Nos últimos dias, o MilanLab, que normalmente é tido como um ponto de referência em tratamento médico e preparação física de atletas de futebol, foi envolvido numa lambança que poderia perfeitamente ter ocorrido na Federação Mineira de Futebol ou no Tribunal de Justiça Desportiva da CBF.

O erro dos responsáveis do MilanLab foi no diagnóstico da lesão que manteve Ronaldo afastado deste começo de temporada. Ronaldo vinha recebendo tratamento para um estiramento, mas um segundo exame teria revelado que a lesão seria mais séria, no músculo semitendinoso da perna esquerda.

O que teria acontecido é que Ronaldo estaria fulo da vida com o erro (que foi posteriormente confirmado por um médico belga que cuida das lesões mais sérias do elenco milanista), só descoberto por causa de uma terceira avaliação que Ronaldo fez com um radiologista particular em Milão. Ao descobrir a lesão, Ronaldo teria viajado ao Brasil em tensão com diretoria e com os responsáveis pela área médica do Milan.

No Brasil, Ronaldo foi consultar Luiz Carlos Runco, médico da Seleção e seu amigo particular. Runco teria aconselhado a Jean Pierre Meerserman, responsável pelo MilanLab, que Ronaldo se submetesse a um tratamento “novo” chamado “Fator de Crescimento” (ou Growth Factor, em inglês). A terapia se baseia na aplicação de proteínas capazes de ajudar o organismo a acelerar a reconstituição do tecido lesionado.

Tecnicamente, o processo não é reconhecido pelo comitê olímpico italiano e assim, pode suscitar estranhamento da comissão anti-dopagem (como, aliás, já aconteceu). Mas segundo notícias que vêm da Itália, Ronaldo já estaria mais calmo com o tratamento ministrado por Runco e teria falado com a direção do clube e com o treinador Carlo Ancelotti. Sua volta estaria prevista para daqui a um mês.

…mas…

Apesar dos desmentidos oficiais, o ponto é que toda a história soa estranhíssima. Como é que um clube considerado de ponta na gestão atlética de seus jogadores faz um erro básico na diagnose de uma lesão? Mais: como é que um especialista ainda mais conceituado (Marc Martens, que já operou praticamente todo o elenco do clube) confirma o diagnóstico do clube? E como a falta de sintonia chega a um ponto no qual um jogador mundialmente famoso acaba indo se consultar com um terceiro e depois com um quarto profissional, sendo que esse está em outro continente?

A conseqüência imediata para o Milan é a de ficar sem seu principal atacante por um mês, perdendo as primeiras rodadas da Liga dos Campeões. Gilardino iniciou sua temporada mal (foi vaiado em San Siro contra a Fiorentina) e é em Inzaghi e Kaká que o time terá de se apoiar até o retorno do ‘Fenômeno’.

Só que o episódio pode deixar abaladas as relações ntre o Milan, seu departamento médico e os jogadores. Será que o problema é com Ronaldo, que tem um comportamento mais rebelde e uma situação médica mais complexa do que os outros? Ou será que o caso pode desenrolar uma crise de confiança entre jogadores e profissionais?

O retrospecto de lesões dos últimos anos fala a favor do MilanLab, que praticamente zerou a incidência de contusões causadas por stress no grupo e acelerou muito a recuperação de problemas em jogadores fundamentais como Gattuso, Maldini, Jankulovski e Inzaghi. Só que a falta de clareza deixa uma marca que não deve desaparecer assim tão fácil, especialmente se Ronaldo não voltar a jogar logo – e bem.

Boa Azzurra, mas faltou o gol

A escalação da França para a partida de San Siro contra a Itália foi um elogio à capacidade italiana. Um meio-campo formado por Diarra, Makelele e Vieira não deixa dúvidas quanto à preocupação que Raymond Domenech tinha com os adversários. Se estava preocupado, deve ter deixado Milão satisfeito, porque mesmo com um jogo disputado, a França raramente esteve sob risco.

Se a defesa milanista mostrou uma evolução nítida desde a partida com a Hungria, o ataque regrediu. Verdade: Luca Toni faria falta à maioria das seleções, mas Pippo Inzaghi não é um mau jogador. Ainda assim, com Del Piero, o atacante campeão europeu formou um ataque sem peso, especialmente porque Del Piero partia da esquerda e a Itália abria pouco pelas laterais.

Não há muitas dúvidas sobre a escalação do meio-campo italiano, com Pirlo, Gattuso, De Rossi e Camoranesi, mas o ataque ainda é um setor para se rever. Além de um jogador de peso (se Toni não estiver apto, então Lucarelli), Donadoni precisa disponibilizar um jogador que dialogue com o centroavante, abrindo pelas laterais e recebendo o apoio de Camoranesi e Zambrotta.

O cerne do jogo italiano é Andrea Pirlo, assim como no Milan. A questão é que se o milanista é pressionado, De Rossi não tem tido a iniciativa que deveria. O jogador da Roma tem toda condição de ditar o ritmo da partida e precisa atuar mais à frente, já que a defesa parece mais sólida.

O problema então passa a ser a ausência de Gattuso, suspenso para a partida de Kiev, contra a Ucrânia. A lógica diz que seu colega Ambrosini deve ganhar sua vaga, o que evitaria uma alteração tática, mas atuar novamente com o 4-1-4-1 pode ser perigoso para um time que tem de vencer a todo custo.

O destaque positivo fica por conta da defesa. Oddo, Barzagli, Cannavaro e Zambrotta controlaram o perigoso trio Ribéry-Henry-Malouda com facilidade e dão a Donadoni, pela primeira vez, a possibilidade de não arrancar os cabelos por causa da retaguarda – exatamente o forte histórico da Itália. Em Kiev, a vitória é vital.