E a partida mais esperada do ano na Itália terá todos os ingredientes possíveis. Os dois líderes da Série A chegam à 35a rodada para o confronto direto com o mesmo número de pontos, em meio a um clima de guerra (vide suspensão do atacante juventino Ibrahimovic, vídeo do capitão italiano Cannavaro se injetando, etc) e na mesma semana em que o Milan decide uma vaga na final da Liga dos Campeões da Europa. Se alguém fosse escrever esse roteiro, não poderia pensar num enredo mais tenso.

Na prática, o jogo entre Milan e Juventus, a ser disputado na tarde de domingo em Milão, vai decidir quem ganha o campeonato. Tal conclusão é tirada do fato que a média de pontos dos dois clubes é de 2,24 pontos. O campeonato italiano é por pontos corridos, mas quis o destino que a edição desta temporada tivesse uma final.

Os dois candidatos ao título chegarão ao jogo com condições bem diferentes. O Milan pode chegar com o moral nas estrelas, caso conquiste o direito de jogar em Istambul a final da Liga dos Campeões, mas estará desgastado fisicamente, pelo menos, mais que a Juventus, que terá tido toda a semana para se preparar.

Entretanto, a Juventus chega à “partitissima” sem seu jogador mais em forma, o sueco Ibrahimovic, que indiscutivelmente fará falta no ataque. “Ibra” é um jogador que iria prender um dos dois zagueiros milanistas numa marcação pessoal. Sem ele, a defesa milanista agradece – ainda que qualquer dupla escalada por Fabio Capello signifique perigo.

Fora de campo, a Juventus está em clara desvantagem. Vai passar a semana com a obrigação de jogar a temporada em 90 minutos. E some-se a isso o mal-estar causado pelo vídeo de Cannavaro tomando injeções de um medicamento agora proibido, o risco de ter seu contrato bilionário de patrocínio com a Tamoil (companhia petrolífera líbia) rescindido e o peso de poder ter uma temporada torrificada depois de gastar muito.

Favoritos? Numa partida entre Juventus e Milan, nem que um seja líder e o outro esteja na rabeira, existem favoritos. Quanto mais num combate cabeça-a-cabeça, valendo praticamente o título. A favor da Juve: o cansaço físico do Milan e a concentração num único torneio. A favor do Milan: a ausência de Ibrahimovic e fato de jogar diante da torcida milanista. Em suspenso: o modo como o resultado da Liga dos Campeões vai afetar o Milan (positiva ou negativamente) e a repercussão do “Cannavarogate”. Certeza única: um jogo para parar o continente.

Adivinhe? Outro escândalo com doping

Se a Itália arrolar a lista de escândalos que abalaram seu futebol nos últimos quatro anos, o texto vai ficar tão grande que a pergunta a ser feita será: “mas ainda existe futebol na Itália, depois de tanta sujeira”? Pois é. Existe, apesar de tudo. E na semana passada, o esporte tomou mais uma traulitada.

Na semana passada, a RAI (TV pública italiana) exibiu um vídeo que recebeu anonimamente. No vídeo, o capitão da seleção italiana, Fabio Cannavaro, aparece num hotel em Moscou antes da final da Copa UEFA, em 1999. O jogador, hoje na Juventus, aparece recebendo uma injeção de Neoton, um medicamento que hoje é proibido pela FIFA, mas na época era permitido.

Apesar do vídeo mostrar Cannavaro tomando um medicamento legal, as imagens são bem fortes. O zagueiro e outros jogadores do Parma (que não são identificados) estão tomando o remédio e fazendo piada com o fato, dando a impressão de que o uso de drogas era comum como uma viagem de avião. Todo o clima do vídeo – amador – é de profundo descaso e sugere até promiscuidade. Cannavaro diz, brincando, que tem provas que “Seba Verón se dopa”; mais adiante ele diz: “como somos nojentos; tenho 25 anos e estou tomando injeções”.

Não há rigorosamente nada de ilegal no episódio, mas o fato de Cannavaro ter tentado proibir a divulgação do mesmo deixou um clima de ojeriza no ar. “Só faltava um vídeo para provar que há muito doping no futebol. Agora não falta nem isso”, disse o jornalista Ítalo Cucci, do Guerin Sportivo, no último domingo. “Cannavaro tem razão; somos nojentos”, emendou Zdenek Zeman, técnico do Lecce que foi o primeiro a ter coragem a abordar o assunto há sete anos, iniciando uma longa investigação que acabou condenando a Juventus.

Ainda não dá para medir a extensão dos danos. Certamente Cannavaro será o mais prejudicado, porque sua imagem foi duramente atingida. O juventino se defendeu dizendo o óbvio – que não tinha feito nada errado, mas a Itália ficou indignada de ver seu capitão com uma agulha na veia num quarto de hotel. O episódio pelo menos pode servir para arrancar a máscara do problema à força.

E quem fez isso? Ninguém sabe. Mas é fato que a Juve está numa luta dura com o Milan pelo ‘scudetto’, e claro, as suspeitas caem sobre isso. Mas a Juventus não tem só o Milan como inimigo, e a Itália hoje é um ninho de cobras na política do esporte. Aliás, isso é boa parte do problema.

Acuada, a Juve reage

Assustada com os reveses das últimas semanas (“Cannavarogate”, eliminação da Liga dos Campeões, suspensão de Ibrahimovic, risco de perder o patrocínio da Tamoil), a Juventus anunciou no domingo que não falará com a imprensa nesta semana. A medida é uma represália contra o que o clube entende ser uma “orquestração” contra as suas chances de título.

Mas também é uma mensagem clara e inequívoca: “Nós somos a Juventus e estamos concentrados”. Para qualquer outro clube, pareceria uma mensagenzinha tosca de marketing do tipo “esta camisa tem história”, ou qualquer outra coisa. Na Juventus, é mesmo uma ameaça.

A Juve prepara um panorama de guerra para a semana e para a próxima temporada, caso o Milan saia vitorioso de San Siro. Durante esta semana, a tática é “hostilidade total”, para colocar os atletas no clima da decisão. E se a Juventus não vencer, muita gente deve perder a vaga no Delle Alpi.

Entre os candidatíssimos a sair estão David Trezeguet, Paolo Montero, Alessio Tacchinardi e talvez, Alex Del Piero. Del Piero é um problema porque não está jogando bem, ganha muito e é o capitão do time. Como mandar o capitão embora sem mais nem menos? E como não mandar um jogador que ganha quase 5 milhões de euros por ano sem ter a performance necessária? Dúvidas que serão respondidas depois do “big match” de domingo.

– Na lista de compras da Juventus, estão o defensor Essien (Mônaco), o atacante Cassano (Roma) e o lateral Placente (Leverkusen).

– Pizarro, da Udinese, pode se ir para o Palermo, se o time siciliano conquistar a vaga para a Liga dos Campeões.

– Nesse caso, a Inter tomaria um tombo do time “rosanero”.

– A média de 4,3 gols é recorde para este campeonato, assim como o placar de 6 a 4 entre Parma e Livorno.

– Na seleção Trivela da 34a rodada (a que seria a última do torneio, se o campeonato ainda tivesse 18 times), o foco está nos atacantes.

– Gilardino e Lucarelli travaram um duelo gigantesco no Tardini, enquanto Shevchenko acordou em dois momentos para manter o Milan na sua corrida contra a Juventus.

– E com os oito gols, os dois entraram definitivamente na luta pela Chuteira de Ouro, prêmio dado ao maior artilheiro da Europa na temporada.

– Gilardino alcançou Montella, da Roma, com 42 pontos (21 gols), enquanto Lucarelli chegou aos 40 (20 gols), junto com Andrew Johnson (dos ingleses do Crystal Palace) e Diego Forlán (do espanhol Villareal).

– O líder é Thierry Henry, do Arsenal, com 50 pontos, seguido por Mintal (Nürnberg – ALE) e Eto’o, do Barcelona – ESP, ambos com 44 pontos.

– Finalmente, a seleção:

– Storari (Messina); Motta (Atalanta), Sacchetti (Sampdoria) e Sala (Atalanta); Schopp (Brescia), Zauli (Palermo), Donati (Messina) e Nedved (Juventus); Gilardino (Parma), Lucarelli (Livorno) e Shevchenko (Milan) .