Eventualmente o Brasil reconhece suas raízes italianas ao ver no futebol daquele país, maracutaias às quais estamos acostumados aqui. Temos exemplos recentes. A virada de mesa que guindou a Fiorentina à segunda divisão sem passar pela terceira; o escândalo do doping e o escândalo das apostas ocorrido no ano passado. Até parece o futebol da CBF.

Lamentavelmente, os italianos têm uma vantagem. Os problemas vergonhosos acontecem, mas, com uma freqüência muito maior do que no Brasil, pessoas são punidas. E ao contrário daqui, gente até vai para a cadeia. Na semana passada, a justiça italiana deu um exemplo inimaginável até pouco tempo atrás: condenou a poderosa Juventus no caso do doping.

Relembrando: em 1998, depois de uma entrevista do então técnico da Roma, Zdenek Zeman, a justiça começou a investigar o uso de substâncias proibidas no futebol, especialmente no clube de Turim. Tinha cheiro de pizza, mas na semana passada, a Juventus foi condenada pelo uso de doping, com o seu médico Riccardo Agricola sendo condenado a uma multa e a 22 meses de prisão. O clube ainda pode recorrer um mais uma instância, mas é provável que – quem diria? – o médico da Juve acabe no xilindró.

A acusação conseguiu provar que a Juventus, entre 1994 e 1998, teve uma série de sucessos quase inédita (foram nove títulos importantes), logo depois da chegada do trio Luciano Moggi-Roberto Bettega-Antonio Giraudo ao comando do clube, acompanhados de Agricola.

Os resultados são tão alarmantes que não se sabe como Giraudo, tecnicamente o representante jurídico do clube, foi absolvido, porque “não sabia” da dopagem. Para dar um exemplo, enquanto a maioria dos clubes ministravam três gramas de creatina dentro dum determinado período, a Juventus usava vinte. Mais: o clube usava, sozinho tantos medicamentos quanto o de um hospital de pequeno-médio porte, conforme a sentença do juiz Casalbore, que determinou que a Juventus é responsável sim por fraude esportiva e por colocar seus dependentes em risco por uso excessivo de fármacos.

E agora?

A notícia, embora sem o glamour de uma conquista de um título, ou de uma goleada num clássico, tem um efeito bombástico. Tanto é que o Ajax, que perdeu a Copa dos Campeões para a Juventus em 1996, está cogitando se entra ou não na justiça para que a Juve perca aquele título, gerando verdadeiro ódio da imprensa italiana, que acusa os holandeses de serem os “inventores” do doping moderno.

Naturalmente que o futebol italiano sai manchado do episódio, mas o país está fazendo uma investigação que nenhum outro país teve coragem de fazer, desnudando um problema que qualquer médico envolvido com esporte atesta. Claro, se não for publicamente: o que o doping está pesadamente presente no meio dos atletas de alta performance. No caso da Itália, é ainda mais surpreendente, porque a “Operação Mãos-Limpas” começou justamente colocando na cruz o clube mais tradicional e poderoso do país.

É possível, na letra fria da lei, que a Juventus perca suas conquistas, em decorrência da condenação. Sim. “Se houve doping, não se pode falar em vitória”, analisou o técnico do Bologna, Carlo Mazzone, numa entrevista na RAI, neste domingo. Contudo, seria uma decisão inédita, bombástica e cujo efeito poderia ser devastador. Conhecendo-se o perfil das decisões políticas da FIFA, é pouco provável que isso aconteça.

Lippi x Zeman

Ainda no contexto da condenação da poderosíssima Juventus pela justiça italiana, um bate-boca aqueceu a TV italiana depois da rodada de domingo. No programa da RAI, “Stadio Sprint 2”, o técnico que iniciou a investigação do doping na Itália, Zdenek Zeman, encontrou Marcello Lippi, técnico da seleção italiana e, no período investigado, treinador da Juventus.

Zeman estava quieto demais para seu estilo, quando foi acusado por Antonio Giraudo, dirigente da Juventus, de usar “Voltaren quando estava na Lazio”. “A Juventus acha que venceu, mas para mim, perdeu. Se um clube é condenado por fraude esportiva e doping, é uma coisa triste para o futebol e para o clube em questão”, disparou Zeman, que ainda sugeriu a ignorância de Giraudo, adicionando que “certas pessoas podem não saber, mas Voltaren é um medicamento para curar lesões, e não melhorar rendimento”.

Lippi entrou na conversa e defendeu a Juventus, dizendo que o clube só venceu porque tinha muita “força moral”. Zeman retrucou dizendo que Lippi se contradizia, porque depôs ao juiz dizendo que ministrava somente “três gramas de creatina, quando no livro do clube os dois (n do r: Lippi e Agricola, médico do clube) ministravam 20”.

Lippi se enfureceu, e levantou a voz, dizendo que Zeman era um moralista e que “era injusto ele continuar a fazer parte de um sistema que ele considera errado”. “Continuo no futebol porque quero ver um futebol limpo”, rebateu Zeman, certamente o homem mais incômodo do futebol italiano. No final, Zeman disse que não tinha nada pessoal contra Lippi, mas o aristocrático técnico da seleção perdeu o rebolado e disse que não era possível uma convivência com Zeman.

No “Derby d’Italia”, vence o Milan

Inter e Juventus disputaram o “Derby d’Italia” número 172, cercados pela fleuma de jamais terem sido rebaixados. Na balança, o sepultamento definitivo da Inter em relação ao título, ou a embolada da Juventus na ponta da tabela. Adriano e Vieri x Ibrahimovic e Cannavaro.

Empate, mas com sabor amargo para a Juventus, que vencia até 9 minutos do final. Vieri mudou o jogo, carregando a Inter à frente, e ajudando Adriano a fazer mais um gol. Quem comemora é o Milan, que tirou dois pontos da Juventus e aumentou dois da Inter, mesmo que não tenha empolgado contra o Chievo.

O resultado é mais pesado para a Inter, que não se despediu, mas já comprou passagem de adeus à corrida pelo título. Não dá para encontrar na Inter um vetor que a eleve à condição de Juve e Milan ainda nesta temporada da Série A. Quanto à Juventus, o time de Capello ainda é de uma solidez impressionante. Suas chances de sucesso estão ligadas à extensão dessa solidez por mais ou menos tempo.

Com o empate diante da Juventus, a Inter estabeleceu um curioso recorde

Nenhum time italiano na Série A, depois que foi adotada a vitória por três pontos, tinha conseguido perder 22 pontos em 13 rodadas sem sofrer nenhuma derrota

Uma piada circula na Itália, dizendo que a torcida da Inter já prefere sair perdendo os jogos, porque pelo menos, empata com sabor de vitória

A Lazio é o time que mais teve jogadores marcando na atual temporada da Série A

Já foram 10: Fernando Couto, Rocchi, Di Canio, De Sousa, Inzaghi, Muzzi, Oddo, Manfredini, Pandev e Talamonti

Na última semana, o argentino Crespo anotou quatro gols pelo Milan, passando de “atacante em decadência”, para “o goleador de sempre”, segundo títulos da imprensa italiana

A seleção Trivela da 13a rodada é a seguinte:

Dida (Milan); Cannavaro (Juventus), Nesta (Milan) e De Rosa (Reggina); Camoranesi (Juventus), Baronio (Chievo), Dhorasoo (Milan) e Jankulovski (Udinese); Cassano (Roma) Vieri (Inter) e Montella Roma).