O país com o futebol mais forte do mundo criou para si uma aura de indecência. Nos últimos anos, escândalos e mais escândalos – muitos deles não punidos – fizeram o resto do mundo olhar para o ‘calcio’ com um olhar de desdém. De uma certa maneira, não dá nem para recriminar. No máximo, se entristecer. Seus advogados conseguiram a suspensão dos campeonatos na justiça no dia da publicação desta coluna (9 de agosto), mas um Genoa na Série A ainda é uma possibilidade remota.

Justamente por isso que a punição ao Genoa por um suposto suborno na última rodada da Série B passada parecia distante. Só que a segunda-feira chegou e o couro comeu para o lado do time genovês. Todas as punições aos diretores estão confirmadas (inclusive uma inibição de cinco anos ao presidente Enrico Preziosi), além do rebaixamento do time campeão da Série B à Série C1. Certamente, uma punição que o Brasil levará um tempo para ver.

O transtorno causado pela medida será enorme, sem sombra de dúvida. Para se ter uma idéia, a diferença de orçamento entre um clube de Série A e um de Série B (supondo-se que ambos sejam de mesmo porte) chega a ser de 50%. A queda de aus divisões é ainda maior. E o Genoa já tinha um elenco de Série A, com contratações como o zagueiro Parisi, o goleiro Abbiati e o técnico Francesco Guidolin.

O dantesco cenário, no entanto, não se limita às cercanias do Marassi. Apesar da lei prever com clareza quais os clubes que sobem no caso de um descenso como o do Genoa, os advogados de dezenas de times estão analisando a possibilidade de tentar solicitar uma promoção ‘camarada’ para os seus clubes. O risco aí é o de um mega-atraso no início do torneio, que nem sorteio teve ainda.

Roma, mercado livre

Foi por pouco, mas a Roma escapou de levar um nabo do tamanho do Ceasa. O TAS (Tribunal Arbitral do Esporte), de Lausanne (Suíça), deu uma colher de chá para a Roma e validou as transferências feitas antes da data da punição que vetava ao clube de Trigoria a contratação ou cessão de qualquer atleta pelo prazo de um ano. Só para lembrar, a Fifa puniu a Roma com 12 meses de inibição no mercado de jogadores porque o clube teria influenciado o zagueiro Mexes a romper seu contrato com o Auxerre.

Aparentemente a medida não tem nenhum impacto. Só aparentemente. Se a Roma tivesse de desfazer as três contratações que conseguiu (o zagueiro Kuffour, o meia Taddei e o atacante Nonda), estaria completamente redimensionada para a temporada, e ao invés de fixar suas metas numa vaga da Copa Uefa, teria de dar graças a Deus se não caísse para a Série B.

Apesar do TAS não ter se pronunciado sobre se a Roma pode ou não vender jogadores, a medida deixa dúvidas sobre se Cassano fica ou não em Roma. O clube sabe que ele dificilmente negociará uma renovação de contrato (acaba em 2006) e é melhor vendê-lo agora para não perder todo o investimento (lembrem,os: €33 milhões, quatro anos atrás).

Palermo

Estádio: Renzo Barbera “La Favorita” (36.980 lugares).
Técnico: Luigi Del Neri (novo).
Estrela: Fabio Grosso (lateral).
Fique de olho: Ayodele Makinwa (Palermo).
Quem chegou: Caracciolo (Brescia); Bonanni (Vicenza); Makinwa (Atalanta) e Virga (Roma).
Quem saiu: Matteini (Empoli).
Pretensão: vaga na Liga dos Campeões.

Para um time que estava na Série B há duas temporadas, a ambição de uma vaga na elite européia soa arrogante. Talvez o seja mesmo, mas o presidente do Palermo, Maurizio Zamparini, certamente é arrogante e tem gasto milhões para colocar o clube ‘rosanero’ no alto do futebol italiano.

De técnico novo (o excelente Luigi Del Neri), o Palermo versão 2005 deve manter o perfil do ano passado, com uma defesa muito sólida, mas deve mudar no esquema (4-4-2 contra o 4-2-3-1 anterior) e na impostação do meio-campo, onde os quatro homens se dispõem em linha e fazem um ‘pressing’ constante.

Del Neri tem três jogadores de seleção na sua linha defensiva. Zaccardo e Grosso (laterais) e o central Barzagli já vestiram a camisa azul, e o correto Biava fecha uma defesa que joga plantada, com marcação por zona e uma sobra. No meio, mais dois vigias (Barone e Corini) ajudam a impenetrabilidade da defesa com a virtude de uma excelente saída de bola e boa visão de jogo.

As jogadas ofensivas são pelas laterais, e o jogo é aberto pelos meio-campistas Santana e Bonnani. Os dois obrigam a marcação adversária a ocupar o campo todo até as laterais, abrindo espaço para os dois atacantes, Makinwa e Caracciolo, a ficarem no mano-a-mano com os zagueiros. É aí que o Palermo dá o bote. Os dois são fortes, hábeis e têm bom arremate. Makinwa é muito rápido, e Caracciolo, perigoso no jogo
aéreo. Se mantiver o elenco todo, a vaga na LC é uma possibilidade; a vaga Uefa é uma obrigação.

Messina

Estádio: San Filippo (43.000 lugares).
Técnico: Bortolo Mutti.
Estrela: Zampagna (atacante).
Fique de olho: D’Agostino (meio-campista).
Quem chegou: Sculli (Juventus).
Quem saiu: Cucciari (fim de contrato), Parisi (Genoa) e Eleftheropoulos (Milan).
Pretensão: evitar o rebaixamento.

Se conseguir mesmo se livrar de todo o imbróglio de verão que ameaça a sua vaga na Série A, o Messina não terá uma vida mais simples dentro do campo. O time praticamente não se reforçou, perdeu dois jogadores importantes (o zagueiro Parisi e o arqueiro Eleftheropoulos) e só trouxe o avante Sculli para engordar suas fileiras.

No ano passado, o técnico Mutti usou muito um esquema com um atacante, mas a chegada de Sculli deve fazer com que Zampagna passe a ter mais um colega no setor. O ex-romanista D’Agostino deve ter a chave do meio-campo, ao lado do ex-milanista Donati, e os dois querem provar que não são sonhos desfeitos. De fato, ambos têm condições técnicas para levar o Messina a um nível satisfatório, mas terão de ser mais regulares. Nas alas, Giampá e o ‘neo-azzurro’ Coppola endossam o sistema de contra-ataque, com descidas rápidas pelas laterais.

O ponto fraco do Messina é a defesa. Ainda que a primeira linha seja de boa qualidade (Zoro, Rezaei, Cristante e Aronica, da direita para a esquerda), a ausência de jogadores de marcação no meio-campo pode criar problemas. Rezaei e Cristante jogarão com pouca guarda e serão presas fáceis se Donati não se desdobrar. O clube precisa de reforços no setor, ou passa a ser candidato ao rebaixamento.

Roma

Estádio: Olímpico (82.307 lugares).
Técnico: Luciano Spaletti (novo).
Estrela: Francesco Totti (meio-campista).
Fique de olho: Gianluca Curci (goleiro).
Quem chegou: Bovo (Parma), Kuffour (Bayern de Munique – ALE); Brighi (Chievo); Taddei (Siena); Nonda (Mônaco – FRA).
Quem saiu: Virga (Palermo).
Pretensão: vaga na Liga dos Campeões.

Nos últimos dois anos, a Roma está pagando o preço de ter entrado na Bolsa de Valores, com todas as turbulências advindas da ciranda financeira e do desequilíbrio de gastos a que foi exposta. Passada a temporada passada com seus riscos reais de falência, o clube de Trigoria tem tudo para fazer uma temporada mais tranqüila, ainda que tranqüilidade em Roma seja somente um conceito teórico.

A maior inquietação romanista é a saída ou não do atacante Cassano. Se não vender Cassano, o clube o verá sair a custo zero em junho de 2006, e se lembrarmos que se trata de um jogador que custou cerca de €30 milhões há quatro anos, é de se cortar os pulsos. Por isso, o clube está desesperado para cede-lo agora, mas há poucos compradores disponíveis e ainda há o problema da punição pelo caso Mexes (ler acima), que impede a Roma de negociar atletas.

Nem tudo são problemas. A chegada do técnico Luciano Spaletti devolve à Roma um condutor capaz de montar um time consistente. Spaletti está demonstrando ter pulso para domar a casa de mãe-joana que era o vestiário romanista. E certamente tem talento para armar um time competitivo.

No gol, a primeira surpresa. Curci, da divisão de base da Roma, fez com que Pelizzoli fosse negociado. E com os experientes Panucci e Chivu nas extremas, Spaletti fez uma zaga nova, com Bovo e Kuffour (recém-chegados). A linha tem todos os pressupostos para se consolidar. Até porque o técnico tem dois excelentes medianos no miolo de meio-campo, De Rossi e Perrotta, que asseguram marcação com boa saída de jogo. Nas alas, os brasileiros Taddei e Mancini terão toda a liberdade para chegar à linha de fundo, deixando a Roma com um jogo bem ofensivo.

Sem Cassano, o ataque da Roma terá Totti e Montella, com o conguês Nonda como uma opção que a Roma não tinha no ano anterior. Com Cassano? Bem, a permanência de Cassano na Roma é indesejável sob todos os aspectos, inclusive esse, pois Montella (de contrato renovado) iria para o banco de reservas, onde usualmente cria caso. Sem nenhum problema extra, a Roma pode ter um time adequado nesta temporada e muito bom na seguinte, caso a base se mantenha.

Livorno

Estádio: Armando Picchi (18.200 lugares).
Técnico: Roberto Donadoni.
Estrela: Cristiano Lucarelli (atacante).
Fique de olho: Rafaelle Palladino).
Quem chegou: Colucci (Verona); Palladino (Salernitana); Ginestra (Vis Pesaro), Gambadori (Pavia); Cordova (Bari); Fanucci (Pescara); Evangelisti; Morrone (Palermo); Zé Rodolfo (Juventude – BRA); Centi (Treviso).
Quem saiu: Protti (encerrou a carreira), Grauso (Mantova); Vidigal (Udinese).
Pretensão: evitar o rebaixamento.

O retorno do Livorno à Série A foi totalmente irregular. Diante de times grandes, como o Milan, o clube toscano foi capaz de arrebanhar seis pontos. Em outras partidas, foi capaz de tomar seis gols, como na seqüência 4 a 6 (contra o Parma) e (3 a 6), contra o Siena, que motivou a revoltada observação do presidente do clube: “Não haverá terceiro set”, numa referência ao tênis e às possíveis demissões em caso de nova goleada.

O técnico do time é o ex-astro Roberto Donadoni. Seu Livorno atua bem à italiana, com marcação pressão, por zona, três zagueiros (sendo que um na sobra) e ataque pelas alas. A defesa, apesar de privilegiada na tática, é a mais frágil. O goleiro é Mareggini, e do trio de defesa Alessandro Lucarelli-Vargas-Grandoni, só Vargas tem boa condição técnica.

A fragilidade da defesa faz com que Donadoni deixe dois volantões bem típicos na frente da defesa (Passoni e Colucci), com Morrone de armador e os alas livres para atacar. Os dois volantes fazem a cobertura dos zagueiros, com os alas ajudando. Na frente, a estrela do time, Cristiano Lucarelli, artilheiro da última Série A, ao lado de uma promessa juventina, Rafaelle Palladino, que na Juve não encontra espaço. Perspectivas? Se não cair está ótimo. E isso, dá para fazer.

Lazio

Estádio: Olímpico (82.307 lugares)
Técnico: Delio Rossi (novo)
Estrela: Paolo Di Canio (atacante)
Fique de olho: Valon Behrami (meio-campista)
Quem chegou: Behrami (c, Genoa); Cribari (d, Udinese); Belleri (c, Udinese).
Quem saiu: não houve nenhuma cessão.
Pretensão: vaga na Copa Uefa.

A nova Lazio do presidente Cláudio Lotito já está acostumada com sua nova condição, a de time com tradição mas sem recursos. Assim, a ausência de contratações fantásticas não chega a assustar nem a diminuir o ânimo do ambiente. Isso já se vê na contratação do novo técnico, Delio Rossi, acostumado a times da rabeira da tabela.

Desde Sven Goran Eriksson, a Lazio quase sempre jogou com 4-4-2 como esquema principal, e sempre que fugiu disso, se deu mal. Essa ‘cultura tática’ foi mantida por Rossi, revelando sabedoria. O experiente Peruzzi segue como goleiro titular, e a defesa tem uma peculiaridade: a linha titular é toda italiana (Oddo, Siviglia, Belleri e Zauri). O brasileiro Cribari compete com Belleri por uma vaga no centro da defesa, mas de um modo ou de outro, é um setor competente, que não se arrisca e que prioriza a defesa (tradução: os laterais só apóiam na boa).

No meio-campo, Rossi joga com dois centrais; um deles (Firmani) é quase um defensor; o outro, Liverani, tem liberdade para encostar nos atacantes e se deslocar pelo campo. Nas alas, o consolidado César dá muita profundidade e o suíço-albanês Behrami é a aposta ‘laziale’ para uma temporada calma.

O ataque da Lazio fica com a determinação de Paolo DI Canio. Polêmico, Di Canio é admirador de Mussolini e do fascismo; cumprimenta a torcida radical da Lazio com a saudação tradicional e carrega o time com sua influência. Mesmo com os parênteses, é um nome importantíssimo pelo entusiasmo que dá ao elenco. Seu companheiro de ataque, Rocchi, é um jogador correto, mas que não empolga. A Lazio de Rossi deve ser um time muito brigador, mas que ninguém espere um futebol vistoso.

– A inibição de Preziosi no Genoa não é um evento que deva ser lamentado pelo futebol italiano.

– O dirigente levou o Como à bancarrota e depois abandonou o clube porque queria exposição maior, e foi para o Genoa.

– Freqüentemente, tomava parte nas discussões sobre a parte de bastidores, sempre apoiando medidas mais ‘cartolais’ e menos esportivas.

– O TAS, que absolveu a Roma, é um órgão internacional, independente, que serve de corte para dirimir disputas judiciais. Foi fundado em 1984, e utiliza a legislação do país em questão. Se não houver solução, as leis suíças são utilizadas.

– Pelos protestos de sua torcida na partida da Copa Itália contra o Catanzaro, o Genoa foi eliminado também desta competição, e o modestíssimo time calabrês avançou.

– O interesse do Milan em Cicinho é concreto; o Milan conta com o jogador para junho de 2006, depois que o lateral supostamente jogue a Copa do Mundo.

– O Genoa conseguiu na Justiça a suspensão do calendário das Séries A e B; acompanhe no noticiário da Trivela o desdobramento do caso porque muita água vai passar por baixo deste rio.

– De olho na Série A, o Treviso já faz contatos para contratações e os primeiros nomes são o atacante Fava Passaro e o zagueiro Mezzano.

– Com o mercado liberado, a Roma busca mais um mediano para o meio-campo (Ledesma, do Lecce e Mozart, da Reggina), um goleiro (Abbiati, ex-Milan, se o Genoa cair mesmo) e um atacante para substituir Cassano (Esposito, do Cagliari).

– E se Mancini for negociado, van der Meyde, da Inter, é a melhor aposta.