Mês: fevereiro 2005

É inédito!

Quando se encerrou a 21a rodada, a Juventus de Fabio Capello foi para o vestiário cheia de si. Tinha aberto oito pontos de vantagem sobre o atual campeão, Milan, e se apoiava em vários fatos para sentir o cheiro de ‘scudetto’. Primeiro, o peso da camisa juventina, líder por natureza; segundo, um elenco de estrelas, com Trezeguet e Nedved em recuperação; terceiro, o fato de que sempre que Capello chegou à 21a rodada com uma vantagem de oito pontos, ele foi campeão.

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O importante é vencer

“O importante é competir”. A frase ficou famosa na boca do Barão de Coubertin, idealizador dos Jogos Olímpicos modernos, embora provavelmente seja bem mais antiga que ele. Vencedores e vencidos estavam, na verdade, se confraternizando, e ‘jogar para vencer’ era até mesmo um insulto, por exemplo, nos momentos de origem do futebol na Inglaterra.

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Derrubando previsões

Na semana passada, depois da rodada de número 21, a Itália era unânime em afirmar: o campeonato italiano estava irremediavelmente entregue à Juventus, e o time do Piemonte só não seria campeão se não quisesse. Os motivos eram vários: as duas derrotas seguidas do Milan na Série A, a infalibilidade de Fabio Capello em manter vantagens conquistadas, a contusão de Shevchenko, o cinismo maquiavélico da Juventus, entre outros.

Não era só a crítica que já via a Juventus campeã italiana. A certeza era tamanha que, o próprio Fabio Capello, no treino de segunda-feira, no ginásio do time, falou em tom descontraído e, embora não tenha admitido que o título estava ganho, falou aos seus jogadores: “Com oito pontos de vantagem, só perderemos esse título para nós mesmos”.

O que parecia uma lição de autoconfiança acabou sendo um episódio de quase-profecia. Sete dias depois, a diferença da líder para o Milan caiu de oito para dois pontos, Shevchenko, esperado para voltar em três semanas, já voltou e até fez gol, Del Piero virou um caso de vez na Juve, e para embaraçar de vez a situação, fechou-se o mercado, onde a líder poderia dar um retoque. Previsões? Quem quiser se arriscar que tente, porque o Italiano voltou a ficar imprevisível. E quem disser que “já vinha dizendo” o contrário, está mentindo.

Resumo de mercado

Surpreendendo as expectativas – sempre bem alimentadas por empresários malandrões – o mercado de transferências de janeiro se fechou na Itália sem nenhuma contratação de peso por parte dos gigantes do país. Quem tomou a vez de “campeã” do mercado de inverno foi a Fiorentina, que, somada a quantia gasta no verão europeu, chegou à casa dos € 52 milhões gastos em contratações. O golpe de cena foi a aquisição do atacante búlgaro Valeri Bojinov, que era cortejado por vários grandes europeus, e chegou a ter proposta do Chelsea. Nesta semana, vamos dar uma olhada em como foi o mercado de cada um dos 20 clubes da Série A italiana.

Atalanta

Fez uma verdadeira revolução no elenco, cedendo nove e contratando oito jogadores. Apesar da quase igualdade numérica, o saldo geral é negativo, porque perdeu o cérebro do meio-campo (Albertini, destino Barcelona), Damiano Zenoni (Udinese) e o jovem atacante Pazzini. Já estava em maus lençóis antes das trocas. Dificilmente reverte a tendência de rebaixamento. Tinha problemas de ataque; agora também os têm no meio-campo.

Bologna

Importantes as contratações do zagueiro Legrottaglie (Juventus) e do veterano atacante Ferrante. O ex-juventino, caso se recupere dos problemas físicos que o afligem há mais de um ano, consolidará a solidez defensiva que ‘jantou’ o Milan em San Siro. Ferrante pode ser a opção a Bellucci, uma vez que os outros atacantes do elenco têm se machucado bastante.

Brescia

Foi buscar em Roma o experiente atacante Delvecchio; se for utilizado como meia-atacante, pode formar uma dupla eficiente com o centroavante Caracciolo. Outro nome que pode se destacar é o do volante camaronês Wome, bom na marcação, com várias passagens por clubes italianos. A esperança é que Wome faça o papel que se esperava de Almeyda – o de um eixo de referência no meio-campo.

Cagliari

Duas operações a se destacar. A primeira a chegada de um goleiro experiente, Brunner, para substituir o grego Katergiannakis, que pediu rescisão de contrato; a segunda, do meio-campista Budel, que pode ser a solução para a inconsistência do setor.

Chievo

A se sublinhar, somente a contratação do goleiro flamenguista Júlio César, comprado pela Inter e emprestado ao clube de Verona. No mais, o defensore parmigiano Potenza pode se firmar jogando num time menos aflito que o Parma.

Fiorentina

De longe, a que mexeu mais fundo, a ponto de reduzir a idade média do elenco, deixando claro que faz um projeto para o futuro. Além do búlgaro Bojinov (certamente um investimento), também é relevante a presença de Donadel no meio-campo, para o técnico Zoff dispor de um homem de marcação mais forte. Bojibov e Pazzini são mais famosos, mas taticamente, Donadel é o que vai ser mais útil imediatamente.

Internazionale

Sem nenhuma contratação que valha menção imediata.

Juventus

Tirar Adrian Mutu do Chelsea a custo zero foi realmente uma tacada de mestre de Luciano Moggi, diretor geral da Juventus. Se Mutu não for ficar no elenco juventino, servirá como moeda de troca preciosa, por se tratar de um jogador de excelente nível, facilmente recuperável. As saídas de Iuliano Tudor e Legrottaglie diminuem as opções para Capello, mas melhoram o ambiente num elenco que tinha muitos nomes para a defesa.

Lazio

Fez uma troca mais tática do que outra coisa: mandou à Sampdoria o atacante Simone Inzaghi e recebeu Bazzani, um jogador de mais peso na área, para fazer dupla com Di Canio ou Rocchi. Na defesa, poderiam ter vindo reforços que estão fazendo falta.

Lecce

Perder Bojinov é um duro golpe, mas encher o bolso com € 13 milhões não faz mal a ninguém (especialmente se lembrarmos que Bojinov custo cerca de € 80 mil). Se reforçou com o chileno Valdés e com o italiano Cozzolino. Seguramente perde em termos técnicos, mas era impossível dizer não à proposta fiorentina.

Livorno

“Fez um favor” à Juventus, permitindo que Mutu fosse inscrito dentro da sua cota de não-comunitários (que a Juve não poderia fazer), e deve ter o “troco” em junho. O brasileiro Paulinho chegou à cidade toscana cheio de expectativas, por ser a estrela da Seleção sub-20.

Messina

Boas contratações para a equipe meridional. D’Agostino, que chega da Roma, certamente tem tudo para virar o homem de criação do time no meio-campo; Cristante resolve a dependência que o time tinha de Parisi na defesa.

Milan

A cessão de Coloccini ao La Coruña eram favas contadas. O argentino sempre comprometeu quando entrou, mas também nunca teve uma seqüência que lhe desse ritmo. Ancelotti certamente gostaria de poder contar já com Gilardino, do Parma (que, segundo dizem, está contratado para junho), dadas as contusões de Sheva e Pippo Inzaghi.

Palermo

Sai frustrado do mercado. Tentou Bojinov e Julio Cruz (Inter) para dar uma opção a Luca Toni; acabou ficando com Possanzini (bom, mas de características diferentes)

Parma

Para um clube que está numa situação difícil financeiramente, até que saiu bem. Bettarini vai dar consistência à defesa com sua experiência, e Vignaroli é um atacante bastante acostumado a jogar por clubes que lutam contra o rebaixamento. Nenhuma perda que enfraqueça significativamente o time titular.

Reggina

É curioso, mas a Reggina deve ter um reforço num jogador que já estava no elenco. Com a cessão de dois atacantes (Dionigi e Ganci), Marco Borriello (emprestado pelo Milan), deve acabar jogando mais, e certamente tem condições de faze-lo com eficiência.

Roma

Depois de ter espantado o péssimo início de temporada, a Roma fez uma “limpeza” no seu elenco cedendo jogadores caros e que não tinham espaço (como o atacante Mido, o ala Candela, o zagueiro Sartor e o atacante Delvecchio). Abel Xavier é uma contratação intrigante, porque o defensor português não joga com regularidade há mais de um ano. Uma aposta no azarão.

Sampdoria

Cirúrgica, a Sampdoria atacou dois problemas com duas contratações. O primeiro problema, a ineficiência do ataque, deve ser resolvido com um Simone Inzaghi mais motivado; o segundo, a falta de criação no meio-campo, pode ter sua solução em Gasbarroni, que teve ótima passagem pelo clube, quando estava emprestado pela Juventus.

Siena

Outro clube que reformulou o elenco, até para se adequar ao técnico recém-contratado, Luigi Di Canio. Igor Tudor, espectador na Juventus, deve ser tituar absoluto no clube e dar solidez ao seu setor; outro defensor que deve ter espaço é o lateral Pasquale (emprestado pela Inter). Cozza vai ser o regente de meio-campo (trabalhou com Di Canio na Reggina) e o romeno Stoica é a aposta ofensiva, junto com Maccarone (que no Parma também vivia no banco).

Udinese

– Com Damiano Zenoni, o clube de Udine faz uma excelente contratação; muito provavelmente, o meio-campista terá o espaço para aparecer que não tinha na modesta Atalanta.

– O atacante do Livorno, Cristiano Lucarelli completou 300 jogos como profissional; Christian Vieri fez seu centésimo gol pela Série A vestindo a camisa da Inter

– Jankulovski (Udinese) e Gilardino (Parma) são contratações dadas como certas para junho

– Mal chegou ao Palermo e Possanzini já se machucou: menisco operado

– De vez em quando fala-se de “azar” na vida de Filippo Inzaghi, por causa de suas contusões

– Mas como se pode falar de “azar” de uma pessoa que estava numa ilha fortemente atingida pelo “tsunami”, que varreu parte do Pacífico?

– Inzaghi disse que estava tomando café da manhã quando a água começou a entrar, e ele se escafedeu para cima dos telhados e muros, como os locais

– E esta é a seleção Trivela da 23a rodada

– Frey (Parma); Barzagli (Palermo), Biava (Palermo), Maldini (Milan) e Grosso (Palermo); Muntari (Udinese), Corini (Palermo) e Barone (Palermo); Brienza (Palermo); Esposito (Cagliari) e Gilardino (Parma)

Onde nasce o scudetto

Detalhes. Num torneio de alto nível, com os times de ponta equilibrados, é aí que se decide o campeão. O time que vai levantar a taça de campeão italiano na primavera européia de 2005 certamente terá sido favorecido por estes detalhes. E isso até tem um pouco do fator sorte. Mas bem pouco.

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