“O importante é competir”. A frase ficou famosa na boca do Barão de Coubertin, idealizador dos Jogos Olímpicos modernos, embora provavelmente seja bem mais antiga que ele. Vencedores e vencidos estavam, na verdade, se confraternizando, e ‘jogar para vencer’ era até mesmo um insulto, por exemplo, nos momentos de origem do futebol na Inglaterra.

Se tudo isso foi verdade um dia, acabou. ‘Finito’. Chega. Graças a milhões e milhões de dólares em jogo, a competição é um item irrelevante. O importante, mais do que nunca, é vencer. E se houve um campeonato italiano onde isso ficou arreganhadamente claro, é o desta temporada. Jogando mal, bem, com gol contra ou com um míssil caindo no goleiro adversário, o importante é jogar os três pontos no cesto e olhar para o fim de semana seguinte.

A Juventus é historicamente conhecida pelo seu cinismo e pela sua capacidade de arrecadar os três pontos, independentemente da qualidade de seu jogo. Não há, no mundo, um clube mais habituado a vencer jogando mal ou bem. E não que a Juve nunca jogue bem. Joga, na maioria das vezes. Mas mesmo quando joga mal, dificilmente perde.

Com a chegada de Fabio Capello, jogou-se o sapo na água. Capello e Juve têm naturezas semelhantes, e o esquadrão ‘bianconero’ deste ano raramente engatou uma terceira marcha. Contra a Udinese, sofreu, gemeu, mudou de esquema várias vezes durante o jogo, mas arrancou a vitória. Não por acaso, ainda é líder.

A novidade deste campeonato fica mais em cima do Milan. O time espetacular de Carlo Ancelotti parece ter aprendido a maquiavélica lição dos piemonteses. Ou seja: o ideal é jogar bem, mas o fundamental é vencer. E assim tem sido. O Milan jogou pouquíssimas partidas bem durante os noventa minutos. Às vezes jogou um tempo; às vezes nem isso. Mas os artistas como Kaká, Seedorf, Shevchenko e Maldini não aceitam mais somente três pontos em bandeja de prata. Os exigem, nem que seja num prato de papelão.

Sem o maestro Pirlo (o melhor do mundo na sua posição), o Milan que foi à Reggio Calábria engasopava como um velho carro com o carburador danificado. Venceu com um gol contra de extrema falta de sorte do zagueiro Zamboni. Mas se deu por satisfeito. O “futebol-champagne” que o Milan apresentou nos últimos dois anos ainda não deu as caras, e mesmo assim, como a rival alvinegra, os pontos se acumulam.

Não há liga no mundo onde o resultado conte tanto como na Italiana. Todo mundo quer ganhar, claro, mas para o italiano, perder é como uma hecatombe, um ‘tsunami’ semanal. E os treinadores mais experientes sabem disso. Para se chegar ao entrosamento e ao futebol bem jogado, só se os resultados forem positivos. Os críticos que exigem futebol bonito são os primeiros a descer a lenha em caso de derrota, mesmo que com um futebol estratosférico. Maquiavel não poderia ter nascido em outro lugar mesmo.

Ninguém ama como em Napoli

Não é novidade que a torcida do Napoli é a quarta da Itália. Perde somente para Juve, Milan e Inter. Nem que o estádio San Paolo é a arena mais calorosa do país. Com a queda do Napoli para a Série B, os públicos diminuíram – naturalmente. E a queda para a Série C fez muitos duvidarem da continuação da existência da Societá Sportiva Napoli.

Na semana passada, um espetáculo sem precedentes na história do futebol encheu os olhos dos amantes do esporte. O estádio partenopeu recebeu nada menos que 63 mil pessoas para uma partida contra a Reggiana (equipe da Reggio Emilia, e não a Reggina, da Reggio Calabria). Não, não era uma final, não era nenhum jogo especial. Era uma partida comum.

Foi o sétimo maior público da temporada de futebol italiana; sendo que os outros seis eram divididos entre Milan e Inter. E foi também o maior público de uma partida de campeonato de terceira divisão da história do futebol europeu (sem contar finais ou playoffs).

Como explicar? Não dá. Ou você entende ou não entende. “Se você tiver de perguntar o que é, é porque você jamais vai saber”, como Louis “Satchmo” Armstrong explicava o jazz, é uma frase que abrange bem, o fenômeno. Napoli é o âmago da Itália; talvez sua cidade mais significativa, em suas contradições, paixões, talentos, defeitos, desgraças e virtudes.

O time do Napoli é, de fato, tecnicamente muito bom para a Série C, e deve ser promovido para a segunda divisão, caso não haja uma gestão muito ruim de seus recursos futebolísticos. Neste último final de semana, o derby contra o Avellino (vice-líder), em Avellino, teve 25 mil pessoas de público. Com 36 pontos e a 13 do Rimini líder do grupo B da C1, ainda há luz no fim do túnel napolitano. Não dá para não torcer a favor.

Milan a quatro pontas?

O desembarque do ‘typhoon’ russo Roman “Chelski” Abramovich em Milão, no último domingo, levantou, como sempre, a boataria de mercado. O russo gosta de se vestir bem, mas não precisa ir à Milão para comprar Armani sob meduda. A viagem do magnata gira em torno de futebol e tem assuntos vestidos de azul-e-preto e de vermelho-e-preto.

Na casa milanista, a conversa gira em torno da permanência de Crespo nas linhas dos “Diavoli”. O atacante argentino pertence ao Chelsea, mas o Milan dá claros sinais de que gostaria de mantê-lo em Milanello, desde que Abramovich não queira um oceano de dinheiro por seu passe. Fala-se na entrada de Kakha Kaladze e Jon Dahl Tomasson na negociação, mas não é uma hipótese muito realista, no caso de Tomasson.

Isso, porque o Milan está acertado com o atacante Alberto Gilardino, do Parma, segundo consta. Se fosse assim, Ancelotti abriria mão de seu único homem de frente “versátil” para ter um elenco com quatro centroavantes natos: Shevchenko (incedível até a medula), Inzaghi, Crespo e Gilardino. Como Inzaghi acabou de renovar seu contrato até 2008, a interrogação sobre qual será o grupo de atacantes milanistas em 2005 deve perdurar por mais alguns meses. No caso de Kaladze, a negociação faria algum sentido, porque Marek Jankulovski, externo tcheco da Udinese (que pode jogar na defesa e no meio-campo), também está acordado com o Milan, e supriria a partida do georgiano.

Em azul-e-negro, os nomes são outros. A Inter parece querer manter Verón, também com seu passe ligado ao Chelsea. Mas o que o clube de Stamford Bridge realmente sonha é com o brasileiro Adriano. Diz-se que o milionário russo estaria disposto a colocar na mesa uma soma ignorante de € 70 milhões para tirar o atacante da Inter, e por melhor que Adriano seja, é difícil imaginar que não sairia negócio (especialmente se imaginarmos que os agentes envolvidos na transação devem sonhar avidamente com suas parcelinhas).

Moggi sob atque. De novo

Se onde há fumaça, há fogo, então não dá para acreditar que Luciano Moggi não esteja envolvido em algum escândalo no futebol italiano. O diretor-geral da Juventus já sofreu acusações de chantagear jogadores para assinarem com a Juventus (Davids, Stankovic), de favorecer a contratação de atletas que usam os serviços da GEA (empresa de ‘management’ de jogadores, liderada pelo seu filho, Alessandro Moggi), de induzir clubes a resultados negativos pela influência sobre árbitros.

Agora a acusação foi mais direta, mais clara e mais violenta. Ermanno Pieroni, numa entrevista dada ao jornal “La Repubblica”, sentou a bota em Moggi e não escondeu nomes. Pieroni era presidente do falido Ancona, e esteve preso por gerência fraudulenta. “Ganhei dinheiro com com a corrupção no futebol, mas não ganhei um por cento do que os outros ganharam. Paguei salário por fora, soneguei impostos, mas fui para a cadeia”, diz Pieroni.

“O meu pior inimigo é Luciano Moggi. Se alguém me prejudicou, ele está no topo da lista. Quando eu era diretor do Perugia, em 2000, o clube tirou o título da Juventus num jogo sob uma tempestade. Na terça anterior ao jogo, que vencemos por 1 a 0, Luciano Gaucci (presidente do Perugia) me disse que se não jogássemos nossas vidas, eu estaria em risco. A verdade é que a Lazio não podia perder o título dois anos seguidos (n. do c.: tinha perdido o tpitulo anterior para o Milan). Depois eu soube de tudo: a Capitalia (poderoso grupo bancário italiano) fazia parte do conselho administrativo da Lazio, mas já tinha nas mãos todas as ações do Perugia”, conta Pieroni.

Depois de deixar o Perugia, Pieroni foi para o Torino, mas já estava “jurado” por Moggi, segundo ele conta. “Em Turim, fui demitido do Torino por pressão de Moggi. Em 2002, seu filho Alessandro queria por jogadores no Ancona, mas eu disse: ‘se você tocar no Ancona, te levo à Justiça’. ‘Deixe os tribunais para lá; temos muitos conhecidos e podemos te fazer muito mal’, me respondeu Moggi.”

“Ele controla, através de seus homens, oito dos vinte clubes da Série A. Agora está pressionando para que Franco Baldini (diretor de futebol da Roma) seja demitido e que Mariano Fabiani seja colocado em seu lugar. Na Lazio, já colocou Gabriele Martino, que é fiel a ele. Com a GEA, controla 200 jogadores e treinadores. Tirou Luigi Simoni do Siena, para colocar um treinador da GEA (Luigi Di Canio), e em troca, ‘emprestou’ ao clube atletas fora do alcance do clube, como Tudor. Sua próxima vítima será Boniek, que na ‘Domenica Sportiva’, sempre diz a verdade. É um homem vingativo, e me destruiu”. Afe!

– Nenhum time marcou tantos pontos em casa como a Juventus desta temporada

– Foram 29, até aqui

– Curiosamente, o Milan é o time que mais fez pontos como visitante

– Foram 27 os pontos conseguidos longe do terrível gramado de San Siro

– O visitante de pior performance é o Cagliari

– Foram seis pontos em 33 disputados fora da Sardenha

– Capítulo mercado: caso a Inter contrate todos os defensores pelos quais está interessada, provavelmente Mancini precisará de uma permissão da Fifa para escalar 15 jogadores

– Até agora, já se falou em Luisão (Benfica), Samuel (Real Madrid), Bonera (Parma), King (Tottenham), Parisi (Messina)…

– A bola da vez é Samuel Kuffour, do Bayern

– O Lecce não suscita mais tanto falatório da imprensa, mas, quietinho, segue fazendo excelente campanha, e já marcou mais pontos no returno do que na primeira parte do torneio, em cinco rodadas

– Isso, tendo vendido seu maior jogador (Bojinov), e tendo estreado do time principal nada menos que cinco jogadores das divisões de base nos últimos três jogos

– O bom trabalho de Zeman já faz com que a Lazio comece a trabalhar para tê-lo de volta ao Olímpico na próxima temporada

– E esta é a seleção Trivela da 24a rodada da Série A italiana

– Rosina (Lecce); Castellini (Sampdoria), Mihajlovic (Inter), Córdoba (Inter) e Rullo (Lecce); Camoranesi (Juventus), Giacomazzi (Lecce), Liverani (Lazio) e Cassetti (Lazio); Miccoli (Fiorentina) e Bazzani (Lazio)