O apito triplo do árbitro espanhol Mejuto Gonzalez no final da Liga dos Campeões, estava se encerrando uma tragédia italiana com tons operísticos. Jamais um time tinha reagido depois de tomar três gols seguidos. Depois, vieram os pênaltis, mas o Milan já estava derrotado. A avalanche moral de um Liverpool determinado até a medula já tinha varrido os italianos do mapa.

Como era de se esperar, a imprensa iniciou sua busca por culpados logo a seguir. Carlo Ancelotti, certamente o técnico italiano mais elogiado nos últimos três anos, foi colocado no tribunal. Era necessário um culpado. “O Milan jogou com o resultado na mão”, “Ancelotti errou de não levar Inzaghi para o banco”, “o Milan estava cansado por causa da temporada, porque não poupou mais seus titulares”. Todas essas e mais 94 acusações pesaram sobre a cabeça do técnico.

Pouca gente se lembrou de ver o óbvio: os méritos de um Liverpool que jogou com a garra dos times de outros tempos. Quando os “Reds” desceram ao vestiário com três gols de desvantagem, a torcida inglesa não parou de cantar “You’ll never walk alone” por nenhum minuto. O capitão Gerrard jogou a partida de sua vida, e até o risível goleiro Jerzy Dudek teve sua noite de Lev Yashin, aliás, remetendo a outro goleiro questionável, Bruce Grobelaar, que também foi campeão europeu numa decisão por pênaltis diante de um time italiano.

A partida teve um Milan inquestionavelmente melhor durante quase 90 minutos. Mas durante seis minutos, o Liverpool arrancou o empate num blecaute total da defesa milanista. O que pode fazer um técnico no caso? Não, o Milan não estava cauteloso demais na partida (as estatísticas mostram os italianos muito mais ofensivos), não estava cansado (correu mais que o Liverpool durante quase todo o jogo – os seis minutos à parte), nem fez nenhuma substituição errada.

Se Ancelotti errou em alguma coisa foi em não ter colocado mais um meio-campista no lugar de um atacante no começo do segundo tempo (leia abaixo). Agora, imaginemos o que diriam os nossos comentaristas se Ancelotti sacasse Crespo (que fez dois gols) para colocar Brocchi (o único volante disponível naquele jogo). Adivinhem se ele seria colocado na cruz de cabeça para baixo…

A derrota é um violento golpe no Milan, mas tem de ser interpretado como um resultado absolutamente possível no futebol. Aliás, ter uma final assim foi fantástico para o esporte e valorizou o título dos ingleses como o mais dramático de todos os tempos.

Se o Brasil tivesse perdido (numa hipotética final Brasil x Liverpool), estaríamos ouvindo histórias de que a Reebok comprou o título para o time de Anfield, ou que o centroavante brasileiro teria sido dopado num mirabolante complô envolvendo UEFA, CIA, José Dirceu, Bill Gates e Michael Jackson. Coisa de quem não sabe perder. Foi uma vitória gloriosa do Liverpool e deve ser decantada em prosa e verso.

Quais os erros de Ancelotti?

Buscar culpados para a derrota é muito fácil, agora que o placar está definido. O máximo que não foge à justiça é agora apontar problemas que explicam a derrota milanista fantástica de Istambul. Claro que devemos levar em conta que fazer isso agora é incrivelmente mais fácil do que evitar os mesmo erros. Se Dudek não tivesse feito duas defesas antológicas na prorrogação e se o Milan tivesse batido a Juventus em San Siro (duas coisas que poderiam ter acontecido facilmente), e todo o resto tivesse sido exatamente igual, Ancelotti estaria agora no Olimpo dos treinadores lendários.

Um dos problemas que certamente tiveram influência na derrota de Istambul foi o das contusões sofridas por jogadores-chave do elenco durante a temporada. Shevchenko (45 dias), Pancaro (40 dias), Pirlo (30 dias), Stam (60 dias), Ambrosini (ausente na final) e Inzaghi (praticamente a temporada toda) diminuíram a margem de manobra do técnico romagnolo, que teve de dar menos descanso para os outros titulares, a fim de manter o seu esquema de jogo intocado.

E antes que se jogue a culpa em cima da preparação física, cabe uma lembrança. Exceção feita à Ambrosini, todas as lesões do Milan citadas tiveram origem traumática, ou seja, foram causadas por choques de jogo. Nestes casos, a responsabilidade da preparação física diminui sensivelmente, pois há pouco que se possa fazer para evitar que um choque torça um tornozelo ou cause uma lesão óssea.

Se Ancelotti tivesse sido um pouco mais flexível, poderia ter usado mão de um 4-4-2 tradicional (como fez nos dois últimos jogos do campeonato) para que elementos subutilizados do elenco jogassem mais minutos. Jogadores como Serginho, Brocchi, Dhorasoo, Ambrosini e Rui Costa não rendem tanto no 4-3-1-2 do Milan, mas teriam sido úteis em partidas regulares do campeonato. A conseqüência teria sido contar com Pirlo, Seedorf, Shevcenko e Maldini (por exemplo) menos exaustos na reta final.

No caso de Inzaghi, sua ausência foi mais delicada. O Milan jogou com somente um atacante no banco durante toda a temporada, e quando Sheva estava contundido, nem isso. Se o elenco tivesse os quatro atacantes durante todo o ano, o ucraniano teria chegado à Istambul mais descansado, e Ancelotti teria o italiano como alternativa para abrir a defesa inglesa.

Durante a partida, Ancelotti cometeu um erro tático. Quando Rafa Benitez sacou o lateral Finnan e mandou o volante Hamann a campo, visava ganhar a posse de bola no setor, e foi ali que nasceram os três gols do L’Pool. Observando friamente, Ancelotti deveria ter tirado um atacante (já que Kaká era o melhor milanista em campo), e colocado um volante para manter a posse de bola.

O técnico italiano não tinha, no entanto, seu melhor jogador nessa função (Ambrosini). Teria então, de mandar Brocchi a campo, no lugar de Crespo (que tinha marcado dois gols). A questão é: que treinador no mundo teria tido coragem de tirar um atacante que fez dois gols numa final de Liga dos Campeões para escalar um volante limitado tecnicamente?

E agora?

O futuro do Milan não está em risco, e só uma burrice anômala pode fazer com que o clube demita um técnico que chegou a duas finais de Liga dos Campeões, um título italiano, uma Copa Itália em três anos. “As chances de Ancelotti ficar no Milan são de 2738%”, disse o vice milanista, Adriano Galliani.

O elenco, contudo, sofrerá alterações consideráveis. O goleiro Abbiati, o defensor Kaladze os meio-campistas Dhorasoo e Brocchi estão quase que certamente de saída. O atacante Tomasson deve ser vendido caso o Milan consiga manter Crespo e contratar Gilardino (duas prioridades). Serginho não oferece garantias de eficiência, e tem boas chances de sair. Quanto ao zagueiro Costacurta, é possível que o clube o mantenha até o final da temporada que vem, mesmo sem contar com ele como uma peça válida do elenco, porque “Billy” deve se aposentar (mas só acredite depois que vir a aposentadoria).

O Milan já fez duas contratações: o meio-campista suíço Johan Vogel e o ala-lateral tcheco Marek Jankulovski. O clube precisa de mais um zagueiro central (provavelmente um jovem italiano), um goleiro e um atacante (dois, se Crespo não ficar). Nomes? Vucinic (atacante do Lecce) é o nome que parece mais consistente se Crespo não ficar e Tomasson for mesmo vendido. O mais importante para a próxima temporada é lamber as feridas e chegar ao próximo italiano com o sangue na garganta.

Agonia sem fim

38 rodadas não foram suficientes para definir os três rebaixados do campeonato mais duro do mundo. Na bacia das almas, Fiorentina, Siena e Chievo se salvaram, o Brescia caiu para a Série B (o clube Lombardo não conseguiu ficar na Série A sem Roberto Baggio), e Bologna e Parma prolongaram seus sofrimentos ao marcarem um desempate para saber qual é o terceiro condenado.

A Fiorentina conseguiu a salvação mais sofrida. A vitória por 3 a 0 em cima do Brescia sacramentou a queda do time “Rondinelle”, evitando um rebaixamento que teria sido escandaloso, porque o clube toscano gastou cerca de € 35 milhões, achava que ia para a Liga dos Campeões e quase caiu. O rebaixamento vai morder pelo menos mais um clube bem tradicional, entre Bologna e Parma.

Já começou também a dança dos técnicos. Entre os três grandes (Juventus, Inter e Milan), provavelmente nenhuma mudança. Roma, Lazio e Fiorentina certamente terão novos treinadores, e vários dos pequenos mudam o comando. Destaque também para a vaga na Liga dos Campeões para a Udinese, que é a primeira do clube friulano, e que deve despejar uma boa grana nos cofres do time.

– A Inter quebrou o recorde de empates em uma única temporada com as 18 igualdades que conseguiu neste campeonato.

– O presidente do Siena assegurou que o brasileiro Taddei já é jogador da Roma

– Outro brasileiro, o meia Zé Roberto, do Bayern Munique, também orbita em torno do clube de Trigoria.

– O diretor de futebol do Lecce, Pantaleo Corvino, pediu demissão do clube salentino para assumir a Fiorentina.

– Corvino é extremamente bem cotado no futebol italiano pela sua capacidade de encontrar jogadores pouco famosos que se dão excelentes resultados, como os atacantes Bojinov (Fiorentina) e Chevantón (Mônaco).

– Na Juventus, a prioridade zero de contratação é o coringa defensivo Essien, do Lyon.

– O lateral Kaladze está praticamente acertado com o Chelsea.

– A transação só não se dará se Milan e Chelsea não acertarem os valores quanto à transferência de Crespo.

– A última seleção da semana da temporada da TRIVELA traz um destaque para os clubes que estavam na luta contra o rebaixamento, como Fiorentina, Chievo e Bologna.

– Eleftheropoulos (Messina); Capuano (Bologna), Castelini (Sampdoria), Cannavaro (Juventus) e Falsini (Siena); Di Livio (Fiorentina), Maresca (Fiorentina), Barone (Palermo); Nedved (Juventus); Zola (Cagliari) e Toni (Palermo)