Quem ligou a TV nos momentos finais do jogo entre Milan e Inter pela Liga dos Campeões tomou um susto. O gramado nem sempre verde do Giuseppe Meazza estava tomado pelo fogo como se tivesse sido bombardeado. E na verdade, foi. Quando estavam arremessando objetos no campo, os marginais da curva interista não sabiam, mas tinham deflagrado uma guerra que não pode acabar enquanto um lado não for eliminado: o futebol ou os exércitos organizados das arquibancadas.

As cenas dantescas de San Siro varreram o mundo e encheram a Itália de vergonha, numa das piores semanas da história do ‘calcio’. A “Vergonha sem fim”, como estampou a Gazzetta Dello Sport, no entanto, não ficou em branco, e os criminosos disfarçados de torcedores começaram a receber uma dura resposta do governo, ainda que alguns dirigentes tenham ficado com onda. O futebol assumiu a “Tolerância Zero”, cuja política é “al primo petardo, tutti a casa” (“no primeiro petardo, todo mundo para casa”), cujo escopo é auto-explicativo.

Vale lembrar que o sinalizador que atingiu Dida foi só a ponta do iceberg. Uma semana antes, a torcida da Lazio tinha dado um macabro espetáculo em Roma, empunhando suásticas e faixas ofensivas. E um dia depois do jogo de Milão, batalhas campais tiveram lugar em Turim, onde torcedores ingleses e italianos enfrentaram a polícia (sim, ingleses também).

O governo anunciou que estádios inadequados serão fechados, clubes cuja torcida se comportar mal serão penalizados, e que a segurança dos jogos será paulatinamente passada para o controle dos clubes, e estes que se virem para frear os gatunos coloridos e embandeirados.

O primeiro round do confronto entre autoridades e criminosos teve um saldo positivo sob o ponto de vista da violência: praticamente nenhum episódio ocorreu em toda a Itália. Mas houve um preço: vários estádios tiveram arquibancadas vazias, especialmente em jogos de risco como Atalanta x Brescia. É líquido e certo que a ausência das organizadas faz parte da pressão das mesmas para que os clubes derrubem o pacote “antiviolência”.

Só que há mais um complicador para a situação: não foram os clubes que decidiram as novas medidas de segurança, e sim o governo. Assim, para que haja um amolecimento, os governantes têm de mudar de idéia, e sobre esse assunto, esquerda e direita italianas parecem estar unidas. A presepada acaba, por bem ou por mal.

A Itália foi duramente atingida nos incidentes. Primeiro, que a imagem italiana na Europa ficou besuntada de podridão. Segundo, que a candidatura italiana para sediar a Eurocopa de 2012 ficou praticamente inviável, a menos que o país passe por uma reforma radical nos estádios. Terceiro, porque a Inter perdeu o mando de quatro jogos (que vale dizer que joga fora de casa até as semifinais da próxima LC, no mínimo).

Aberto o bueiro…

Se souber administrar a crise, o futebol italiano pode tirar vantagem dos incidentes. Finalmente a força das torcidas organizadas – verdadeiras máfias fantasiadas – está sendo adequadamente avaliada pelas autoridades italianas, que, no mínimo, faziam vista grossa para o real estado das coisas.

Quase todos os clubes têm torcidas com força política dentro dos clubes. Os líderes desses grupos já tem surpreendente poder sobre escolha de técnicos, compra e venda de jogadores, presença de dirigentes e outros detalhes que deveriam passar longe da arquibancada. Em troca, esses “torcedores” dão apoio durante os jogos e fazem as pressões necessárias para os dirigentes, sempre que preciso.

Muito se discute sobre as razões que fizeram a Itália chegar nesse estado de coisas, mas alguns pontos parecem nítidos. O primeiro é a culpa da imprensa italiana e sua obsessão pelos “tira-teimas” que incriminam os árbitros. A discussão eterna sobre erros e acertos de árbitros fez com que os torcedores sempre achem que seus times estão sendo roubados, e conseqüentemente, deram desculpas a dirigentes toscos para sua incompetência. A título de exemplo, na derrota do Palermo para a Samp, no sábado, o diretor do Palermo, Foschi, disse que “o bandeirinha deveria ser preso” pelo lance do pênalti que deu a vitória aos genoveses.

Os jogadores também colaboram para deixar os torcedores à beira da histeria, quando simulam faltas, berram com árbitros, dão chiliques e se comportam como sempre houvesse um culpado “escondido” pela derrota. Na Itália, hoje, há uma pressão insuportável causada por esta falta de confiança nas instituições – no caso, o árbitro e seus braços burocráticos da Justiça Desportiva – e essa pressão torna o clima insustentável.

E para alinhavar a crise de confiança nas instituições esportivas, está a impunidade que permeia o futebol italiano da última década: todos os delitos e contravenções realizados no futebol dos últimos anos acabaram em pizza ou em punições brandas. Doping de jogadores, passaportes falsos (escândalo que – lembremos – envolveu o próprio Dida, em 2000), apostas suspeitas, brigas de torcidas (como aquela em que a torcida da Inter arremessou uma moto na torcida da Atalanta), balanços de clube forjados, viradas de mesa…Todos esses e vários outros exemplos negativos deixam a impressão de que a lei pode ser desrespeitada sem nenhum ônus.

Chegou a hora da Itália demonstrar se tem um sistema penal decente ou se é uma republiqueta. O estado caótico do futebol italiano é um reflexo da permissividade de seus dirigentes em relação aos próprios deslizes. A Inglaterra só acordou quando quase 100 pessoas morreram no desastre de Hillsborough. Ali, o futebol foi levado para dentro da lei. Na Itália, muitos sentem que é hora de se fazer o mesmo. Se ninguém fizer nada já, terá de fazer quando acontecer uma tragédia similar à Hillsborough.

Juventus “quid pro quo”

Quem desse uma olhada na “minutagem” dos jogadores juventinos no final de 2004 já poderia vislumbrar o que aconteceu na semana passada. Nomes como os de Buffon, Cannavaro, Nedved, Ibrahimovic, Thuram e Emerson estavam quase sempre entre os titulares iniciais. Uma hora, a fadiga cobrar a sua conta. E quem viu a Juventus diante do Liverpool percebeu que a fatura chegou.

Fabio Capello tem um time ‘world class’ nas suas mãos, mas só um time titular. Sempre que precisou usar substitutos, como Montero, Tacchinardi, Kapo ou Olivera, a Juve perdeu força. Assim, os titulares foram espremidos e seu fôlego chegou ao fim. A vaga do Liverpool é justa e o time inglês jogou com extrema inteligência, mas a Juve em seu ‘top’ físico não teria perdido a vaga de modo algum.

Além da falta de fôlego, Capello sofreu com o estado físico de alguns jogadores. Nedved voltou arrebentado da Eurocopa; Trezeguet passou toda a temporada com problemas no tornozelo; Del Piero jamais esteve em seus ‘standards’ (física e tecnicamente). Dos homens chave, somente Cannavaro, Emerson e Ibrahimovic estiveram disponíveis quase ‘full-time’. Muito pouco para enfrentar campeonato e copas.

Mas a Juventus não deve ceder a eliminação européia de graça. Uma vez que teve de abrir mão de cerca de €15 milhões da LC, além da glória européia, a equipe de Turim vai cobrar seu sacrifício com uma determinação ímpar para conquistar o ‘scudetto’. Sem outros compromissos, a Juve passa a ser favorita, ainda que tenha um elenco inferior ao do Milan. É verdade, o Milan só terá três partidas a mais (isso se chegar à final), mas o consumo de energias psicológicas e físicas é imenso.

O 5 a 2 da Juve sobre o Lecce é um claro sinal de raiva da Juventus. Não que o Lecce seja um adversário difícil de bater. O time de Zeman joga abertíssimo e é uma presa fácil para os ‘grandes’. Mesmo assim, vale lembrar que a Juve jogou na terça, e o Lecce não, e ainda assim, conseguiu uma virada com autoridade. Claro, o título ainda está a 7 rodadas, mas o time de Capello volta a ter uma vantagem consistente. Nem tanto pelos três pontos, e sim, pelo calendário menos pesado.

– Siena e Milan se enfrentaram quatro vezes na Série A, sempre acabando com o placar de 2 a 1.

– Pela primeira vez, o resultado foi favorável ao time toscano.

– A seqüência de vitórias seguidas da Atalanta se encerrou com a derrota em Brescia.

– Já eram nove pontos nos três jogos anteriores.

– A derrota do clássico lombardo foi a 11a em 15 jogos feitos pelos ‘Orobici’ fora do “Atleti Azzurri D’Italia”.

– A Juventus parece mesmo decidida a pescar os talentos do Lyon.

– Depois do interesse no coringa defensivo Essien, agora a Juve parece interessada também no atacante Malouda.

– O defensor romeno Chivu alertou a Roma que não fica no clube se as incertezas sobre o futuro continuarem.

– Inter, Juve e Milan acolheriam o romeno de braços abertos.

– O atacante italiano Di Vaio foi afastado do elenco do Valencia; sua cessão no fim da temporada é dada como certa.

– A Inter, é claro, está na parada.

– Aliás, a Inter prepara uma maxi-limpeza para o final da temporada.

– Toldo, Coco, Materazzi, Mihajlovic, Emre, Davids, Julio Cruz, Recoba, Karagounis, Vieri e Zé Maria estão previamente listados para escutar ofertas de outros clubes.

– Neste final de semana, a Juventus teve o primeiro pênalti marcado contra si.

– O Lecce converteu a cobrança, mas já era tarde: os juventinos já venciam por 5 a 1.

– O brasileiro César completou 100 jogos na Série A pela Lazio.

– Esta é a seleção TRIVELA da 31a rodada.

– Iezzo (Cagliari); Bonera (Parma), Cannavaro (Juventus), De Rosa (Reggina) e Grosso (Palermo); Giannicheda (Lazio), Donati (Messina) Coppola (Messina); Ibrahimovic (Juventus), Lucarelli (Livorno) e Bonazzoli (Reggina).