Nas últimas semanas, na Itália, não foram poucos os que tiveram a forte sensação de que a Série A desta temporada não começaria na data. Pudera. A quantidade de acusações, recursos, denúncias, escândalos e afins foi industrial. Os que apreciam o ‘calcio’ em toda a sua magnitude lamentaram que um campeonato tão disputado e cheio de bons jogadores fosse comentado pelas suas falcatruas e ‘viradas de mesa’.

Entretanto, nem tudo é tragédia. A enxurrada de rebaixamentos e punições que estiveram nas manchetes das últimas semanas teve um lado positivo. Vários dos dirigentes que apreciavam o estilo ‘Eurico Miranda’ foram varridos do mapa, e os clubes que eles comandavam pagaram preços muito amargos, sendo redimensionados, desaparecendo ou com rebaixamentos dolorosos.

A ‘moda’, que começou com o rebaixamento da Fiorentina (e o ostracismo de Vittorio Cecchi Gori), já tinha dado um novo alô quando Lazio e Parma se misturaram à draga de Cirio e Parmalat, cerca de três temporadas atrás. Sergio Cragnotti (Lazio) e vários do clã Tanzi (incluindo o dono Calisto) foram para trás das grades e perderam boa parte do que possuíam – incluindo os clubes.

Nessa mova lufada de vento, foram-se os Gaucci (Perugia), Enrico Preziosi (Genoa) e Romero & Cimimelli (Torino). Nenhum dos três foi à bancarrota por causa dos clubes, mas somente Preziosi permaneceu ligado ao clube, ainda que o mesmo tenha sido rebaixado à Série C1.

Na prática, o significado é que o futebol italiano encerra uma era – a dos aventureiros – que buscavam fama e prestígio em troca de seu dinheiro. Muitas vezes, é verdade, o futebol também serviu para a legitimação de dinheiro de origens duvidosas (não raras as acusações de ligação do futebol com a Máfia), ou para a manutenção de poder político. Luciano Gaucci, certamente o mais boquirroto do grupo, colocou o Perugia numa ciranda de poder que envolvia os nomes mais ricos da Itália, e que por fim, acabaram por devora-lo.

Nos anos passados, nomes como esses foram responsáveis por contratações que estão entre as mais caras de todos os tempos. Nesse meio, encontram-se a cessão de Gabriel Batistuta à Roma (€30 mi), Hernán Crespo á Lazio (€47 mi), Mendieta à mesma Lazio (€35 mi), Nakata ao Parma (€30 mi), entre tantas outras menos célebres, mas que movimentaram montanhas de dinheiro.

O futebol não tem nada a lamentar da saída desses personagens de cena. À parte as manchetes sensacionais que proporcionaram em contratações de craques (e outros nem tão craque assim), em inúmeras oportunidades o que a categoria proporcionou foram sugestões de viradas de mesa, inflação no mercado de jogadores e uma grande dose de desapego à camisa dos clubes. O futebol – que nunca foi um berço de fidelidade – ficou bem mais ‘mercenário’ depois da passagem dos ‘tycoons’ pelo comando dos clubes. E certamente ficou endividado a um ponto impossível de ser pago.

A estirpe ainda deixou mais dois nomes da ‘escola’ no futebol da Série A desta temporada. Um deles é o presidente do Palermo, Maurizio Zamparini, que enterrou o recém-falido Venezia antes de ir à Sicília. O outro é Massimo Cellino, dono do Cagliari e igualmente personalista na gerência do seu clube. Que ninguém se assuste se Sicília ou Sardenha forem tragadas para o olho do furacão.

Lecce

Estádio: Via del Mare (40.800 lugares).
Técnico: Angelo Gregucci (novo)
Estrela: Mirko Vicinic (atacante)
Fique de olho: Erminio Rullo (lateral)
Quem chegou: Pecorari (Triestina), Schiavi (Salernitana), Polenghi (Salernitana) e Camorani (Fiorentina).
Quem saiu: Cirillo (AEK Atenas – GRE).
Pretensão: evitar o rebaixamento.

Terminado o parêntese Zdenek Zeman, o Lecce volta à sua realidade de luta sofrida contra o rebaixamento. O técnico tcheco causava muitas palpitações com as suas filosofias ofensivas, mas certamente proporcionava espetáculo e lapidava jogadores, como o búlgaro Bojinov, vendido à Fiorentina por €16 milhões.

O sucessor de Zeman, Gregucci, tem mantido o esquema 4-3-3 do tcheco, o que sugere um jogo ofensivo e espaço para adversários. A defesa é bastante boa, com o goleiro Sicignano, os laterais Rullo e Cassetti, e os centrais Stovini e Diamoutene. Stovini é um dos melhores centrais italianos, mas os laterais apóiam muito, abrindo bastante a defesa.

O meio-campo tem dois jogadores de excelente impostação de jogo, o uruguaio Giacomazzi e o argentino Ledesma, ambos pretendidos por vários clubes grandes do país. Os dois são ótimos na armação e arrematam bem, mas não são marcadores implacáveis. Camorani completa o setor.

O ataque do Lecce deve continuar a ser o setor de força do time (a ter ‘tração dianteira’, como se diz na Itália). Pinardi-Vucinic-Konan são todos bastante técnicos e com vocação ao gol.O problema é que nenhum deles ajuda muito a marcação da defesa.

A sorte do Lecce está em cima do ataque. Se ele for prolífico como com Zeman, o time se salvará mesmo que sofra muitos gols. Se o ataque minguar, a defesa tem de deixar de ser a peneira ‘zemaniana’. Gregucci é considerado um técnico promissor. Terá como mostrar isso agora.

Cagliari

Estádio: Sant’Elia (39.305 lugares).
Técnico: Attilio Tesser (novo).
Estrela: Mauro Esposito (atacante).
Fique de olho: Daniele Conti (meio-campista).
Quem chegou: Conticchio (Torino), Cossu (Verona), Canini (Atalanta) e Capone (Treviso).
Quem saiu: Brambilla (fim de contrato), Del Nevo (fim de contrato), Loria (Atalanta)
Pretensão: evitar o rebaixamento.

De técnico novo, o cagliari certamente terá problemas nesta temporada. Explico: o presidente Massimo Cellino já achou pouco o 11o lugar conseguido pela equipe na última temporada, e além disso, não fez nenhuma contratação relevante. Para fechar o quadro, Espósito e Langella, surpresas da última temporada, terão marcação mais rigorosa.

A defesa do técnico Attilio Tesser é com quatro homens. Agostini e Lopez são os laterais, Bega e Canini, os centrais, diante do goleiro Brunner (ou Campagnolo). O grupo está junto há duas temporadas (exceção feita a Canini), mas Tesser joga com um atacante a mais, desguarnecendo o meio-campo.

No meio, o filho de Bruno Conti, Daniele, é o regente, com Gobbi e Abeijón no apoio. Langella e Esposito são os atacantes que agem como alas em função de Suazo, o centroavante hondurenho do time. Langella e Esposito são o ponto forte do time, impingindo velocidade e força.

Tesser tem um desafio: organizar uma defesa eficiente antes da décima partida. Não é um número exato, mas se o clube não estiver tomando poucos gols até então, é grande a possibilidade de que já tenha cavado sua sepultura. Se o fizer, Tesser terá em mãos um time capaz de lutar até por uma vaga na parte de cima da tabela.

Reggina

Estádio: Oreste Granillo (27.763 lugares).
Técnico: Walter Mazzarri
Estrela: Ivan Pelizzoli
Fique de olho: Giandomenico Mesto (meio-campista)
Quem chegou: Pelizzoli (Roma), Vigiani (Livorno), Bianchi (Atalanta), Rigoni (Vicenza) e Biondini (Vicenza).
Quem saiu: Esteves (Vicenza), Bonazzoli (Sampdoria), Zamboni (Sampdoria), Belardi (Catanzaro) e Veron (Lanus – ARG).
Pretensão: evitar o rebaixamento.

Considerada a torcida mais ‘quente’ e bem-educada da Itália, a torcida da Reggina se prepara para mais uma temporada daquilo que conhece bem: sofrer. O clube perdeu o atacante Bonazzoli, referência do ataque. As fichas estão em algumas boas apostas feitas nas contratações. Se tudo for bem, há boas chances da Reggina respirar tranqüila. Mas só se tudo for bem…

Na última temporada, o goleiro Belardi foi muito criticado por uma série de falhas que custaram pontos preciosos à Reggina. O arqueiro foi cedido ao Catanzaro, e para seu lugar foi contratado Pelizzoli, da Roma. Pelizzoli saiu da Atalanta como grande esperança para a Roma, mas jamais chegou a convencer. Contudo, é um jogador de muito potencial.

A defesa da Reggina tem sido de três homens nas últimas temporadas, por ser mais fácil de acertar a marcação. Cannarsa e Ivan Franceschini são os externos da zaga e De Rosa (ex-Bari) é o homem da sobra. A proteção da defesa é feita por dois excelentes volantes, Tedesco e Paredes (cujo nome é bem sugestivo). Balestri e Mesto são os alas, e o brasileiro Mozart é o armador do time.

No ataque, Mazzarri conta com Vigiani e Bianchi. Vigiani é quase um meio-campista, que volta para buscar o jogo. Não é brilhante tecnicamente, mas ajuda muito na marcação – o que conta muito na Reggio Calábria. O centroavante é Bianchi, um dos jovens mais promissores da última geração atalantina que foi promovida à Série A.

Normalmente, a Reggina é difícil de ser batida em casa e ganha poucos pontos fora. Se o time ‘amaranto’ conseguir apenas alguns pontinhos a mais quando joga como visitante, vai manter a torcida feliz sem tanto frio na espinha.

Siena

Estádio: Artemio Franchi (13.500 lugares).
Técnico: Luigi De Canio.
Estrela: Enrico Chiesa (atacante).
Fique de olho: Daniele Gastaldello (defensor).
Quem chegou: Negro (Lazio), Legrottaglie (Siena), Locatelli (Bologna); Gastaldello (Juventus), Nanni (Almeria – ESP) e Paro (Juventus)
Quem saiu: Taddei (Roma) e Argilli (Modena), Manninger (Austria Salzburg – AUT), Flo (fim de contrato), Maccarone (Middlesbrough) e Tudor (Juventus).
Pretensão: evitar o rebaixamento.

Quando Luigi De Canio assumiu o Siena na última temporada, era dado como um caso perdido. O time não era lanterna (a Atalanta seguia firme e forte como última colocada), mas o clube toscano padecia de todos os males: desde contusões até faalta de elenco razoável. Para sorte do técnico, a diretoria conseguiu algumas contratações interessantes (como Tudor e Maccarone) e o clube se safou.

No gol, De Canio mantém o goleiro Fortin. No ano passado, o arqueiro alternou ótimas partidas com pataqüadas sensacionais. No centro da defesa, o Siena terá Legrottaglie, dois anos atrás, o maior nome da campanha de contratações da Juventus. Ao seu lado, dois ex-Lazio: Paolo Negro e Francesco Collonese. Aos dois cabe a perseguição aos atacantes, com Legrottaglie sobrando.

No meio-campo, De Canio gosta de usar alas com bastante liberdade, muita velocidade e profundidade nas jogadas de contra-ataque. Falsini (esquerda) e o brasileiro Alberto (direita) têm muito preparo físico. A cobertura de ambos fica a cargo de D’Aversa e Vergassola, dois especialistas em truncar jogadas, e a armação fica com Francesco Cozza, que um dia foi a esperança do Milan como herdeiro de Demetrio Albertini.

O ataque do Siena tem somente um homem (Chiesa) com Locatelli agindo como meia de ligação. O esquema é muito parecido com o que Francesco Guidolin usava quando técnico do Bologna (onde jogava Locatelli), e assim, o meia deve ter facilidade para se adaptar. Quando tiver a bola, o Siena terá a aproximação dos laterais agindo quase como um trio de atacantes.

Para esta temporada, De Canio deve ter um pouco mais de oxigênio. Não que tenha feito um mercado brilhante, mas o time já tem algum entrosamento e conta com nomes de boa experiência sem que sejam ‘ex-jogadores em atividade’. Perspectivas? São boas. O elenco tem bastante experiência, o técnico tem um bom retrospecto e o time já tem quase seis meses de rodagem. Sem contusões, pode se salvar com boa antecedência.

Chievo

Estádio: Mario Bentegodi (42.160 lugares).
Técnico: Giuseppe Pillon (novo)
Estrela: Federico Cossato (atacante).
Fique de olho: Andrea Mantovani (defensor).
Quem chegou: Mantovani (Torino), Squizzi (Perugia), Fontana (sem clube) e Bruno (Torino).
Quem saiu: Baronio (Lazio); Esposito (Bari), Julio Cesar (Inter) e Fusani (Perugia).
Pretensão: evitar o rebaixamento.

Acabada a pecha de ‘time sensação’, o Chievo agora tem de cair na batalha que lhe convém, ou seja, evitar o rebaixamento. Nesta temporada, para evitar a Série B, o elenco veneto terá de suar ainda mais do que na última, quando se salvou da degola somente na boca do túnel.

O grande problema do técnico Pillon é que o clube não só não fez boas contratações como também perdeu nomes importantes como os do miolo de seu meio-campo, Baronio e Brighi. O Chievo de Luigi Del Neri se dava bem pelos automatismos e pela boa defesa; o do ano passado teve de jogar comendo a grama para não cair. E o de Pillon? O que deve fazer?

O goleiro do Chievo deve ser Squizzi, recém-chegado, que não tem em seu currículo nenhuma nota mais relevante. A sua vantagem é a de jogar atrás de uma defesa que joga junta há tempos, com a linha Moro-D’Anna-Mandelli-Lanna, muito parecida com a do Chievo que surpreendeu a Série A, três temporadas atrás.

Com Semioli e Franceschini, Pillon deve reforçar a jogada das descidas à linha de fundo, mas ainda não tem dois centrais capazes de dar consistência o setor. O ataque titular (Cossato e Pelissier) é o suficiente, mas se precisar apelar para reservas, Pillon já cai para o imponderável. Candidato sério ao rebaixamento.

– O veteraníssimo Giuseppe Signori está quase acertado com a Lucchese.

– O Torino começa a fazer a sua campanha de contratações para a Série B.

– Os primeiros nomes foram o goleiro Pagotto, o defensor Ungaro (ex-Modena), o ala Nervo (ex-Bologna) e o meia argentino Marinelli (ex-Middlesbrough).

– Dellas, ex-zagueiro da Roma, se acertou com o Spartak Moscou.

– No último domingo, o Milan conquistou o troféu Berlusconi, tradicional amistoso entre Milan e Juventus na pré-temporada.

– Diz-se que quem ganha o troféu não vence o campeonato, embora a Juventus tenha desmentido a máxima no ano passado vencendo ambos.

– No jogo, a Juventus perdeu o goleiro Buffon, machucado no ombro, ficará fora por 60 dias.

– Na chamada da ‘Azzurra’ para enfrentar a Irlanda, Marcello Lippi perdeu Totti e Buffon contundidos, mas voltou a se lembrar de Del Piero.

– Goleiros: Morgan De Sanctis (Udinese), Flavio Roma (Monaco) e Matteo Guardalben (Palermo).

– Defensores: Andrea Barzagli (Palermo), Fabio Cannavaro (Juventus), Fabio Grosso (Palermo), Marco Materazzi (Inter), Alessandro Nesta (Milan), Cristian Zaccardo (Palermo), Gianluca Zambrotta (Juventus).

– Meio-campistas: Simone Barone (Palermo), Mauro German Camoranesi (Juventus), Daniele De Rossi (Roma), Aimo Diana (Sampdoria), Gennaro Gattuso (Milan), Giandomenico Mesto (Reggina), Andrea Pirlo (Milan).

– Atacantes: Alessandro Del Piero (Juve), Alberto Gilardino (Milan), Vincenzo Iaquinta (Udinese), Luca Toni (Fiorentina), Christian Vieri (Milan).