezenas de outras promessas ficarem pelo caminho

…e no resto…

Deixando o Pato de lado, a Série A teve um domingo normal, onde a Inter mostrou que dificilmente terá adversários, Roma e Juve esclareceram que podem tropeçar de vez em quando e a Udinese seguiu comendo pela beirada.

Antes que algum romanista irritado lembre “ei, mas a Roma não perdeu”. Não, não perdeu, mas o sucesso em Bérgamo veio a duras penas. Também é verdade que a Atalanta é um time muito difícil, especialmente na Lombardia, mas o jogo expôs as limitações de elenco da Roma, que não tem como manter o passo da Inter.

A Juventus cedeu um ponto ao Catania e igualmente confirmou a incapacidade de manter o passo da líder. “Eu entendo que se formos vice-campeões, depois dos dois anos difíceis que tivemos, teremos feito um excelente resultado”, sintetizou Cobolli Gigli, em entrevista à RAI. A Juve pode, sim, ser campeã, mas terá de fazer algum milagre.

E por mais que bater um Cagliari perdido nas próprias bobagens possa parecer pouca coisa, a vitória da Udinese na Sardenha sinalizou uma vez mais a força da equipe do Friuli. O elenco do time é bom, tem jogadores que certamente serão cobiçados em junho (como o suíço Inler e o colombiano Zapata) e um padrão tático muito consistente.

Mercado de janeiro? Em fogo brando

Não há sinais de que haja alguma contratação de peso nos clubes de ponta em janeiro na Itália. Correções de rota, substituição de jogadores machucados e alocação de jovens em times menores devem ser as únicas razões de negociação.

Não que nenhum grande precise de nada. O Milan precisa de um goleiro, a Roma não passaria mal com um atacante de estatura e a Juventus respiraria mais tranqüila com um par de reforços. Contudo, só a Inter líder é que foi buscar o volante Maniche para cobrir o espaço deixado por Dacourt no elenco.

Relativamente, no entanto, alguns clubes já fizeram contratações importantes. A chegada iminente de Cristiano Lucarelli ao Parma deve ser decisiva para o destino do time no campeonato. O Empoli está quase acertado com Papa Waigo (contratado pela Fiorentina) e o Treviso, com Lupoli (também da equipe toscana).