Foi uma aposta arriscada. Contratar Zdenek Zeman é contratar dor de cabeça. O técnico tcheco não tem papas na língua, não aceita jogar com prudência, pede demissão com a mínima intromissão no seu trabalho, não perdoa chiliques de estrelas, e ainda atrai o ódio supremo da Juventus, que ele, Zeman, acusou de dopar seus jogadores, em 1998.

Contudo, o Lecce também sabia que Zeman era uma das poucas alternativas para ficar na Série A sem investir muito dinheiro, lançando jogadores novos, e com um pouco de sorte, até dando espetáculo. Sim, porque quando Zeman trabalha, seus times são pura emoção. No ataque e na defesa.

O time salentino não tem os mesmos seis pontos da líder Juventus, mas é o melhor ataque em duas partidas (seis gols). E na vitória de virada sobre o Brescia, o Lecce simplesmente deu uma aula de futebol ofensivo. ‘Pressing’ no campo do adversário, marcação intensa também por parte dos atacantes, time jogando junto na mesma faixa do campo. A supremacia do time do sul fica evidente na diferença de escanteios a seu favor: 16, contra somente dois dos rivais lombardos.

A partida positiva do Lecce é ainda mais surpreendente, se levarmos em conta que o treinador tem o hábito de fazer uma pré-temporada pesadíssima fisicamente. Zeman gosta de que seus times tenham fôlego na reta final dos torneios. Assim, não é incomum que seus times patinem no começo, exatamente ao contrário do que está acontecendo com este Lecce.

Outro dogma “zemaniano” é o uso do 4-3-3. O técnico acredita que o esquema é o mais favorável para a prática do futebol ofensivo, e que, mesmo na defesa, quando bem praticado, é mais eficiente. Isso desde que os atacantes laterais se agreguem ao meio-campo quando sem a posse de bola.

Nesta temporada, o maior investimento do clube foi a contratação do arqueiro Sicignano, titular experiente da defesa. No quarteto defensivo Cassetti-Diamoutene-Stovini-Rullo, Diamoutene está emprestado pelo Perugia. É um setor que constantemente fica sob pressão, mas é um risco que Zeman aceita correr.

O segredo do sucesso do time até agora começa no meio-campo. O técnico centralizou Ledesma, volante dinâmico para iniciar a jogada, e postou Dalla Bona (emprestado pelo Milan) e Giacomazzi (recuperado pelo esquema e pelo treinador) para as ações ofensivas. Basicamente, o time joga sem meias, mas todos os volantes armam.

No trio ofensivo, Zeman ainda teve de perder Chevantón, artilheiro leccese na última temporada. Pegou a promessa búlgara Bojinov (18 anos) e colocou de centroavante; em seu suporte, alterna Bjelanovic, Konan, Pinardi e o brasileiro Babú (contratado a custo zero). Quando este trio parte com a bola dominada, normalmente tem maioria numérica. Aí, faz a festa da uva na defesa adversária.

Quanto vai resistir o Lecce nesta marcha? É difícil dizer. Até porque o primeiro teste duro “de verdade” do time é nesta quarta, contra a Roma, no Olímpico. Mas vale lembrar que a Roma vem de sua confusão na Liga dos Campeões (com partida suspensa e tudo) e de uma derrota rocambolesca para o Messina. Se Totti e companhia não ficarem espertos, podem ter uma grande surpresa do ex-maestro.

Suor e silêncio: a Lazio surpreende

Ninguém tinha ilusão de que esta temporada da Lazio seria dura. Vendidas as maiores estrelas, contratado um técnico estreante na Série A, com dívidas até nas meias dos jogadores, o clube de Formello se preparou psicologicamente para pensar em não cair.

Porém, duas semanas depois de iniciada a Série A, a Lazio de Mimmo Caso vai bem, obrigado. O time bateu a Sampdoria na estréia, meteu três no Metallurg Donetsk, pela Copa UEFA, e ainda empatou um jogo com a Reggina, graças a um gol de Bonazzoli, “Van Basten-style”, para o time re Reggio Calábria.

A Lazio deve sofrer nas próximas semanas pelo excesso de jogos, já que tem um elenco curto. Mas até agora, mostrou uma defesa compacta, com Oddo e Zauri externos, Couto e Siviglia centrais; um meio-campo disciplinado, comandado pelo determinado Giannichedda, e um ataque Di Canio-Simone Inzaghi, que une raça e técnica, ainda que sem nada de espetacular.

Com a contratação do central espanhol Lequi (que não é nada demais, mas é bastante experiente), a Lazio deve ter um elenco que pressupõe que o rebaixamento não deva ser perigo durante a temporada. A vaga UEFA será difícil (contra Palermo, Parma, Udinese, Fiorentina, Sampdoria, etc), mas não impossível. Atenção ao macedônio Pandev, jogador bem interessante.

Quem será a revelação do campeonato?

Depois de duas rodadas, ainda não dá para dizer que time que vai ser a revelação do campeonato. Dois jogos em 38 são muito pouco para tanto. E na Itália, há uma grande discussão sobre qual time vai chegar à 38ª rodada tendo superado mais as suas próprias expectativas. Os candidatos mais fortes para tal posto são o Palermo, Lecce, Messina e Fiorentina. Curiosamente, somente a ‘Fiore’ não é do sul do país.

O Palermo é o favorito por uma questão simples. É o que investiu mais dinheiro nos últimos dois anos. Não à toa, subiu da Série B com uma excelente campanha, tem um centroavante digno dos times grandes da Itália (Luca Toni), além de um elenco farto para praticamente todos os setores.

O Lecce era olhado com dúvidas, mas as suas duas primeiras partidas fizeram acreditar que os “giallorossi” do Salento possam ser a sensação da temporada. Time de Zeman (o técnico), ou dá desastre, ou dá show. Até aqui, Zeman mostrou um time em evolução física, taticamente excelente e com um Bojinov mortal.

O Messina também não contava com grandes favoritismos, mas superar a Roma, ainda que com problemas, marcando quatro gols, é um sinal de que coisas boas possam ser feitas. Os meias Yanagisawa e Donati têm condição técnica de fazer o time avançar.

E finalmente, a recém-promovida Fiorentina. Se trata de um time tradicional, com apoio da torcida, e uma série de jogadores (Jorgensen, Miccoli, Maresca, Nakata, Ujfalusi, Obodo) capazes de dar o “extra” necessário para surpreender. De realmente fraco na equipe “viola”, somente o técnico Mondonico, que há muito tempo não mostra nada de interessante.

Palpite desta coluna? Como a Trivela não gosta de muro, cravamos o Lecce, até porque o Palermo é tão dado como candidato à vaga na Copa UEFA que, caso fique ao redor desta região, nem será tanta surpresa. Determinante para a evolução do grupo de Zeman a sua condução física. Se o tcheco conseguir fazer o grupo manter o nível atual e der um ‘sprint’ no fim, campanha sensacional garantida; caso contrário, tudo pode acontecer.

Futebol no meio da semana

No ano incomum de Olimpíadas e Europeu, algumas rodadas de meio de semana são inevitáveis. Nesta quarta-feira, os times voltam a campo já para a terceira rodada, e alguns deles correm o sério risco de já sentir o cansaço físico de um início de temporada extenuante.

Várias partidas interessantes estão programadas. Em Roma, a torcida romanista tem um encontro marcado com o ex-técnico Zeman e seu Lecce surpresa. Jornada extremamente perigosa para uma Roma ainda fraca na defesa; a “prima” Lazio vai a Brescia enfrentar um time com zero pontos, mas deve ter desfalques.

Palermo x Fiorentina é outro jogo que chama a atenção. Dois times que acabaram de subir, mas contrataram muito e bem no ‘calciomercato’. Toni x Miccoli protagonizarão um duelo que pode acabar em parceria na Seleção. E no clássico da Reggio Emilia, o Parma recebe o Bologna.

Por fim, atenção à Sampdoria x Juventus. A Samp parece debilitada, mas é indubitavelmente um time perigoso, ainda que não vá ter seu regista Volpi. Na Juventus, a animação é muito grande pela boa largada no campeonato, mas tal entusiasmo não raro causa problemas. Sorte da Juve que, seu técnico é alguém tão experiente quanto Fabio Capello.

O veterano Pagliuca completou sua 533ª partida pela Série A do Italiano salvando o Boilogna de uma goleada

Pagliuca ultrapassou outro famoso goleiro, Albertosi, e só perde, na atual Série A, para Paolo Maldini, com quatro jogos a mais

O recordista é Dino Zoff, com 570 jogos

Quem chamou a atenção na partida entre Lazio e Reggina foi o brasileiro Mozart, bastante amadurecido desde sua saída do Brasil

Em sua primeira partida em cinco meses, Filippo Inzaghi não sentiu dores, acertou o travessão e ainda deu o passe para Kaká fazer um gol

Depois do lapso da primeira rodada, a seleção TRIVELA da segunda rodada do Italiano

Pagliuca (Bologna); Cafu (Milan), Cannavaro (Inter) e Parisi (Messina); Jankulovski (Udinese), Emerson (Juventus), Kaká (Milan) e Giampá (Messina); Bojinov (Lecce), Montella (Roma), Adriano (Inter)