Mês: janeiro 2004

Uma Inter órfã de Moratti

“Algumas pessoas estão sujeitas à delicadeza da paixão; que as faz extremamente sensíveis a todos os acidentes da vida, e dão-lhes uma alegria vívida a cada evento próspero, da mesma maneira que uma dor insuportável quando elas se deparam com as agruras da vida”. Esta frase é da obra “Ensaios morais, políticos e literários”, do filósofo inglês David Hume, mas poderia, com precisão, descrever a personalidade do presidente demissionário da Inter, Massimo Moratti.

Moratti é um homem em extinção, pelo menos do que se sabe de sua vida pública. Correto e gentil ao extremo, colocou sua paixão pela Inter de Milão diante de tudo nos nove anos em que a dirigiu, e talvez este tenha sido seu maior erro, que o entorpecia de felicidade a cada vitória do time interista e que o dilacerava nas incontáveis crises to time ‘nerazzurro’.

Hume era um que via a humanidade com um ceticismo bem acentuado, acreditando pouco na bondade humana e vendo o homem de uma maneira não muito nobre. A saída de Moratti da Inter só faz dar razão ao pensador inglês. O futebol, como toda a sociedade, está repleto de pilantras, traidores, mentirosos, velhacos e toda sorte de golpista. O cavalheiresco Moratti descobriu isso na pele, e sentiu a dor insuportável em mais de uma ocasião.

A saída do dirigente, no entanto, foi tardia. Sua paixão desenfreada pelo clube o fez muito suscetível e permissivo, justamente numa entidade marcada pela caótica política interna, onde privilégios são defendidos a ferro e fogo, mesmo com um preço a ser pago pelo time, em campo.

Ao mesmo tempo em que comprou, com dinheiro do seu bolso, dezenas de jogadores para a Inter, Moratti prejudicou a gestão interista. Não foi duro quando precisava ser; confiou quando não podia confiar; acreditou quando não deveria acreditar; disse a verdade quando teria de ter mentido. Mas, pelo que dizem os mais próximos a ele, se trata de sua natureza.

O clube agora passa às mãos de Giacinto Facchetti, lenda interista dos anos 60, e dirigente há alguns anos. Facchetti, junto com Oriali, tem uma gestão desastrosa em suas mãos, mas sempre teve o álibi de ser tolhido pela magnanimidade de Moratti. Para dar um jeito na Inter, Facchetti tem de impingir uma política de punho de ferro. Precisa fazer uma limpeza em todo ambiente, especialmente no elenco. Este campeonato já está perdido, e a vaga na Liga dos Campeões que vem, em risco. Os próximos seis meses dirão se Facchetti é a solução ou a causa dos problemas de Appiano Gentile.

O fantasma da grande Inter

Massimo Moratti sempre teve sobre si um fantasma: a sombra de uma Inter vitoriosíssima nos anos 60, conduzida pelo seu pai, Ângelo, e pelo técnico Helenio Herrera, uma lenda no clube. Herrera era argentino, e esta foi uma das razões que fez Massimo contratar Hector Cúper, a sua decisão mais acertada nos últimos anos, mas que não teve a força necessária para vencer os vícios do clube.

Moratti assumiu a Inter num momento difícil, em 1995. Comprou as ações do ex-presidente Pellegrini. Sua idéia era retornar o clube ao lugar vitorioso. Todos viam nele o herdeiro ideal de seu pai, e num momento em que o Milan entrava num momento ascendente depois da rebordosa de conquistas, a impressão era que finalmente as glórias voltariam.

Contudo, somente uma Copa UEFA e dois vice-campeonatos chegaram ao colo do presidente Massimo, mesmo com as dezenas de milhões de dólares despejados anualmente nas contratações de mega-astros como Ronaldo, Seedorf, Roberto Carlos, Paul Ince, Vieri, e de outras dezenas de jogadores menos famosos. O problema sempre esteve na política do clube.

Quando contratou Marcello Lippi para a Inter, Moratti fez de tudo para levar também o DG da Juventus, Luciano Moggi. Era a cartada certa. Político hábil, cruel quando necessário, Moggi era a pessoa mais indicada para acabar com os grupelhos no clube. Mas a Juve ofereceu sociedade acionária e Moggi ficou em Turim. Lippi fracassou retumbantemente na Inter.

Três anos atrás, Moratti, seduzido pelo estilo duro de Hector Cúper, e pela mística de ter novamente um argentino no banco da Inter, decidiu uma refundação. Cúper acabara de levar o inexpressivo Valencia a duas finais de Liga dos Campeões, seguidas. O que não poderia fazer com os craques e o dinheiro da Inter?

Deu poder absoluto a Cúper, mas as contratações ainda passavam pelas suas mãos. Cúper geriu a Inter com mão de ferro, e arranjou inimizades com Ronaldo, Di Biagio, além do ódio da cartolagem que tinha sido colocada para escanteio. Seu primeiro ano na Inter foi irrepreensível, mas um desastre na última partida tirou o título tão sonhado por Moratti. Um desastre onde os grandes culpados foram os jogadores, e não o técnico.

A história de lá para cá, todos já sabem. Cúper foi perdendo força até ser despedido. E o sonho de glória de Moratti desvaneceu. Teve de dar lugar à realpolitik que governa o mundo desde sempre. O presidente se deu conta que as coisas tinham de tomar um rumo diferente. Sua gestão foi falimentar como dirigente, mas o cavalheiro Moratti continua encantando.

Defesa juventina em alerta vermelho

Uma perigosa combinação de contusões, rodízio, falta de entrosamento e concentração fez com que Marcello Lippi acionasse o alarme. Nas suas próprias palavras, a defesa juventina está em crise. O técnico de Viarreggio, no entanto, assegurou: a Juve não contrata ninguém. A pergunta é se deveria ou não faze-lo.

Pela primeira vez em muitos anos, a Juventus entra no returno tendo sofrido 21 gols. Excessivos para os 18 primeiro jogos. O ataque segue forte, com 41 tentos marcados até aqui, mas o segredo das conquistas juventinas é a defesa impenetrável, e os números são fiéis para tal retrato.

Na temporada passada, a Juventus sofreu, em 34 partidas, somente 29 gols; na temporada anterior, menos ainda: 23 gols. Nem mesmo nos dois anos de vice-campeonatos seguidos (perdendo para Roma e Lazio), a Juve tinha a defesa tão vulnerável. Foram 27 em 2001 e incríveis 20 em 2000.

Marcello Lippi está com dores de cabeça porque Nicola Legrottaglie não manteve o ritmo do início do campeonato. O jogador parecia ter se encontrado rapidamente, mas o crescimento físico dos adversários e uma pubalgia diminuíram o seu rendimento. O croata Igor Tudor não consegue se recuperar de lesões seguidas há duas temporadas (deve ser vendido no fim deste torneio), e a defesa acaba se segurando nos veteranos Montero e Ferrara. O problema é que Ferrara também está fora de combate (assim como o lateral Birindelli), e as escolhas estão zeradas. Queira Lippi ou não, a defesa do próximo jogo será composta por Iuliano-Montero.

Não é só a zaga que tem culpa. A saída de Davids, claro, deixou marcas. O holandês é um gigante na guarnição da retaguarda, e Appiah, mesmo promissor, é inferior. Thuram também rende abaixo do esperado, e Zambrotta, por ser um meia de origem, naturalmente expõe um pouco mais a primeira linha.

Perspectivas: se a Juventus tiver preparado seu condicionamento físico para atingir os píncaros na época da final de Liga dos Campeões (bastante possível), tudo OK. O time deve subir de produção em breve e, para variar, veremos uma arrancada ‘bianconera’ na reta final, com ênfase na Europa. Se não. Lippi está mesmo em apuros, especialmente se mais algum de seus homens chave entregar os pontos.

A culpa era do técnico?

Dificilmente um clube reverte uma má série de resultados demitindo um treinador. Normalmente, a série negativa reflete uma campanha de contratações errada, uma má preparação física, um mau ambiente entre treinador e jogadores. Isso não é uma opinião, é fato. A maioria esmagadora dos clubes que caem para a segunda divisão trocam de técnico durante a temporada.

Esta coluna cravou, semanas atrás, que Empoli e Ancona já tinham feito “votos de rebaixamento”. Sem nenhum previsionismo mágico. A equação que soma rabeira da tabela com troca de treinador é forte demais para ser vencida. Mas um clube toscano está querendo contrariar a regra.

O Empoli, sociedade que tem a sua história marcada por sobes-e-desces, trocou de técnico na quinta rodada. Mandou embora o ex-jogador Daniele Baldini e contratou Attilio Perotti. Parecia somente mais uma troca de nomes, mas pode ter sido engano. O Empoli está mostrando uma virada que pode salvar sua pele.

Há três rodadas que o clube vizinho da Fiorentina faz pontos. E diga-se de passagem, que em duas das partidas, visitou a Inter em San Siro e recebeu a Juventus, granjeando quatro pontos com uma vitória externa e um empate caseiro. Na terceira partida em questão, bateu o Ancona, que parece irremediavelmente perdido. A reação empolese é tão boa que o time já saiu da zona de rebaixamento, deixando Lecce, Perugia e Ancona para trás.

Segredos? Provavelmente se trata é de trabalho de um treinador acostumado a esta situação. Perotti teve reforços, é verdade, como o firme zagueiro Vargas, contratado junto à Reggina (e que faz falta em Reggio Calábria), e Vannucchi, que voltou do Catania. Mas no geral o time é o mesmo do ano passado. Como contraste, o Perugia fez quase dez contratações, que têm se mostrado inúteis.

O treinador do Empoli recuperou a auto-estima do grupo, acertou o meio-campo, com dois volantes (Lucchini e Grella, um jogador a ser acompanhado) e três armadores suportando o avante Rocchi, quatro gols nos últimos dois jogos, e performances que certamente o habilitam para times maiores.

“Então o Empoli não cai?” Devagar com o andor porque o santo é de barro. A luta contra o rebaixamento na Série A é a mais atroz das grandes ligas da Europa, e outros ameaçados como Modena, Lecce e Reggina também têm condições técnicas de evolução. O Ancona é o único que parece sepultado, enquanto o Perugia já começa a vagar pela tabela como um zumbi.

Curtas

Os atletas do Milan fizeram grande festa pelo gol de Rui Costa, contra o Ancona

O português não assinalava um tento no campeonato italiano há 1.031 dias, quando ainda vestia a camisa da Fiorentina, numa partida contra o Vicenza

Paolo Maldini quebrou mais uma marca

Completou sua 519a partida de campeonato coma malha milanista, igualando o interista Giuseppe Bergomi

Bernardo Corradi, centroavante da Lazio, chegou à sua 100a partida de Série A, sendo 48 delas vestindo a malha ‘biancoceleste’ do clube de Formello

O Ancona pode bater uma marca negativa, caso continue com o ataque que tem

O clube marchegiano tem somente 7 gols em 18 partidas

O recorde negativo, de 1989, é do Pisa, com 16 tentos nas 34 rodadas

E esta é a seleção Trivela da semana no campeonato italiano

Pagliuca (Bologna); César (Lazio), Ferrari (Parma), Natali (Bologna) e Stam (Lazio); Santana (Chievo), Di Natale (Empoli), Kaká (Milan); Rocchi (Empoli), Trezeguet (Juventus) e Bazzani (Sampdoria).

Metade já foi!

Se ainda estivéssemos na metade dos anos noventa, a conquista do título de inverno do futebol italiano, por parte da Roma, significaria 90% da conquista do ‘scudetto’. Isso porque, historicamente, quem chegou à frente no final do primeiro turno, venceu o campeonato em maio (até 1997, a proporção era de 9 vezes em dez).

Mas dos últimos seis campeonatos, somente em duas oportunidades o campeão de inverno venceu o ‘scudetto’. Em 1998, a Juventus de Zidane tinha vencido o primeiro turno; em 2001, a Roma de Batistuta, também. Nas outras quatro oportunidades, o campeão atropelou na reta final.

Hoje, a proporção dos ‘scudetti’ conquistados pelo campeão de inverno caiu para 67%. A campanha da Roma é, incontestavelmente, excepcional. Contudo, esta coluna segue colocando Juventus e Milan como favoritos ao título deste ano, contrariando a opinião de plantão na imprensa. Sem “achismo”.

Fabio Capello é, historicamente, um treinador que organiza as campanhas de seus times “em fuga”. Ou seja: prefere arrancar na frente e administrar a distância de três ou quatro pontos durante todo o torneio. Foi assim na conquista de todos seus títulos no Milan e assim na conquista do título da Roma em 2001. Mas nesta temporada, assim como no título de inverno de 2002, o time de Trigoria não tem vantagem numérica ou quase isso (três pontos acima da Juve e do Milan, mas com os ‘rossoneri’ com um jogo a menos).

Francesco Totti foi o artífice de uma campanha excelente (leia o excerto abaixo). É o artilheiro da Roma com onze gols (seu recorde histórico é de quatorze tentos numa temporada), e vice-artilheiro do Italiano, mesmo sem jogar como atacante puro. É pouco provável que Totti repita o seu primeiro turno, e sem ele, Capello não tem nenhum jogador (aparentemente) em condições de fazer o salto de qualidade, ao passo que Juve e Milan têm vários craques que ainda não atingiram os seus auges (Pippo Inzaghi e Del Piero, por exemplo).

A Roma será assombrada neste segundo turno, sem sombra de dúvida, por ofertas milionárias pelos seus campeões. Fabio Capello, Emerson, Samuel e Christian Chivu serão assediados insistentemente. A prática mostra que tal assédio prejudica as performances dos atletas (que o digam Stankovic e Davids), e a Roma, entre os quatro grandes, é o único sem condições de bancar investidas milionárias.

Os indícios de trovoadas sobre o futuro romanista não tiram as chances da Roma, nem a colocam como o azarão do páreo. Como sempre, a Roma, para vencer um campeonato, precisa fazer um esforço maior do que Milan e Juve, para tirar a diferença que existe entre os clubes. Teremos um segundo turno sensacional, provavelmente, o mais ferrenho entre os grandes torneios europeus. Essa é a única certeza.

Totti e mais dez

Sendo ou não sendo romanista, não dá para não apreciar o talento de Francesco Totti, hoje, espinha dorsal e cérebro desta Roma de Capello, que chegou ao título de inverno depois de uma briga feroz com Juventus e Milan. A campanha de 17 jogos e 13 vitórias ilustra o rendimento deste time.

O time merece aplausos, sem dúvida. Mancine se adaptou excepcionalmente bem à ala-direita (embora compara-lo com Cafu ainda seja uma pataquada típica de imprensa esportiva); Samuel é um dos melhores centrais da Europa; Emerson tem o respeito de 191 países no mundo (adivinhe qual o único onde ele é tido como uma besta?). Mas sem Totti, a Roma briga para não ficar fora da próxima Liga dos Campeões, e nada mais.

O capitão romanista é o tipo do jogador que bate o escanteio e corre para cabebecear. Se a sua presença nos últimos anos tem sido essencial, neste ano passou a ser mais que isso. Totti é o jogador que dá criatividade ao meio-campo, incisividade ao ataque, e até mesmo mais tranqüilidade à defesa, pois os adversários não se lançam à frente com tanta sede.

O momento do meio-campista italiano hoje é, até aqui, o melhor em sua carreira. Estivesse numa equipe grande do futebol europeu, como o Manchester United, ou o Real Madrid, e é muito provável que Totti já tivesse vencido a Bola de Ouro. Se bem que, como disse Michel Platini, é difícil saber como o craque se comportaria numa cidade que não fosse a sua cidade natal.

Na atual temporada, Totti se supera, porque além de tudo, ainda supre a carência que a Roma tem de um centroavante eficaz (Montella esteve machucado por bastante tempo, e Carew está se adaptando somente agora). Seus 11 gols sugerem um recorde individual antes de junho. Caso o craque não se machuque, a marca ainda é possível.

Luta dura na rabeira

Um mês atrás e o campeonato estava com dois times praticamente rebaixados. Empoli e Ancona começaram devagar-quase-parando, enquanto a maioria dos outros times já ia granjeando pontos. No fim do primeiro turno, o Ancona ainda está no fundo do poço, semi-morto, com cinco pontos em 51 possíveis. Mas o Empoli puxou a faca e quer sangue.

O time toscano começa a dar sinais de reação da chegara do técnico Attilio Perotti, que sempre opera muito bem em times menores. O Empoli deve se reforçar com o atacante Maccarone, do Middlesbrough, e na partida com a Inter, em San Siro, lembrou o bom Empoli do ano passado.

Discurso similar se faz com o Lecce. Delio Rossi já recebeu alguns reforços, como o goleiro Sicignano e os meias Bolaño e Wilfried Dalmat (irmão de Stephane Dalmat, da Inter, emprestado ao Tottenham). Some-se a isso, a promessa búlgara Valeri Bojinov fez seu primeiro gol na Série A, e promete mais. Bojinov tem 17 anos e é apontado como uma das figuras mais talentosas da nova geração.

Enquanto isso, o Ancona continua se arrastando, e no último domingo, apresentou o brasileiro Mario Jardel, que fisicamente, parece ter uns cem quilos. Jardel foi liberado pelo Bolton, e é uma aposta desesperada do Ancona para encerrar seu vexame. Junto com o Ancona, também dá vexame o Perugia, que não venceu até aqui na Série A. Mas também, o que se poderia esperar de um time que contrata o filho de Gheddafi, tenta contratar uma mulher para jogar com homens (a título de marketing), e tem histórico em viradas de mesa?

Se levarmos em conta que somente dois times caem direto para a Série B (o terceiro disputa um desempate com o terceiro melhor da Série B), a luta contra o rebaixamento segue sendo entre seis times: Modena e Reggina (17 pontos), Lecce e Empoli (12 pontos), Perugia (10 pontos) e Ancona (5).

Inferno Inter: o problema era Cúper?

Dois meses atrás, achar alguém que falasse mal de Hector Cúper era mais fácil do que encontrar um sapo num brejo. Segundo esses entendidos, o treinador argentino, com sua “retranca” (n.do r.: a mesma retranca que fez do Mallorca finalista da Recopa e do Valencia duas vezes finalista da Liga dos Campeões), era o culpado por todos os males da Inter. Olhe de novo e pense bem se era isso mesmo…

A Inter mergulhou de cabeça numa crise infernal. Empatou em 0 a 0 com a Udinese pela Copa Itália (Vieri se recusou a jogar e causou o maior sururu), e perdeu para o Empoli em casa (com Vieri de castigo). Todo o jogo burocrático e sem vontade da Inter da última década voltaram à tona. E desta vez não tem Cúper para se por a culpa.

A visceral complicação interista é um misto de distorção de sua diretoria (recheada de ex-boleiros que estão longe de ser uma solução para qualquer coisa) e de caos histórico, uma marca do time de Via Durini. Não há nu clube ‘nerazzurro’ algo próximo do que se possa chamar de ‘disciplina’, e que diga-se de passagem, Hector Cúper tentou implantar quando era o chefe da comissão técnica.

O eterno fracasso interista agora aponta para Vieri como culpado, mas antes já apontou, além do ex-treinador argentino, para Seedorf, Pirlo, Ronaldo, Roberto Carlos e tantos outros. Na verdade, como disse o ex-craque Bergomi, na Inter os jogadores sempre podem dar suas desculpas e nada acontece. Daí, o caos reinante, resultado de uma falta de responsabilidades atroz, e que passa, em imensa parte, pela gestão da dupla de ex-jogadores e hoje dirigentes, Facchetti e Oriali.

A diretoria interista estuda algumas possibilidades. Uma delas é a de dar a Alberto Zaccheroni um poder ilimitado para torrificar quem quer que seja, no elenco, na comissão técnica, na diretoria. Essa saída soa racional, porque a limpeza poderia ser feita de cabo a rabo.

Outra possibilidade é a que se consiste na enésima demissão de treinador em junho (diga-se Zaccheroni), para a chegada de um outro (que poderia ser Roberto Mancini, hoje na Lazio). Tal medida já foi tomada em muitas outras oportunidades. E como sabemos, não deu nem um pouco certo.

Curtas

Gol de número 185 para Giuseppe Signori, hoje no Bologna

Signori disse que não para enquanto não fizer 200 gols

Na mão de Carlo Mazzone, seu treinador no Bologna, não duvide

Luigi Sartor estreou no Ancona, perfazendo sua 150a partida na Série A; Lamouchi (Inter) e Di Michele (Reggina) chegaram ao número 100

Ancona e Perugia não venceram nenhuma vez no primeiro turno, o que pode dizer bastante sobre os candidatos ao rebaixamento

O Milan teve a melhor campanha fora de casa: nenhuma derrota, dois empates e seis vitórias

Nunca um time campeão de inverno tinha feito 42 pontos no primeiro turno

Recuperação nítida para o Bologna, vencedor pela terceira semana seguida

Os desentendimentos de Vieri com a Inter suscitaram muitos boatos na semana que passou

Até mesmo se imaginou o atacante no Milan

Como se diz na Itália, é “fantacalcio”

Mais uma vez, os jogadores na Inter comeram no cortado com a torcida pedindo explicações

E eis a seleção Trivela desta semana

Zotti (Roma); Diana (Sampdoria), Montero (Juventus) e Pancaro (Milan); Nakata (Bologna), Campedelli (Modena), Kaká (Milan) e Mintari (Udinese); Totti (Roma); Del Piero (Juventus) e Bojinov (Lecce).

Doping, o fantasma continua

Pouca gente dá atenção aqui no Brasil, mas o fantasma do doping segue bem vivo na Itália. Não bastasse as suspensões de Kallon (Inter) e Gheddafi (3 meses, mas provavelmente sua brilhante carreira se encerrou), mais Blasi (Parma), a Itália assiste a continuação de um inquérito que ainda é resultado das denúncias de Zdenek Zeman em 1999. A maior acusada: a poderosa Juventus.

Há quem diga que a derrocada do treinador, hoje no Avellino, se deveu ao ódio mortal que Luciano Moggi, dirigente juventino, passou a alimentar por Zeman depois das denúncias. Ainda que lentamente, os interrogatórios prosseguem. Nesta segunda, falaram Filippo Inzaghi (hoje no Milan) e Paolo Montero.

O depoimento de Montero não teve maior repercussão, mas o de Inzaghi sim. O atacante do Milan disse que os médicos da Juventus davam freqüentemente creatina, antiinflamatórios e analgésicos durante os jogos, especialmente quando ele estava cansado. Legalmente, a creatina não é proibida, mas ficou um clima esquisito no ar.

A Juve já vem se defendendo, dizendo que os fármacos que ela ministra aos jogadores são usados por todos os times. Esta afirmação talvez seja sintomática. Não são poucos os médicos que, fora das câmeras e microfones, dizem que TODOS os atletas de alto nível usam algum tipo de dopagem, mais ou menos agressiva.

A realidade é que esta sensação é cada vez mais concreta. O ex-tenista John McEnroe admitiu nesta semana que ele consumiu doping, fortíssimo, durante seis anos. McEnroe diz que não sabia. Mas o fato é que sua carreira foi grandiosa. Até onde o doping foi o causador de tal performance?

Parece nítido que só há uma saída para se diminuir a praga do doping no futebol: fazer com que as equipes sofram pesadas multas financeiras e percam pontos, além de apertar o cerco dos exames. É certo que muitos jogadores perderão um pouco de fôlego, mas pelo menos, se devolverá um pouco de lisura às partidas.

Roma sob intensa pressão

Não é só na tabela que a líder Roma está sob intensa pressão. Com o Milan no seu encalço (três pontos e um jogo a menos) e a Juventus logo atrás, o time de Fabio Capello não terá a conquista antecipada no título de inverno, como se previa.

Além disso, o próprio Capello passou a ser um alvo dentro da Roma. O Chelsea fez uma oferta de 500 mil euros por mês, num contrato de três anos, para que o técnico se transfira para Stamford Bridge ao final desta temporada. Capello declinou de responder se aceitaria o convite, quando questionado pela imprensa, e sorriu. “Só penso no tridente de meu time…”

A decisão de Capello está ligada à confirmação de todos os grandes astros do time romanista, inclusive aqueles que desejam um aumento salarial ou uma renovação de contrato. Nessa situação, se encontram os meio-campistas Emerson e Lima e o zagueiro central Zebina.

Emerson é a renovação mais complicada. Primeiro, porque, assim como Capello, também tem atrás de si o hexa-maxi-multi-milionário time do Chelsea, que poderia satisfazer as suas pretensões salariais (cerca de US$ 4,5 milhões anuais). Segundo, porque a Roma sofrerá muito para recusar a oferta de US$ 35 milhões pelo seu passe, especialmente em meio à crise que atravessa, ainda que não assumidamente.

Lima e Zebina terão seus contratos terminados em junho, e por isso, têm diversos pretendentes aos seus serviços (especialmente o francês). O nó aqui é que os dois querem um acréscimo salarial e um contrato mais longo do que a Roma está disposta a dar. O clube de Trigoria não quer nem gastar mais nem conceder vínculos longos.

Sem a renovação dos três, dificilmente Capello fica depois de junho, a menos que vença o ‘scudetto’, o que muda tudo de figura. O treinador obviamente está seduzido pela proposta salarial, mas o que mais chama a sua atenção é a possibilidade de ter os jogadores que quiser em Londres.

Além dessas questões, a Roma terá de se desdobrar para pagar os US$ 18 milhões que deve ao Ajax, pelo passe de Christian Chivu. O romeno quer fortemente ficar em Roma, mas sem grana, um abraço. Isso sem falar que pelo menos meia dúzia de outros clubes estão prontinhos para desembolsar a soma ao time da Holanda e afanar o bom defensor do clube romano.

Davids-Juve: caso terminado

Após seis temporadas de união, duas delas de brigas declaradas, episódios de doping, expulsões, três títulos italianos e muitas partidas excepcionalmente bem jogadas, chegou ao fim a relação entre o meio-campista Edgar Davids e a Juventus. O holandês, que tem contrato com o time de Via Galileo Ferraris até junho próximo, acertou sua transferência para o Barcelona por empréstimo até o fim desta temporada.

Davids é o sexto holandês do elenco de Frank Rijkaard, e a colônia batava da Catalunha foi um dos motivos que despertaram o interesse do jogador. Sua contratação teve o apoio de todos eles, além do ex-craque Johan Cruyff, cuja voz ainda ressoa muito no clube. O Barça deve pagar cerca de US$ 1,5 milhões para o jogador pelos seis meses.

A saída de Davids da Juventus é, sem dúvida, um handicap para Marcello Lippi, treinador do time de Turim. Davids, de 31 anos, é um dos melhores jogadores do mundo na sua posição, se não o melhor. É um marcador implacável que dificilmente é expulso por faltas desleais, mas tem um futebol refinadíssimo, e proporciona ao time em que joga uma rapidez precisa, onde a jogada ofensiva começa bem pensada logo na frente da defesa.

É verdade que a Juventus tem jogadores também bons para a posição. Stephan Appiah, volante ganês de 23 anos, Enzo Maresca, mediano italiano da mesma idade, e ainda o veterano Antonio Conte, de 35 anos, são bons jogadores e certamente conseguem boas performances. Mas nenhum deles pode impingir a agressividade aliada à qualidade técnica que Davids garantia.

Davids aportou em Turim em 1997, desprezado pelo Milan, então dirigido por Fabio Capello. Sua adaptação foi imediata, e se tornou titular quase imediatamente. Nos seis anos que passou em Turim, o holandês, nascido em Paramaribo, no Suriname, só não foi titular durante sua suspensão por doping e nos últimos meses, enquanto se digladiava com a direção juventina, que não admitia perde-lo a custo zero.

O Barcelona deve ter um salto de qualidade com a chegada de Davids ao seu desmilingüido meio-campo. Rijkaard, a partir de agora, terá um organizador melhor do que todos que tem no elenco, e ao mesmo tempo, um marcador mais eficiente também do que todos os concorrentes. Não é o suficiente para fazer do Barça um competidor pelo título, mas já deve bastar para encerrar a fase de vexames.

Inter, babau…

Várias semanas atrás, quando Hector Cúper foi demitido da Inter, esta coluna arriscou-se em dizer que o clube de Via Durini estava saindo da luta pelo título. Pelo menos era o que a história mostrava, e que times que demitem treinadores não conquistam campeonatos.

Quase no final do primeiro turno, a história vai se mostrando um indicador confiável. Com oito pontos a menos que a líder Roma, a Inter parece não ter de onde tirar forças para conseguir uma longa série de vitórias que lhe possibilite chegar à 34a rodada em primeiro lugar.

A derrota do time de Alberto Zaccheroni para o Parma deixou claro como a Inter vive de estrelas intermitentes. “Oba” Martins, decantado semanas atrás como se fosse um gênio do futebol, é inconstante; Vieri tem sido inconstante nesta temporada; Julio Cruz é inconstante. O único setor constante do time é o meio-campo. Nunca é de bom nível.

O problema crônico da equipe parece continuar com a falta de jogadores que possam dar qualidade ao passe e às jogadas ofensivas. Entre todos os doze atletas de meio-campo disponíveis no elenco, não há nenhum que transforme a cara da equipe. Mais assustador ainda é saber que jogadores que não rendiam nada na Inter (como o milanista Seedorf, o parmigiano Morfeo e o também milanista Pirlo), são titulares indiscutíveis em seus times. Essa observação faz supor problemas na preparação atlética da equipe.

Mesmo tendo ótimos zagueiros como Gamarra, Cannavaro, Córdoba e Adani, a Inter mais uma vez demonstra a sua falta de critério. Além de Dejan Stankovic, Massimo Moratti quer levar para Appiano Gentile o talmbém laziale Jaap Stam. Stam é um gigante; um dos cinco melhores zagueiros da Europa. Contudo, já ficou claro que o problema interista não é a individualidade, mas o coletivo.

A chegada de Stam quase que certamente empurrará um dos zagueiros interistas para fora do elenco (Adani e Gamarra na primeira fila). Stankovic é um excelente jogador, mas não é melhor do que os tantos nomes que a Inter já mandou embora por insuficiência técnica. Matematicamente, é claro que a Inter ainda está na parada. Pena, para os ‘nerazzurri’, que a matemática não seja a única a decidir o torneio.

Curtas

Não é difícil ver como os dirigentes do Perugia sejam absolutamente pouco sérios

Depois de terem guiado a virada de mesa na Série B (são também ‘capos’ do Catania), contratado o filho de Gheddafi para jogar bola, e terem (realmente!) tentado contratar uma jogadora, o presidente do clube deu mais uma das suas

Segundo Luciano Gaucci, Kaká deveria ter ido para o Perugia, com a ajuda do “craque” líbio Ghedaffinho

Seção curiosidade estatística

Dos nove jogadores que mais atuaram no Italiano até a 16a rodada, somente o argentino Sensini não é italiano

Sensini divide a terceira posição com o goleiro De Sanctis (Udinese)

Á sua frente estão o meio-campista Tonetto (Lecce) e o goleiro Antonioli (Sampdoria)

A Série A desta temporada mantém uma boa média de gols por partida: 2,61

42% dos jogos acabaram com a vitória dos donos da casa, e em somente 28% das partidas, o visitante recolheu três pontos

O Milan segue líder de público no campeonato

É o primeiro tanto em ocupação média de seus jogos (73%), quanto em público médio absoluto (62853 pessoas por jogo)

Luciano, o único jogador que, além de ser ex-de um clube (ex-Palmeiras, ex-Bologna, ex-Chievo), é ex-seu próprio nome (ex-Eriberto), acertou sua volta ao Chievo Verona

O chileno Cláudio Pizarro renovou contrato com a Udinese até 2007

O Ancona, que perdeu nas últimas seis rodadas, tem uma média de 0,25 pontos por partida

Só não cai por milagre

E esta é a seleção Trivela do Campeonato Italiano nesta semana

Frey (Parma); Mancini (Roma), Cufré (Siena), Montero (Juventus) e Maldini (Milan) ;Di Biagio (Brescia), Emerson (Roma), Kaká (Milan e Obodo (Perugia); Chiesa (Siena) e Ventola (Siena)

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