Não é um fenômeno peninsular. Aliás, a Juventus, único time a conseguir fazer 12 pontos nos primeiros quatro jogos da Liga dos Campeões, mantinha um ritmo que nenhum outro time na elite do continente suportava. A Juve lidera na liga mais dura do mundo, com somente um empate (até sexta passada), enquanto todos os adversários já tinham dado uma respirada em suas ligas, derrubando pontos pelo caminho.

A lógica da coisa é a seguinte: os clubes que disputam a LC, em jogos menos complicados dos seus campeonatos, fazem o “turnover” (rodízio de jogadores), poupando seus atletas mais cansados. Nessas, acontecem os tropeços. Exemplos? Arsenal empatando contra Crystal Palace (e contra Panathinaikos), Chelsea que perdeu pontos para o Tottenham, Bayern fora do topo na Bundesliga. É natural. É impossível, jogando de quarta e domingo, manter um aproveitamento total, tanto pelo cansaço, quanto pela pressão.

Juventus e Milan sentiram o preço da conta da Europa nesta semana. A Juve perdeu seu primeiro jogo no Italiano, para a Reggina, e o Milan perdeu para o Barcelona e empatou com a Roma em casa. Nas duas derrotas dos italianos, era evidente que a maratona de jogos se faz sentir, especialmente nas posições onde lesões estreitaram os elencos.

O mês de novembro e dezembro é tradicionalmente ruim para os times italianos que aspiram ao título europeu. O desgaste físico começa a pesar, em forma de lesões e falta de fôlego, e é o período em que as equipes menores apertam o passo para tentar arrancar pontos teoricamente perdidos. Mais uma vez, não é um fenômeno italiano. O Manchester United, por exemplo, nas últimas temporadas, é marcado por más partidas na Premiership até o início de dezembro, não coincidentemente, enquanto joga as duas competições.

“Ah, mas os times da Espanha, Inglaterra e Alemanha também sofrem com o ‘turnover”. Meia verdade. É possível notar que a ausência dos ‘titulares’ na Itália é mais sentida contra os ‘pequenos’, do que em outros países, por uma série de razões, que vão desde a pressão em caso de derrota (que tem subido na Espanha, mas ainda é mais doentia na Itália), até o fato de o futebol italiano exigir mais fisicamente do que qualquer outro no continente. Não é acaso que os anos de ausência italiana nas semifinais da Champions League tenham coincidido com o aumento do formato do torneio (agora redimensionado novamente).

O título italiano deste ano parece endereçado ao eixo Milão-Turim, com a Milão ‘nerazzurra’ provavelmente como espectadora. A briga européia e a briga doméstica, no caso italiano, estão intimamente ligadas. A menos que a Juve consiga abrir uma folga maior até dezembro, a sorte dos dois torneios se decide a partir de fevereiro, quando, supostamente, os times devem atingir seu auge físico.

Os dois clubes lutam pelos dois títulos, mas a Juventus, até pelo perfil de Fabio Capello, deve apostar na segurança de mais um ‘scudetto’, caso tenha de escolher, porque não corre o risco de uma zebra deixar mais um ano em branco (vale lembrar que o ano passado já foi em branco). O Milan sonha com a LC mais intensamente, por uma série de circunstâncias, entre elas, a de ser o atual campeão italiano. A cautela sugere que, numa temporada tão acirrada, não priorizar uma competição é quase o mesmo que abrir mão das duas.

Faca sem fio

Não é só a exaustão causada pela Liga dos Campeões que está jogando graxa na pista do Milan desta temporada. Um fator, o tardio início da preparação física, visando o auge atlético na reta final, já foi abordado aqui, e certamente também pesa. Mas mais do que os dois acima, o que está sendo um espinho no pé do time de Via Turati é a carência no ataque.

“O que? Eu entendi direito? Carência no ataque”. Isso. Assim como meu colega Tomaz Alves chocou os leitores da “London Calling” ao abordar problema semelhante no Chelsea de Abramovich, a idéia de imaginar o Milan sem opções de ataque é meio desconcertante. Mas verdadeira.

Por partes. Quem é o atacante-rei do time de Ancelotti? Andriy Shevchenko. “Sheva é o único jogador do Milan insubstituível no momento”. O parecer é de Filippo Inzaghi, um “concorrente” de Sheva no ataque milanista. O ucraniano está em estado de graça, marcando um gol por jogo, mas até agora, atuou em todas as partidas oficiais do time, e está visivelmente cansado, e por isso, sentiu dores e foi substituído no empate contra a Roma, dando espaço a um Crespo ‘travado’.

Capítulo Inzaghi: “Pippo” foi operado no tornozelo esquerdo novamente na manhã da última segunda-feira. Inzaghi sofreu com a lesão a temporada passada quase toda; foi operado em fevereiro, mas continuou tendo dores. Esta última intervenção, realizada em Antuérpia, na Bélgica, foi bem-sucedida, mas Inzaghi só volta a jogar em fevereiro.

“E Crespo?”. Muita, mas muita gente fala que “Crespo está acabado”, ou que não consegue entrar em forma. Claro que é bobagem (mais uma entre tantas). Historicamente, Crespo teve adaptações demoradas nos clubes em que chegou. No Parma, então comandado por Ancelotti, em 1996, foi vaiado ferozmente pela torcida, até deslanchar e se tornar o maior artilheiro da história do clube na Série A. Na Lazio, a mesma coisa. Segundo consta, o organismo do jogador demora mais para responder do que o “normal” à preparação. Ou seja: o fato de Crespo estar desambientado não é estranho; é o normal.

Sobra Jon Dahl Tomasson. O dinamarquês é um ótimo jogador, mas não serve para ser centroavante. Quando deixou a Holanda pela primeira vez e foi do Heerenveen para o Newcastle, fracassou retumbantemente, porque era escalado no centro da área. Voltou à Holanda, praticamente rifado, para o Feyenoord. Lá, tendo van Hooijdonk como centroavante, foi o melhor jogador do time na final da Copa UEFA de 2002, vencida pelos “Rotterdammers”. Tomasson se dá bem com Sheva, Inzaghi ou Crespo, mas precisa de uma referência na área.

Assim sendo, o Milan já cogita a possibilidade de ir ao mercado em janeiro para reforçar o setor, caso Crespo não deslanche. Corradi (sub-utilizado no Valencia) e Gilardino (do Parma, mas que já trocou cortejos com o Milan) são os nomes mais prováveis. O risco que o Milan corre é o de perder terreno entre hoje e 1o de janeiro, quando reabre o mercado de jogadores. Se Shevchenko se machucar, Ancelotti tem uma boa dor de cabeça para resolver.

O desenho do mercado

É bastante provável que o fronte italiano do mercado europeu de jogadores tenha movimentações relevantes em janeiro. Juventus, Milan, Inter e Roma, todos devem fazer retoques. Uns por acidentes, outros por hábito. Sorte dos empresários, que acabam fazendo uma boa grana sem esforço.

A Juventus não está desesperada, mas pode reforçar o seu ataque, uma vez que Trezeguet se lesionou, assim como Del Piero. Zalayeta tem entrado bem, mas Capello está no conta-gotas, sem nenhuma folga. Além disso, existe o interesse juventino por Cassano, embora a Roma garanta que o “enfant térrible” de Bari Vecchia não deixe Trigoria antes de junho.

No Milan, como dissemos no excerto anterior, é praticamente certa a contratação de um avante, e Corradi (Valencia) e Gilardino (Parma) são os nomes mais prováveis. Gilardino tem a vantagem de poder jogar na Liga dos Campeões. O meio-campista Dhorasoo, que foi contratado a custo zero, pode ser envolvido na negociação, para diminuir o montante de dinheiro a ser investido. Também em Milanello, o nome de Cassano suscita interesse.

A Inter segue sua esquizofrenia comercial. O time que foi decantado um mês atrás agora não serve mais. E se fala agora em Vincent Kompany (Anderlecht) para a defesa e Malouda (Lyon) para a faixa-esquerda. Um estrambólico negócio com o Milan, ondeo goleiro Abbiati iria para a Inter e o meia turco Emre iria para o Milan também foi ventilado, mas parece mais com ficção científica.

Na Roma, a ruptura com Cassano é definitiva. Só que o clube da capital não quer ceder seu jogador para reforçar uma concorrente. Logo, preferiria vende-lo ao estrangeiro, onde, claro, o Real Madrid se coloca como pretendente. Questão: Cassano vai jogar onde? Na zaga? Entre as possíveis compras, o brasileiro Taddei (Siena), que já tinha sido contatado em junho; o lateral Adriano, do Coritiba (que já estaria vendido), também figura na lista.

Fernando Couto (Lazio) e Portanova (Siena), os dois marcadores no empate de 1 a 1 entre Lazio e Siena, são os artilheiros das respectivas equipes

Detalhe: ambos são zagueiros

Quando joga o Lecce desta temporada, pode-se ter uma certeza só: muitos gols acontecerão

Nas 10 partidas até aqui, foram 42, entre marcados e sofridos; uma média de 4,2 por partida

A média da Série A deste ano é de 2,5 gols por jogo, a mais baixa dos últimos três anos

Série B: Empoli, Genoa e Torino os times na zona de promoção

Seria a primeira vez em muitos anos que Genova e Turim voltariam a ter dois times cada uma na primeira divisão

Esta é a seleção Trivela da 10a rodada da Série A

Berti (Parma); Dainelli (Fiorentina), Falcone (Sampdoria), Mexés (Roma) e Rullo (Lecce); Marchionni (Parma), Obodo (Fiorentina) e Jankulovski (Udinese); Bojinov (Lecce), Amoruso (Messina) e Di Napoli (Messina)