A ironia mal-disfarçada que parte da imprensa brasileira e espanhola usam ao se referir à transferência de Ronaldo para o Milan são mais do que compreensíveis. Ronaldo deixou de ser um personagem simpático há muito tempo, preferindo ignorar ou tratar rispidamente os seus críticos. Entretanto, os autores de todo o veneno e observações capciosas deveriam se lembrar que já deram Ronaldo por morto uma vez, antes da Copa de 2002. E tiveram de engoli-lo.

Só que “lucro passado não é garantia de ganho futuro” (parafraseando aquelas letras miúdas de anúncio de investimento de banco). Ronaldo agora tem quatro anos a mais do que tinha na Copa de 2002 e tem uma responsabilidade no mínimo igual à que tinha quando ganhou o Mundial. Para piorar, caso se transfira para a Itália mesmo, sofrerá a pressão de ser um ‘traidor’ (por parte da imprensa e da Inter) e de provar que ele ainda é o ‘Fenômeno’. E a pergunta óbvia é: ele vai se dar bem no Milan?

Contra ele, falam a idade, a situação de seu joelho (que apesar de funcional, naturalmente é delicada), a sua reputação de ‘bon vivant’ (para usar palavras amenas) e a eterna desconfiança. A reputação parece ser algo que Ronaldo já lida bem há um bom tempo (até quando faz alguma besteira) e sua situação física ainda não deu sinais de fadiga. Sempre que ele esteve em forma (e às vezes até quando não estava), ele se provou o atacante – ainda- mais perigoso do mundo.

A escolha de Ronaldo é um dos fatores que podem indicar boas chances de se dar bem. Ele tinha pelo menos duas chances concretas de entrar em uma semi-aposentadoria ganhando muito, mas muito mais do que ele ganhará em Milão. Um contrato com o clube árabe que o sondou faria dele o jogador de futebol mais rico do mundo (em termos de salário); a opção de jogar no time de Nova York não seria muito menor e lá ele abriria um mercado para a sua marca que o levaria para um outro nível de faturamento.

Mesmo com essas chances à disposição, Ronaldo escolheu a via mais difícil entre as possíveis. Ele jogará no campeonato mais difícil do mundo para um atacante, contra uma torcida que o tinha como ídolo, em um clube que precisa vencer tudo o que disputa num momento em que atravessa uma reformulação. Ah, claro, e tendo que lutar para reaver a sua vaga a Seleção Brasileira.

O atacante nunca pareceu ser burro. Longe disso. Aliás, depois de sua contusão terrível na Inter, ele se reergueu com um comportamento público muito mais frio e racional, não raro arrogante. Esse Ronaldo dificilmente combina com alguém que toparia uma aposta arriscadíssima se não tivesse certeza de ter condições físicas e psicológicas para tanto.

E é exatamente na questáo psicológica que parecem estar as menores dúvidas. Nos últimos quatro anos, Ronaldo venceu um título espanhol. No mais, foi chamado de gordo, mulherengo, preguiçoso, acabado, refugo, velho e vários outros termos impublicáveis. Não é difícil de imaginar que sua cabeça esteja vigorosamente voltada em buscar vingança.

Ao contrário de Vieri ou Batistuta, ou outros jogadores que desapareceram rapidamente, Ronaldo ainda tem o que provar – mas desta vez para si mesmo. Se ele encerrar sua carreira amanhã cedo, já terâ sido um dos maiores atacantes de todos os tempos. Para ele, no entanto, ainda existem quatro anos de críticas e observações maldosas a serem vingadas. Será que ele consegue? Essa resposta só virá com o tempo, mas é bom não esquecer que ele já ressuscitou uma vez, quando todo mundo – como agora – o dava como carta for a do baralho.

Em campo

Taticamente, Ronaldo não é um jogador que dá muito trabalho. Isso porque ele joga ou jogou com qualquer função no ataque ao longo de sua carreira. No Milan, poderia fazer uma parceria com qualquer um de seus prováveis companheiros e ainda assim ser eficiente. Especialmente jogando com Kaká no meio-campo.

O que parece mais indicado para ele no atual momento é jogar entre os zagueiros. Mesmo sem a velocidade que ele tinha aos 20 anos, Ronaldo ainda não é Romário e consegue bater a concorrência na velocidade. E compensando a aceleração menor, o jogador hoje tem uma força física e um porte robusto (que newsletters desqualificadas andaram ironizando) que o tornam um cliente desagradável até para os zagueiros mais violentos.

Graças à sua experiência, Ronaldo pode jogar também mais próximo de Kaká servindo como pivô para o brasileiro ou para um segundo atacante. Nessa variante, a presença do holandês Seedorf também pode ser valiosa, já que o meio-campista (que recentemente renovou o contrato com o Milan até 2011) tem o que é necessário para fazer as tabelinhas que são uma das melhores partes do repertório brasileiro.

Ronaldo – em forma, claro – também é a melhor chance de Ricardo Oliveira provar que não foi um fracasso – ou ‘flop’, como diz a imprensa estrangeira. Oliveira valoriza seu futebol quando pode jogar com um centroavante como Ronaldo, especialmente sendo um brasileiro, com quem teria uma compreensão melhor. Caso ele vá mesmo para a Espanha – onde é muito mais fácil jogar – dificilmente volta para o Milan.

Futebol surreal

O mundo atual está criando algumas complicações difíceis de se assimilar. Por exemplo: como pode – por mais desprezível que seja – uma criatura explodir um morteiro em uma escola de crianças, como ocorreu em Adil, zona oeste de Bagdá, no último domingo? Ou como explicar que um presidente ouse chamar de ‘terrorista’ um grupo criminoso rasteiro – implicando que há ideologia por trás de seus atos? Mais ainda: você conseguiria imaginar um jogador matando um dirigente com uma paulada no rosto durante uma briga em um jogo de sexta divisão em um país civilizado?

Se não conseguiria, aprenda rápido. No último sábado, entre uma partida entre Sanmartinese e Cancellese (que tinha o mando do jogo, mas atuava em campo neutro, em Luzzi, província de Cosenza), pelo campeonato de terceira categoria (o que significa na prática, semi-amador), o dirigente do time visitante Ermano Licursi entrou no campo durante uma briga generalizada, tomou um violento golpe no rosto, teve um ataque cardíaco minutos depois e morreu.

Testemunhas do fato disseram que ele teria sido atingido por um dos jogadores da Cancellese (que foram posteriormente interrogados), mas até a publicação desta coluna, nada tinha sido concluído. A questão prática é: por causa de uma partida de futebol em um campeonato ridiculamente irrelevante, uma pessoa morreu, e de uma maneira que faz a palavra ‘fútil’ ganhar novas conotações.

A Federcalcio já disse que está pronta a medidas drásticas caso os criminosos envoilvidos no futebol não reconheçam seus lugares – inclusive acenando com a suspensão de campeonatos. Nas últimas semanas e meses, a Itália tem assistido episódios de natureza tão grave quanto a morte de Licursi, onde auxiliares são apedrejados, torcedores acabam em hospitais e juízes têm de deixar estádios sob escolta policial.

Claro que os eventos ocorridos em Luzzi são um reflexo de uma insanidade maior e da falta de valores que a sociedade como um todo enfrenta hoje. Nem por isso é possível deixar de observar o quão fora de si uma pessoa precisa estar para causar uma briga por causa de uma partida de futebol, motivados por uma histeria coletiva com razões muito mais profundas. Aos torcedores que ainda vão ao estádio – não os marginais – vale uma reflexão sobre o que está em jogo. Até pelo valor inestimável que tem o futebol, banhá-lo com sangue faz a selvageria ganhar ares ainda mais hediondos.

Um fato inédito na história: a Inter é dada tão como barbada para vencer o ‘scudetto’ que a casa de apostas italiana Snai tirou definitivamente a possibilidade de você apostar no clube ‘nerazzurro’.

Estas as contratações feitas pelos 20 clubes italianos até aqui.

Ascoli: Bonanni (Sampdoria), Centi (Atalanta), Di Biagio (La Storta), Melara (Torino), Soncin (Atalanta) e Vitiello (Vicenza).

Atalanta: Gonella (Pescara).

Cagliari: Marchini (Triestina).

Catania: V Castorina, Tringale, Zappalá e G Maccarone (Trecastagne), Ancione (Juve Stabia), Bonaventura (Victoria), C Castorina (Acicatena). Danucci (Taranto), Tedesco, Giglio e Ioime (Brindisi), Scalerio (Belvedere), Spadavecchia (Pescara).

Chievo: Battaglia (Pavia), Bogdani (Siena), Chieregato (Sudtirol), Cozzolino (lecce), Finazzi (Virtusvecomp Verona), Italiano (verona), César Prates (Livorno), Diego Silva (Cremonese) e Troiano (Modena).

Empoli: Rincón Inter), Michelini (Cascina), Pellechia (Bologna), Rubini (Esperia).

Inter: Adou (Reggiana), César (Corinthians – BRA), Belec e Khrin(Maribor – ESL), Dalla Costa, Napoli e Federici (Pro Sesto), Figliomeni (Crotone), Pedrelli (Spezia) e Quadri (Lazio).

Lazio: Belmonte (Lanciano), Jimenez (Ternana), Sannibale (Juve Stabia)

Messina: Bakayoko e Giallombardo (Livorno), Candela e D’Aversa (Siena), Paoletti (Udinese) e Pestrin (Cesena).

Milan: Oddo (Lazio), Grimi (Racing – ARG), Storari (Messina).

Parma: Perna (Modena), Giuseppe Rossi (Man Itd – ING), Ruopolo (Triestina) e Valerio (Inter).

Reggina: Beichler (Sturm Graz – AUT), Dionigi (Spezia), Mamadou Traoré (Entente Sannois – FRA), Foggia (Lazio), Vigiani (Livorno), Nardini (Catania).

Roma: Tavano (Valencia) e Wilhelmsson (Nantes).

Sampdoria: Colombo (Brescia), Gabriel Enzo Ferrari (New York Metrostars – EUA), Gadhafi (Udinese), Padelli (Crotone), Volta (Carpenedolo) e Zotti (Roma).

Siena: Benussi (Lecce), L Blanchard (Poggibonsi), Cinquini (Bellinzona – SUI), Jaakola (Siena), Prandelli (Montichiari) e Trznadel (Gornik Zabrze – POL).

Torino: Borrelli e Moscarino (Pratola Serra).

Udinese: Mirco Flebus (San Canzian).

Um fato digno de nota é a quase inexistência de transações com o exterior, comparado com anos atrás.

E esta é a seleção Trivela desta rodada

Bucci (Parma); Maicon (Inter), Siviglia (Lazio), Maldini (Milan) ; Donati (Atalanta), Vigiani (Reggina), Perrotta e Taddei (Roma); Paolucci (Ascoli), Vucinic (Roma) e Ibrahimovic (Inter)